Resumo: Esta monografia discorre sobre as possibilidades de reinserção da pessoa portadora de esquizofrenia nos convívios familiar e social à luz da Análise do Comportamento. Ressalta a necessidade do Treinamento em Habilidades Sociais para que se possa garantir a integração e a reinserção e romper com os estigmas e preconceitos, promovendo a sociabilidade dessas pessoas.

Palavras-chave: esquizofrenia, treinamento em habilidades sociais, análise do comportamento

1. Introdução

A área de estudos e de aplicação das habilidades sociais está se desenvolvendo cada vez mais nos últimos anos no cenário internacional, assim como em nosso contexto. A crescente complexidade das demandas sociais, tanto no nível pessoal quanto no profissional, exige cada vez mais das pessoas habilidades sociais elaboradas. O desenvolvimento das habilidades sociais se mostra primordial na promoção de interações sociais bem sucedidas.

Segundo Del Prette (1999), as habilidades sociais envolvem habilidades para selecionar informações úteis e relevantes de um contexto interpessoal e o uso dessa informação para determinar comportamentos apropriados à meta e a execução de comportamentos verbais e não verbais que aumentem a probabilidade de obter e manter a meta de boas relações com os outros.

A interação com pessoas que não fazem parte do convívio diário e habitual requer uma dose de habilidade e competência social que permite ao indivíduo se relacionar, sendo empático, objetivo e habilidoso.

Na vida adulta seja qual for a idade, novas habilidades sociais são requeridas: realização de tarefas em grupo, exercícios de liderança em algumas situações, habilidades sexuais com seu par, demandas sexuais próprias da independência em relação à família e ainda aquelas decorrentes do contato com diferentes grupos culturais, no exercício da profissão e no lazer. As demandas próprias de cada fase da vida e as respostas comportamentais apresentadas pelo indivíduo indicam claramente que a aquisição de comportamentos sociais envolve um longo processo de aprendizagem que pode durar a vida toda. (DEL PRETTE, 1999, p. 22).

O papel social pode ser visto como um conjunto de comportamentos derivados da posição que um indivíduo ocupa em um grupo social. Em muitas interações sociais, principalmente naquelas que ocorrem em grupo, pode ser importante  identificar quais os papéis sociais que as pessoas estão vivenciando. Tal identificação permite medir o grau de respostas a certas características como: formalismo, proximidade/ distanciamento, seriedade/ descontração e etc.

Nas relações interpessoais, os indivíduos são acometidos por diversas situações  que demandam “jogo de cintura”. Por melhor que sejam as intenções das pessoas e por mais competentes que elas sejam nas relações sociais, profissionais ou cotidianas, deparam-se com reações intempestivas que modificam sua maneira de pensar e se comportar, expressando isso através de críticas.

Para as pessoas ditas “normais”, a convivência com outras pessoas já é um obstáculo às vezes intransponível, o que requer muita compreensão e paciência. Quando se trata de pessoas diagnosticadas com algum distúrbio psicopatológico, isto se torna mais difícil e complexo. O chamado “louco” não é louco sozinho. Muitas situações reforçadoras contribuem para que ele mantenha um comportamento alienante.

A total inserção do esquizofrênico no meio social é muito mais complexa do que aparenta ser. Não se trata aqui de um preconceito danoso que teve suas raízes no século XVI e se estendeu até o século passado, mas daquele receio que a sociedade insiste em manter para fortalecer a segregação dessas pessoas.

Diante do exposto acima, este trabalho pretende analisar os efeitos do treinamento de habilidades sociais em pessoas diagnosticadas como esquizofrênicas, bem como a sua importância na inserção e integração familiar, profissional e social.

O método que será utilizado para essa investigação é a pesquisa bibliográfica, cujo foco teórico será permeado pelos pressupostos da clínica comportamental. De acordo com Gil (2002), a pesquisa bibliográfica não precisa seguir um roteiro pré- estabelecido, pode ser alterada de acordo com a especificidade de cada objeto. No entanto, envolve etapas.

A leitura exploratória visa verificar a utilidade das obras consultadas; a leitura  seletiva consiste na seleção do material pertinente; já a leitura analítica tem por objetivo ordenar e resumir as informações contidas nas fontes consultadas a fim de possibilitar a construção do trabalho.

A discussão proposta neste trabalho apontará, no primeiro capítulo, o significado de esquizofrenia para a abordagem Comportamental. No segundo capítulo, serão expostos os conceitos referentes às habilidades sociais. No terceiro e último capitulo, serão discutidos os efeitos das habilidades sociais na inserção e integração familiar, profissional e social de pessoas portadoras de esquizofrenia.

2. Descrição e Caracterização da Esquizofrenia

No decorrer da história, se for analisado o comportamento da sociedade em relação ao comportamento das pessoas com deficiência, pode-se observar uma evolução  em relação ao seu entendimento, educação, tratamento e principalmente em relação à garantia dos direitos individuais e sociais e à igualdade na diversidade. Pode-se atribuir este avanço às ciências tecnológicas e as mudanças de atitudes da sociedade em geral.

Segundo Saldanha; Del Prette e Del Prette (2002), o indivíduo que apresentava um comportamento fora da norma estabelecida era apontado como membro de uma categoria diferente daquela a que o indivíduo normal, saudável e bom pertencia.

Ainda de acordo com esses autores, na idade média os princípios de orientação sobre a vida social estavam baseados na idéia da salvação das almas e na preocupação de livrar as pessoas das “garras do demônio”, o que favoreceu a conservação da ordem social sob o domínio das igrejas católica e protestante.

Passeando um pouco pela história da humanidade, pode-se perceber que a discussão da anormalidade sempre permeou e permeia a existência da própria sociedade. Esta sempre explicou e tratou o comportamento “anormal” de diferentes maneiras em diferentes momentos. A forma como uma sociedade reage à anormalidade depende de seu sistema de crenças e valores sobre a vida e o comportamento humano.

A esquizofrenia é um transtorno mental crônico que prejudica a habilidade de raciocínio lógico do paciente em relação às demais e às funções consideradas produtivas pela sociedade. Os sintomas mais visíveis desse distúrbio incluem dificuldades no processo de diferenciar alucinações de percepções reais, raciocínio confuso e comportamento fora do normal. Geralmente, a pessoa afetada pela doença tem dificuldade em interagir em sociedade e pensar logicamente, o que pode contribuir para o isolamento social. Porém, sendo devidamente assistidos, os esquizofrênicos podem agir, pensar e sentir como as pessoas sem a doença.

Na concepção médica tradicional, os distúrbios e as anormalidades são definidas como conceitos universais, conforme alguns critérios que se aplicam a todas as pessoas de forma indiscriminada.

Segundo Saldana Del Prette e Del Prette (2002, p.270), “o modelo médico diferiu do demonológico em suas atribuições e causas atribuídas aos comportamentos divergentes, porque o comportamento anormal foi atribuído a fatores orgânicos, como, por exemplo, a um cérebro defeituoso etc”.

O Código Internacional de Doenças - CID-10, publicado pela Organização Mundial de Saúde (1997) é uma publicação das síndromes e denominações diagnósticas de todas as doenças conhecidas e também daquelas classificadas como “doenças mentais”. Ela descreve os sintomas da esquizofrenia com sendo aqueles que se referem às alterações das funções mais básicas que dão à pessoa senso de individualidade, unicidade e de direção de si mesmo.

Segundo o CID-10, o diagnóstico de esquizofrenia não pode ser feito na presença  de sintomas maníacos ou depressivos nítidos, a não ser que os sintomas da esquizofrenia precedam estes. Também não devem ser feitos na presença de doença cerebral clara ou durante estados de intoxicação por drogas.

O Manual de Diagnóstico Estatístico de Transtornos Mentais – DSM IV (1995) descreve a esquizofrenia como um transtorno que apresenta dois ou mais dos seguintes sintomas que devem estar presentes com duração significativa por  período de pelo menos um mês: delírios, alucinações, discurso desorganizado, comportamento desorganizado ou catatônico, sintomas positivos, disfunções sociais, no trabalho, no estudo, denotando perda nas habilidades interpessoais e produtivas.

Segundo Dalgalarrondo (2000, p.203) “alguns sintomas da esquizofrenia são muito significativos para o diagnóstico, particularmente aqueles que Kurt Schneider denominou de “sintomas de primeira ordem” tais como: percepção delirante, vozes que comentem a acaso, vozes que comandam a ação, eco ou sonorização do pensamento, roubo do pensamento, vivências de influência no plano ideativo e corporal.

A maioria dos problemas sociais que o analista do comportamento pode intervir através de procedimentos comportamentais são classificados pelo Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais- D.S.M. IV, publicado pela Associação Psiquiátrica Americana.

Os sintomas da esquizofrenia também podem ser classificados em sintomas positivos (distorção do funcionamento normal das funções psíquicas) e sintomas negativos (perda das funções psíquicas).

Conforme o DSM-IV (1995), os sintomas positivos podem ser delírios, alucinações, pensamentos incoerentes, agitação psicomotora, afeto incongruente. Já os sintomas negativos podem ser deficiências intelectuais e de memória, pobreza de discurso, embotamento afetivo, incapacidade de sentir prazer, isolamento social e falta de motivação.

A esquizofrenia é uma psicopatologia que se apresenta de diversas formas.
O período entre a normalidade e a doença deflagrada pode levar meses. Por outro lado, há pacientes que desenvolvem esquizofrenia rapidamente, em questão de poucas semanas ou mesmo de dias. A pessoa muda seu comportamento e entra no mundo esquizofrênico, o que geralmente alarma e assusta. O  tratamento  pode aliviar muitos sintomas, mas muitas pessoas portadoras de esquizofrenia continuam a apresentar alguns sintomas ao longo da vida.

O que foi exposto até o momento refere-se a uma visão médica (modelo médico) a respeito das chamadas “doenças mentais”. A Análise do Comportamento vai lidar com a chamada “doença” de uma maneira diferente do modelo médico.

A Análise do Comportamento concebe o ser humano a partir das diversas relações existentes entre o indivíduo e o seu ambiente, levando em consideração a história  da espécie, a história do indivíduo e a cultura na qual ele está inserido. Assim, o que se costuma chamar de personalidade, nada mais é que padrões de comportamento adquiridos e mantidos por contingências. Portanto, pode-se dizer que a personalidade muda conforme as contingências que ocorrem. A personalidade de alguém pode ser muito diferente antes e depois do almoço. Ou até mesmo em questão de minutos se algo de ruim ou desagradável acontecer.

A Análise do Comportamento entende a personalidade como um repertório comportamental, adquirido a partir das contingências de reforço, ao qual o indivíduo foi submetido ao longo de sua história. Assim, nos constituímos diferentes nas situações às quais fomos e somos expostos. As pessoas são intituladas como “tímidas”, “extrovertidas”, “inteligentes”, “autoritárias”, “zangadas”, “desorganizadas”, “agressivas” por causa de contingências que as envolvem. (MARINHO SÁ, 2004, p. 38)

A Análise do Comportamento não inclui em seu objeto de estudo nem a mente, nem as doenças da forma que a medicina tradicional faz referência.

Segundo Ulmam e Krasner (1975 citados por GONGORA, 2003, p.95) “o comportamento patológico ou anormal não é diferente do comportamento saudável ou normal em seu desenvolvimento e manutenção ou na maneira em que ele pode
ser mudado”.

“O modelo psicológico fundamenta-se em concepções gerais das teorias de aprendizagem social e, principalmente, na teoria operante da análise do comportamento; aplica-se os princípios operantes de aprendizagem na interpretação de síndromes descritas pela Psiquiatria ou problemas clínicos em geral”. (GONGORA, 2003, p. 98).

No modelo psicológico, a explicação do comportamento anormal tem suas raízes no comportamento normal a partir da teoria geral do comportamento humano. O comportamento humano se dá sempre num processo de interação entre o homem e o mundo ao seu redor. Também é adaptativo, funcional, sendo mantido por suas conseqüências no ambiente.

A aprendizagem humana tem lugar dentro de contextos sociais e interpessoais e cada pessoa, apesar de ter características particulares e únicas, carregará também as características próprias dos contextos nos quais se desenvolveu.

Segundo Ferster (1972, citado por Gongora, 2003, p. 100) “o potencial de comportamentos próprios de uma cultura são aqueles que serão reforçados pela comunidade. Os homens são notáveis pelo grande número e complexidade de padrões a comportamentais que podem aprender e desse modo, adaptar-se a diferentes ambientes”.

Portanto, na perspectiva do modelo psicológico, há a concepção de que todo comportamento aprendido pode ser mudado. Os distúrbios são vistos como dificuldades específicas de cada pessoa nos seus contextos de vida; os desvios de normas sociais são vistos como problemas diferentes em culturas diferentes.

Segundo Skinner (1991, p. 102) “comportamentos perturbados são causados por contingências perturbadoras, não por sentimentos ou estados da mente perturbadores, e nós podemos corrigir a perturbação corrigindo contingências.”

Em resumo, os comportamentos aprendidos do homem não são controlados por traços ou estruturas de personalidade e sim pelas consequências que se seguiram da interação dos comportamentos com o meio e também pelos eventos presentes  no momento em que tais consequências ocorreram. Para a compreensão do repertório comportamental, é imprescindível observar como e em que condições o comportamento é aprendido.

Apesar de todos os preconceitos dirigidos às pessoas portadoras de esquizofrenia, nem tudo está perdido. É possível ver nessas pessoas a possibilidade de emitir comportamentos satisfatórios, seja qual for o ambiente em que elas se encontram, para se relacionarem com a família, no trabalho, na escola, no clube, se estas forem treinadas e orientadas adequadamente.

3. O Treinamento das Habilidades Sociais

O treinamento de habilidades sociais - THS - teve início na Inglaterra nos anos 70, tendo contribuições do treinamento assertivo, em andamento na mesma época nos EUA e impulsionado por publicações de Wolpe. O Treinamento de Habilidades Sociais é caracterizado como uma tentativa direta e sistemática de ensinar estratégias e habilidades interpessoais aos indivíduos. Seu objetivo é o desenvolvimento da dimensão pessoal, comportamental e situacional do indivíduo.

Quando se define a doença mental como relacionada com as normas sociais ou como comportamento de má adaptação, comete-se invariavelmente o erro de fazer um julgamento de valor e determinar as normas de uma sociedade como corretas.

Os comportamentos estranhos, fora do comum, são os que se tornam objetos de estudo quando se analisa o comportamento da pessoa rotulada como esquizofrênica. O comportamento se apresenta como discrepante, com causas tão enigmáticas que é fácil (ou simplista) postular princípios mentalistas ou orgânicos para explicá-los (BRITTO, 2004, p. 266)

Comportar-se de maneira habilidosa ou apropriada é difícil até para as pessoas consideradas “normais”. Além disso, a forma de interação varia de pessoa para pessoa, dependendo também da cultura e mesmo porque há conflitos entre os comportamentos esperados em diferentes contextos, já que as respostas e as discriminações exigidas são variadas.

Segundo (Caballo, 1996), a despeito do treinamento das habilidades sociais consistirem no aprimoramento da atuação que as pessoas têm perante situações de caráter crítico, o emprego do THS é muito amplo e são inúmeros os transtornos comportamentais que podem ser tratados com esta técnica, inclusive a esquizofrenia.

No começo de qualquer sessão de treinamento de habilidades sociais, é importante esclarecer ao cliente o componente ou dimensão exatos que terá mais ênfase e explicar a importância desse tipo de treinamento e intervenção. A seguir alguns procedimentos que podem ser empregados nesse tipo de treinamento.

O ensaio de comportamento consiste em identificar e modificar comportamentos não adaptativos por comportamentos que se adaptem à realidade do paciente no seu ambiente familiar ou na comunidade como um todo.

A modelação é um procedimento que consiste na exposição do cliente a  uma pessoa que mostra corretamente o comportamento que está sendo esperado. A modelação é mais efetiva quando os modelos são de idade parecida e do mesmo sexo que o observador, e quando o comportamento do modelo se encontra mais próximo ao do observador, em vez de ser altamente competente e mais extremo.

Instruções e treinamento não são dados somente para ministrar aos pacientes informações sobre o comportamento social, mas para proporcionar uma base e sua explicação razoável sobre os exercícios e os comportamentos posteriores.

O feedback é uma forma de garantir a manutenção do comportamento habilidoso porque permite à pessoa regular seu padrão de comportamento, ajustando-o, se necessário, às exigências da interação.

O reforçamento está presente ao longo de todas as sessões do treinamento e serve tanto para adquirir novos comportamentos, recompensando aproximações sucessivas, como para aumentar determinados comportamentos adaptativos ao paciente.

As tarefas de casa são parte essencial do THS. Todo terapeuta experiente sabe que o êxito da prática clinica depende, em grande parte, das atividades do paciente quando não está na sessão. Segundo Shelton e Levy (1981, citado por Caballo, 1996, p. 387) ”cada sessão de um programa de THS começa e termina com uma discussão sobre as tarefas de casa, que são elaboradas especificamente para alcançar os objetivos da terapia”.

O paciente com a esquizofrenia já instalada apresenta dificuldade de relacionamento interpessoal em virtude principalmente da apresentação de quadros tais como pobreza do discurso, embotamento, retraimento social, entre outros sintomas negativos.  Consiste num desafio ao profissional que busca inseri-lo na sociedade.

Porém, percebe-se que em fases precoces da doença o treinamento em habilidades sociais pode ser muito útil no desenvolvimento de comportamentos adaptativos, tendo em vista que o paciente está geralmente exposto a um ambiente hostil.

Sendo assim, as técnicas a serem utilizadas nesse tipo de paciente devem objetivar uma melhora dos sintomas positivos e negativos; prevenir as recaídas e evitar a institucionalização do sujeito.

A descrição do programa a ser trabalhado deve incluir: recreação, habilidades em conversação, exercícios de trabalhos fundamentais e a presença de um círculo de amizades com relações afetivas desenvolvidas, cujo objetivo é desenvolver a autonomia do paciente.

Segundo Banaco e Martone (2001), a família tem sido o grupo social que primordialmente aplica os procedimentos de reforço e punição sobre os comportamentos dos indivíduos segundo critérios estabelecidos culturalmente. Dessa forma, a família prepara o indivíduo para sua relação com um grupo social mais amplo, pela aplicação de critérios das outras agências controladoras (igreja, escola, política, etc).

É sabido que estas atitudes são aprendidas e devem ser aprimoradas para que as relações interpessoais sejam satisfatórias e duradouras. Considerando que a  maioria das pessoas portadoras de esquizofrenia são imprevisíveis e impulsivas, é indispensável o uso do bom senso.

Para que o treinamento das habilidades sociais apresente sua eficácia comprovada, a pessoa deve se implicar no processo de mudança de seu comportamento, observando, percebendo e avaliando os seus atos, posturas e movimentos, reconhecendo acima de tudo seu espaço de vivência, almejando uma relação interpessoal satisfatória e significativa.

Para que essas pessoas se tornem habilidosas em todas as situações de suas  vidas, é necessário que estejam prontas a se comportarem de forma mais   ajustável possível. Elas podem ser valorizadas sem ferir os outros, podendo discordar sem demonstrar intolerância ou autoritarismo, respeitar as pessoas que convivem com elas sendo comunicativas, falando fluentemente, em tons audíveis, com gestos firmes e postura apropriada, em qualquer ambiente que frequentarem, seja com a família, no ambiente de trabalho, na escola, na comunidade religiosa, no clube etc.

Shirakawa (2000) descreve ainda que a psicoterapia deve auxiliar o paciente a interromper a perda da capacidade mental, preservando o contato com a realidade; restaurando a capacidade de cuidar de si e de administrar sua vida, e mantendo o máximo de autonomia para promover o melhor ajustamento pessoal, psicológico e social.

Além disso, a terapia deve proporcionar ao paciente uma diminuição do isolamento; reconhecer e reduzir a natureza ameaçadora dos eventos de sua vida, para os quais existe uma sensibilidade particular e trabalhar de acordo com seus recursos e limitações. Aumentar suas defesas diante de situações estressantes e desenvolver fontes alternativas para a solução de seus problemas, questões estas, que caracterizam o treinamento de habilidades sociais.

Segundo Del Prette (2006, p. 236), ”A funcionalidade das habilidades sociais tem sido examinada principalmente em termos de suas consequências para atingir os objetivos imediatos do desempenho social, manter ou melhorar a relação interpessoal e a auto- estima das pessoas que são submetidas a esse tipo de treinamento”.

Ainda segundo Del Prette (2006), a metodologia para a promoção das habilidades sociais vem sofrendo, ao longo dos tempos, muitas mudanças e refinamentos nos procedimentos e ampliação da clientela a quem tem se destinado. Acredita-se que pessoas diagnosticadas como esquizofrênicas possam se beneficiar do THS.

4. O Treinamento das Habilidades Sociais e a Possibilidades de Re-Inserção do Esquizofrênico ao Convívio Familiar e Social

Tendo em vista a complexidade de interação satisfatória de um esquizofrênico no meio social e familiar, faz-se necessário o Treino em Habilidades Sociais para garantir melhor aceitação e compreensão desta pessoa e sua forma de pensar, agir e interagir com o ambiente, a fim de tentar recuperar sua subjetividade.

Segundo Gongora (2003), as habilidades sociais podem ser entendidas como qualquer outra habilidade. Comportar-se de forma socialmente habilidosa é apresentar respostas certas nos lugares certos e no contexto certo, em direção à pessoa adequada. A dificuldade está em saber como viver do jeito mais coerente possível para ser considerado como socialmente habilidoso.

O grande exercício para quem deseja ser habilidoso com as pessoas é  compreender a realidade, comportando-se de forma serena, não-passiva diante das situações que são apresentadas e controlando seus impulsos para não se tornar agressiva nem tampouco se fechar em suas verdades e papéis.
A interação da pessoa diagnosticada com esquizofrenia com pessoas que  não fazem parte de seu convívio diário e habitual requer uma dose de habilidade e competência social que permite ao indivíduo se relacionar, sendo empático, objetivo e assertivo.

Curran (1985, citado por CABALLO, 2003, p.396), afirma que o treinamento em habilidades sociais tem como premissas:

    1. As relações interpessoais são importantes para o desenvolvimento e o funcionamento psicológicos.
    2. A falta de harmonia interpessoal pode contribuir ou conduzir à disfunções e perturbações psicológicas.
    3. Certos estilos e estratégias interpessoais são mais adaptativas que outras para tipos específicos de encontros sociais.
    4. Esses estilos e estratégias interpessoais podem ser especificados e ensinados.
    5. Uma vez aprendidos, esses estilos e estratégias melhorarão a competência em situações especificas.
    6. A melhoria na competência interpessoal pode contribuir ou conduzir à melhoria no funcionamento psicológico.

O treinamento de habilidades sociais pode ser útil no auxílio do tratamento da esquizofrenia, principalmente no que se refere à aprendizagem de comportamentos que possibilitem uma maior adaptação ao meio, através da diminuição do estresse e um maior enfretamento de situações estressoras.

Outra utilidade refere-se a uma melhor qualidade de vida, pois a pessoa diagnosticada como esquizofrênica pode desenvolver habilidades que favoreçam o contato social, diminuindo também o número de internações, favorecendo a interrupção da perda cognitiva adquirida em cada nova crise.

Vale ressaltar ainda que o THS tem uma maior aplicabilidade quando associado à farmacoterapia e à terapia familiar, mostrando a importância dos familiares nesse processo, principalmente no que diz respeito ao conhecimento destes sobre a doença e os fatores que podem desencadear uma nova crise.
O THS aplicado ao paciente que vive num ambiente de mudanças constantes diminui a possibilidade de um resultado significativo, já que esse tipo de ambiente dificulta ao paciente aplicar o que foi treinado anteriormente.

Uma vez que o tratamento é cada vez menos realizado em regime de internação, há um aumento da responsabilidade das famílias no cuidado com seus integrantes com problemas mentais. Essas famílias são pouco informadas a respeito da doença e de seu tratamento. Muitos familiares tem atitudes inadequadas para com o paciente, tornando-se muito críticos ou super protetores.

Segundo Gongora (2003, p.104), “a postura terapêutica mais apropriada quanto a questão da anormalidade e da desadaptação parece ser a de tratar os clientes como pessoas normais e ativas, capazes de alterar seu próprio ambiente físico, interpessoal e sociocultural”.

5. Conclusão

A presente monografia possibilitou a percepção da complexidade do tema abordado: o treinamento em habilidades sociais para portadores de Esquizofrenia à luz da Análise de Comportamento. Observou-se a existência dos preconceitos e estigmas em torno dessa psicopatologia chamada Esquizofrenia e as dificuldades enfrentadas pelas pessoas acometidas por ela. Viu-se a necessidade e o desejo delas serem aceitas como pessoas boas e dignas de valor e respeito e passíveis de serem reinseridas em suas famílias e convívio social, rompendo com muitos preconceitos que as rotulam de loucas, insanas, incapazes e desprezíveis, não lhes permitindo exercer suas atividades rotineiras e ou profissionais.

Com a evolução das ciências que estudam o homem e seus comportamentos nos mais variados contextos, houve a necessidade de analisar o comportamento das pessoas ditas loucas, os princípios que regem tais comportamentos considerados normais ou anormais e as influências sociais presentes nesses comportamentos.

A descrição da esquizofrenia como uma doença mental tem sido feita pela  psiquiatria e registrada e catalogada nos manuais estatísticos de doenças mentais tais como a CID 10 e o DSM-IV com um código para facilitar procedimentos médicos e administrativos.

A Análise do Comportamento não lida com uma síndrome ou doença e sim com repertórios comportamentais do indivíduo, reforçando os  comportamentos adequados nos contextos familiar e social.

Os especialistas na Análise do Comportamento podem considerar o diagnóstico e a classificação como um ato desumano na medida em que o indivíduo é privado de relacionamento familiar e social por causa de seus comportamentos verbais e não verbais bizarros. No entanto, outros especialistas consideram que a classificação e o diagnóstico não causam rejeição ou exclusão social e sim as respostas negativas que a sociedade apresenta com relação aos padrões de comportamentos ditos normais.

É possível afirmar que as pessoas portadoras de esquizofrenia podem ser capazes de se desenvolver e conviverem bem com seus familiares, amigos e vizinhos após terem sido submetidos ao treinamento de habilidades sociais.

O Treinamento em Habilidades Sociais favorece a essas pessoas serem aceitas e inseridas em suas famílias, exercendo atividades variadas, trabalhando em suas funções e profissões.

É possível que as pessoas com esquizofrenia tornem-se boas ajudantes nas tarefas de casa, nas atividades laborais e na escola, sendo compreendidas em suas dificuldades. Mas essas pessoas podem ser responsabilizadas por suas atitudes que não condizem com os contextos e as situações em que se apresentam, sendo estas punidas e reforçadas quando necessário, sem diminuí-las ou humilhá-las com xingamentos.

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