1. Introdução

Este estudo tem como proposta falar dos desafios que abarcam o plantão psicológico amparado pela abordagem centrada na pessoa, que podemos definir como centrada no cliente, pois ao paciente cabe a condução do processo terapêutico, o terapeuta é um mero facilitador deste processo, esta terapia surgiu como terceira via em meados do século 20, onde predominava a psicanálise e o behaviorismo, é a corrente humanista, com uma nova visão de homem. Rogers em seu livro tornar-se pessoa, o qual usamos como bibliografia neste estudo, nos traz em seu repertório a importância da formação da pessoa, quando se busca viver de forma congruente consigo mesma, é uma harmonia, bem como da importância da terapia em sua essência, do crescimento do terapeuta, e a tendência atualizante, que leva os indivíduos a autonomia, gerando força nos indivíduos, os fazendo se desenvolverem, bem como suas potencialidades e das características necessárias que um terapeuta deve ter.

Deseja-se aqui destacar o plantão psicológico, suas potencialidades, objetivo e significados. Na atividade do plantão psicológico utilizamos  a fenomenologia, vemos aquilo que se revela, ou seja o fenômeno. Carl Rogers foi um importante psicólogo e fundou a abordagem humanista, a terapia é uma questão de libertar o cliente para um crescimento e desenvolvimento pleno.

Rogers (1987) nos diz que a simpatia, confiança e compreensão do mundo interior da outra pessoa provocarão um significativo processo de transformação, esta transformação acontece a partir do momento que se entra na relação com o outro, não como alguém que procura um diagnóstico, mas como alguém que se insere numa relação pessoal, e que não olha para seu cliente como um objeto. Rogers usa a palavra cliente ao invés do termo tradicional paciente. Um paciente é em geral alguém que está doente, precisa de ajuda e vai ser ajudado por profissionais formados. Um cliente é alguém que deseja um serviço e que pensa não poder realizá-lo sozinho. O cliente, portanto, embora possa ter muitos problemas, é ainda visto como uma pessoa inerentemente capaz de entender sua própria situação. Há uma igualdade implícita no modelo do cliente, que não está presente no relacionamento médico-paciente. 

No plantão psicológico há uma demanda emocional emergencial, onde se busca minimizar o sofrimento e não uma reformulação da personalidade como no caso das psicoterapias. Configura-se aqui a ação de acolhimento, de escuta, de aceitação, de empatia e de autenticidade que surgem com um enorme potencial terapêutico,o qual poderemos explicitar adiante.

2. Plantão Psicológico

O plantão psicológico teve seu inicio no serviço de aconselhamento psicológico do instituto de psicologia da USP, por volta de 1969 criado pela professora Lia Rosemberg, onde foi desenvolvido  um pronto atendimento Psicológico inspirado em experiências norte americanos (Rosemberg 1987, p.05). A ACP possibilitou dar estrutura a pratica do plantão psicológico onde o cliente pode vivenciar seus sentimentos em toda sua intensidade, sem inibições, sem sentimentos contraditórios, sem pensar conscientemente, sem diagnóstico ou análise, sem qualquer barreira, para que se possa de fato chegar a uma compreensão. Para tal é preciso utilizar-se de alguns princípios básicos, tais como atitudes de acolhimento incondicional, compreensão empática e congruência ou autenticidade, ambiente facilitador para auto-expressão, reconhecimento de suas limitações e desenvolvimento de suas potencialidades, por meio da Tendência Atualizante.

O principal objetivo do atendimento de Plantão é a promoção da saúde da população, tendo em vista a sua acessibilidade e atuação em momentos de crise, não somente em momentos de problemas psicológicos, mas sobre a pessoa como um todo. MAHFOUD descreve este tipo de trabalho como uma forma de atender uma gama bastante ampla de demandas, pois o foco é definido à partir do referencial do cliente, pelo acolhimento da sua experiência, ao invés do problema. O profissional responde à pessoa no momento presente da situação do encontro e seu trabalho consiste em facilitar ao cliente uma visão mais clara de si mesmo e de suas possibilidades, estabelecendo a sua forma de enfrentar a problemática. (MAHFOUD, 1987)

Todavia, antes do terapeuta ser qualquer coisa para o cliente, ele deve ser autêntico, genuíno, e não estar desempenhando um papel, especialmente o de um terapeuta, quando está com o cliente. Isto envolve a vontade de ser e expressar com próprias palavras e comportamentos, os diversos sentimentos e atitudes que existem em mim. Isto significa que se precisa, na medida do possível, perceber os próprios sentimentos, ao invés de apresentar uma fachada externa de uma atitude enquanto na verdade mantém se outra.

O objetivo então é trabalhar para a compreensão dos fenômenos, isto significa um conhecimento dos acontecimentos e das relações, como se pudéssemos prever uma situação de uma relação terapêutica. O plantão psicológico poderá ocorrer em uma ou mais sessões.

Segundo Tassinari o serviço de plantão psicológico tem sido utilizado em diversos contextos, permitindo que o serviço de psicologia seja repensado. Os serviços de psicologia hoje voltados para plantão ocorrem em clinicas escolas aberto a comunidade, em escola de primeiro e segundo graus, em hospitais psiquiátricos, no esporte, em instituições judiciárias, em comunidades de baixa renda, consultórios particulares, delegacias, presídios, hospitais gerais, institucional para adolescentes, institucional militar, etc.

Encontramos três publicações de artigos que lidam diretamente com o plantão psicológico duas no contexto hospitalar e uma em um SPA utilizando a metodologia fenomenológica. No contexto escolar a pesquisa de Mahfoud podemos perceber que foi explicitado a experiência de estagiários de psicologia, baseado em uma escuta de conteúdos e demandas diversas.

Já Cury explicitou a vivencia de plantonistas de um SPA onde foi possível constatar que o plantão possibilita o acesso a uma diversidade de pessoas e problemas levando a um contato com o inesperado criando grande impacto emocional.

Mahfoud apud Tassinari (1987) esclarece que:

O próprio Conselho Federal de Psicologia chegou a se pronunciar em documento oficial, classificando o plantão Psicológico dentre as técnicas alternativas emergentes. Alternativa de maneira distinta daqueles de origem confusa ou esotérica, mas entendida como proposta inovadora, que em certa medida rompe parâmetros estabelecidos e que ainda estava aguardando uma avaliação mais rigorosa de sua eficácia pelas instituições de ensino superior e de pesquisa. (p.43).

3. O Plantão Psicológico nas Instituições

Quando pensamos em plantão psicológico podemos falar de certo tipo de serviço de pessoas que estão à disposição de quaisquer pessoas que deles necessitem em períodos de tempos previamente determinados.

Do ponto de vista da instituição, o atendimento do plantão pede uma sistematicidade do serviço oferecido e do profissional pede uma disponibilidade para se defrontar com o não planejado e com a possibilidade de que o encontro seja único.

O plantão é exercido por profissionais psicólogos que ficam a disposição de pessoas que procuram espontaneamente o serviço em local, dias e horários preestabelecidos, em cada local é preciso criar estratégias específicas desde a sua divulgação até a relação com a instituição local.

É uma atividade de promoção da saúde, já que a escuta do plantonista visa aliviar o acumulo de angustia e ansiedade.  A atividade do plantão possibilita repensar a atuação do psicólogo frente as demandas socioculturais, permitindo que o profissional entre em contato com a comunidade diretamente, indo a ela, experimentando o papel do psicólogo com agente contribuidor de transformação e como multiplicador social. (Morato, p.39)  

Mahfoud (1987) afirma, a partir da experiência da implantação de um Serviço de Plantão Psicológico no contexto escolar voltado aos alunos, que este Serviço "vagarosamente foi se instalando como um espaço para as pessoas, mais do que para os problemas" (p. 38). Essa experiência de Plantão no contexto escolar evidenciou-se como um agente de promoção da saúde e de atenção cuidadosa aos alunos em seu cotidiano escolar, assim como o Plantão Psicológico no contexto hospitalar foi vivido pelos funcionários com uma função semelhante em relação ao cotidiano de trabalho na instituição.

4. As Características de uma Relação de Ajuda

Rogers (1987) nos ensina que o terapeuta centrado no cliente proporciona uma relação de ajuda, onde uma das partes procura promover na outra crescimento, desenvolvimento, maturidade, ou seja, um melhor funcionamento e uma melhor capacidade de enfrentar o mundo. O outro pode ser um individuo ou mesmo um grupo, o objetivo geral é facilitar o crescimento.

Podemos perceber que as relações de ajuda estão presentes em nosso cotidiano, as relações de uma mãe com um filho, entre professores e alunos também há crescimento, todavia, a relação de ajuda que pretendemos abordar neste estudo é a relação entre o terapeuta e o cliente, cujo objetivo é melhorar ou acelerar sua maturação pessoal, aliviar o sofrimento em um momento de dificuldade e ressignificar o sentido do mundo a sua volta.

Destacamos algumas atitudes necessárias da pessoa que ajuda e que favorece o crescimento: A confiança entre o cliente o e terapeuta. A compreensão que se espera dele; o sentimento de independência, por outro lado, em outras abordagens, Rogers (1987), em sua obra “Tornar-se pessoa”, destaca que “observa-se alguns elementos desfavoráveis na relação, tais como, a falta de interesse, uma atitude distante ou ainda simpatia excessiva”, p. 50.

O Plantão psicológico esta estruturado para que o cliente seja acolhido para uma escuta qualificada, focando questões emergentes e que nem sempre necessitam de atendimento prolongado. Destarte o plantão psicológico é uma modalidade diferente das tradicionais. As pessoas que procuram este tipo de atendimento podem estar passando por qualquer tipo de mudança ou dificuldade que necessite cuidados.

Existem características importantes para que se estabeleça a relação de ajuda, onde a pessoa que está disponível para ajudar reconhece ou sente aquilo que é significativo para o outro ao abarcar na própria experiência de vida do outro.

4.1 A Empatia

A primeira condição facilitadora na relação de ajuda é a empatia muito valorizada por Rogers (1977) que entendia que essa atitude é uma das atitudes mais relevantes numa relação uma vez que promove mudanças. A empatia é um processo de aproximação da vivencia do outro, de percepção e de experimentação de seus significados, com o intuito de devolver o sentido. É uma confirmação de que a pessoa existe ao ser compreendida. 

4.2 Consideração Positiva Incondicional

É a segunda condição facilitadora e não deve ser confundida com aceitação ou convivência. Trata-se de aceitar cada elemento da sua experiência.

4.3 Congruência ou Autenticidade

É a terceira condição facilitadora que consiste num estado de acordo interno é uma sintonia com o que está sendo vivenciado pelo terapeuta e pelo cliente ou mesmo na relação, isto de forma verdadeira e genuína. Ser autentico significa conhecer o fluxo da vivencia que ocorre em nosso intimo, um fluxo marcado pela complexidade e pela mudança contínua (Rogers 1977, p.106). Esta atitude propicia ao facilitador uma escuta compreensiva facilitando a relação de ajuda.   

4.4 Tendência Atualizante

Outra formulação que Rogers mostra é a tendência atualizante que tem como base a sua crença no homem direcionado para o desenvolvimento de sua potencialidade inata. Onde a tendência atualizante é a criadora da existência e da própria consciência, a qual significa e ressignifica o sentido do mundo a sua volta.

5. Algumas Direções do Plantão Psicológico

  • Como Atender um surto psicótico?
  • É adequado para resolver problemas conjugais?
  • Aplica-se aos homossexuais?
  • As curas são permanentes?

Essas questões são erradas a partir do momento que se procura aprofundar o conhecimento do plantão psicológico, ou sobre seu campo de aplicação, todavia, percebemos que existem questões que são vitais sobre o processo terapêutico. São algumas atitudes necessárias para desencadear o processo, qual seja:

  • Uma atitude de profundo respeito em relação a seu cliente;
  • Uma relação de aceitação total do cliente, tal como ele é;
  • Uma relação de confiança nas suas potencialidades, para resolver seus próprios problemas.

Se tais atitudes estiverem impregnadas para se transformarem numa afeição profunda pela pessoa e se for possível obter um nível de comunicação onde o cliente perceba que o terapeuta compreende seus sentimentos, nesse momento podemos estar certo que iniciou-se um processo terapêutico.

6. O Desconhecido

Quando falamos em plantão estamos lidando diretamente com o desconhecido, um desafio, focado no aqui e agora, onde busca-se saber mais sobre a demanda que se apresenta, não se aprofundando na personalidade e sim o alivio para  a angustia. 

Constata-se que o terapeuta sente em relação ao cliente uma reação afetiva, calorosa e positiva, sendo importante perceber que numa relação de ajuda posso permitir que alguém se preocupe comigo e posso aceitar plenamente, sem qualquer reserva de interesse, isto me permite reconhecer que eu também me preocupo e me interesse realmente pelos outros.

Todavia, sabemos que o cliente não apenas se aceita, mas chega a gostar de si verdadeiramente, é de fato a satisfação de ser o que realmente se é.

Entre as pessoas que são atendidas nos plantões, mesmo nos mais desesperados, fracos e doentes, há um centro de vitalidade e criatividade, uma força que podemos denominar de poder pessoal. A força do poder pessoal, no cliente, está na emergência da tendência atualizante. A palavra atualizante tem o sentido de realizar-se, de tornar-se atual ou presente, de modernizar-se; de que está em ato ou ação (opõe-se a virtual e potencial). É descrita por Rogers (1951), como sendo a "tendência para conservar a si mesmo", assimilando alimentos, defendendo-se de ameaças; "tendência do organismo para se deslocar em direção a maturidade", movendo-se "na direção de uma maior independência e auto-responsabilidade"; em direção a um crescente autogoverno, auto-regulação e autonomia" afastando-se de ser controlado por forças exteriores, caminhando na direção da socialização. (ROGERS, 1974, p. 471).

O papel do plantonista é facilitar a tendência atualizante, a simples presença do terapeuta pode ser terapêutica, produzindo alivio e ajuda.  

7. Habilidades do Terapeuta no Plantão Psicológico

  • Disponibilidade para se defrontar com o não planejado e com a possibilidade de que o encontro com o cliente seja único.
  • Enfocar a experiência do cliente ao invés de seu problema.
  • Empatia: Sentir o que se sentiria, caso se estivesse na situação e circunstâncias experimentadas.
  • Consideração Positiva Incondicional.

8. Conclusão

Genericamente, a Abordagem Centrada na Pessoa assenta numa visão do Homem como um ser essencialmente livre e com o poder de reagir ativamente às situações que o constrangem na sua vida, que tentam abafar a sua individualidade prendendo-o a esquema rígido de comportamento e de pensamento, em suma, que restringem a sua evolução e crescimento pessoal.

A relação terapêutica que se estabelece com base em tal conjunto de premissas implica uma importante redefinição do papel do terapeuta. Mais do que pelas técnicas ou instrumentos que utiliza, o terapeuta define-se pelas atitudes que transporta para a relação e que constituem o verdadeiro impulsionador da mudança. Tendo em conta os princípios que justificam e dão sentido a tais atitudes, elas não são concebíveis na ausência de uma participação pessoalizada do terapeuta na relação. O genuíno interesse e valorização da pessoa e da experiência do cliente, a confiança na sua capacidade em superar as incongruências, o respeito pelo seu direito de ser livre em qualquer escolha que faça, A autenticidade do terapeuta é fundamental numa relação que é, deste modo, sobretudo humana.

Isso não significa que um psicoterapeuta centrado na pessoa deverá proceder como Rogers procedia, a Abordagem Centrada na Pessoa tem uma proposta de ajuda onde, desde que em sua maneira de ser o psicoterapeuta preserve a empatia, a congruência, a aceitação incondicional, creia na tendência atualizante, rejeite a interpretação, o condicionamento, ele estará exercendo ajuda ao cliente de maneira centrada na pessoa, é claro que um psicoterapeuta deve, sobretudo estudar, conhecer e se aprofundar dentro da abordagem escolhida.

Para a Abordagem Centrada na Pessoa, o conhecimento do psicoterapeuta tem importância, mas a sabedoria tem um peso especial na relação de ajuda. Isso significa que, muitas vezes o psicoterapeuta através de seu conhecimento cria uma barreira entre si e o cliente, perde a disponibilidade verdadeira em ouvir o outro desprovido de técnica, abrindo mão de sua intuição, percepção, do não julgamento, do acolhimento, preceito imprescindível para a abordagem. Sendo assim finalizo dizendo que me sinto, privilegiada por ter a oportunidade de aprofundar-me nesta abordagem e poder um dia coloca-la em prática, uma vez que vejo e percebo o ser humano como único e singular em sua experiência.

Sobre o Autor:

Juliana da Conceição Sampaio Lóss - psicóloga, pedagoga, especialista em psicologia da saúde, especialista em psicologia cognitivo comportamental, especialista em psicopedagogia, doutoranda em psicologia clínica.

Referências:

ROGERS, C. R. ; Tornar-se Pessoa. 6ª edição. Editora WMF. São Paulo. 2009.

Rosenberg, R. L. (1973). Um estudo da percepção de condições psicoterápicas em grupos de aconselhamento psicológico. Tese de Doutorado, Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo.

MAHFOUD, M. A Vivência de um Desafio: Plantão Psicológico. In: Rosemberg, R. (org). Aconselhamento Psicológico Centrado na Pessoa: São Paulo: EPU, 1987.

MORATO, H. T. P. Serviço de Aconselhamento Psicológico do IPUSP: Aprendizagem Significativa em Ação. In: Aconselhamento Psicológico Centrado na Pessoa - Novos Desafios. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1999.