A contemporaneidade tem sido marcada cada vez mais pelo constante aprimoramento das novas tecnologias e das ciências tecnológicas em geral, tais transformações impactam diversos domínios da sociedade e, consequentemente, refletem a maneira como homens estruturam suas relações subjetivas.

Palavras-chave: Relações Humanas, Tecnologia, Consciência

Cantú (2005), afirma que a revolução tecnológica é um elemento essencial para se compreender a constituição da modernidade, uma vez que foram criadas diferentes formas de socialização, de identidade cultural e coletiva oriundas da tecnologia.

Pensando sobre a relação e a importância da presença do Outro como elemento tão fundamental para a constituição de uma consciência Para-si, questionamos como podemos entender a constituição do sujeito pela presença do Outro? Mais ainda, como isso seria possível quando este Outro não é um ser humano, mas sim uma tecnologia virtual capaz de imitar a relação humana, como é o caso da “namorada virtual”?

São esses os questionamentos que pautam o interesse do presente estudo e, para tanto, partiremos da análise das relações virtuais presentes na obra  cinematográfica  intitulada “Her” (traduzida para o português sob o título: “Ela”), do diretor Spike Jonze, lançado em 2014 no Brasil, uma vez que o filme retrata a transposição das relações humanas para as máquinas, em especial à inteligência artificial e revela, por assim dizer, os limites e fragilidades dessa interação.

A trama acontece na cidade de Los Angeles num futuro próximo com uma fotografia futurista, limpa e organizada, repleta de prédios de alto padrão e tecnologias avançadas. As pessoas  são  apresentadas  sempre  conectadas  com  algum  dispositivo  tecnológico  de   alta interatividade sendo a tecnologia o background do cenário que permeia toda a narrativa. O enredo debruça-se sobre a história de Theodore, um escritor bastante solitário e introspectivo que adquire um novo sistema operacional movido por inteligência artificial, o interessante e surpreendente é que o protagonista passa a se apaixonar pela voz e pela maneira com a qual se relaciona com este sistema operacional e passa a seguir num relacionamento amoroso (namoro virtual) bastante incomum e curioso.

O interesse por este filme se justifica na medida em que ele apresenta a possibilidade de relações humanas com máquinas ou inteligências artificiais capazes de reproduzirem as relações humanas de uma maneira muito semelhante à realidade, garantindo aos usuários certa medida de controle e satisfação. Significa dizer, que diante de tal tecnologia, o ser humano passa a ocupar um lugar secundário nas relações interpessoais em detrimento da facilidade e liberdade que a tecnologia os impõe a priori.

Quando buscamos compreender o valor da tecnologia para o desenvolvimento do homem, Lévy (2000), afirma que a tecnologia não é má e nem boa, ela vai depender da maneira como vem sendo utilizada e da finalidade para a qual se destina, ao mesmo tempo, não é neutra devido ao caráter dialético que marca a relação humana com a tecnologia.

Alves (1968), também compartilha desta mesma visão quando acrescenta que a maneira como utilizamos da tecnologia é que define seu valor.

Ao observarmos a história do protagonista Theodore, quando dos seus primeiros contatos com o sistema operacional pelo qual vai se apaixonando ao longo do filme até considerá-la sua namorada virtual, verificamos que este apresenta relativo estranhamento pela capacidade intelectual e interesse que o sistema operacional lhe apresenta através de uma voz que se intitula “Samantha”. Sobre esse estranhamento, ao buscar compreender de que maneira o homem se humaniza, o filósofo francês Jean-Paul Sartre, dá uma significativa contribuição, principalmente quando aborda o conceito de consciência. Para o autor, é a própria consciência que é responsável pela revelação do Ser, ou seja, ela não cria o mundo apenas o constata, seria o mesmo que revelar as opiniões, juízos e pensamentos sobre as coisas. A consciência para se manifestar precisa afastar-se do objeto, par assim pensá-lo, caso contrário não haveria possibilidade de sua existência (Perdigão, 1995).

A consciência de Theodore capta os fenômenos que fazem parte das relações humanas por ele aprendidas e simbolizadas ao longo de sua vida, o estranhamento acontece quando, surpreendentemente o sistema operacional passa a reproduzir essas relações através de um mecanismo de inteligência artificial que interage através de conversas com o usuário, isso acontece de maneira tão parecida com as relações humanas que deixa Theodore confuso e curioso ao mesmo tempo. Na medida em que se relaciona com esta inteligência artificial, a consciência de Theodore passa a humanizá-la e considerar a relação com “Samantha” como se fosse uma pessoa real.

Segundo Sartre (1946/2012) para existirmos no mundo enquanto consciência, necessitamos da consciência do Outro. Não se trata apenas de conceber que o Outro existe, pois se assim fosse, estaríamos vendo o Outro apenas como objeto do mundo, mas precisamente o reconhecimento de sua própria consciência. Em outras palavras, esta é a condição humana, ou seja, uma predisposição ontológica da consciência de ser capaz de reconhecer o Outro enquanto sujeito.

Ainda sobre a presença do Outro, Schneider (2011) explica que sou eu quem faz com que o Outro exista para mim, faço-o objeto para mim, na mesma medida em que posso ser objeto para ele, eis o princípio da dialética.

Dessa forma, Samantha era capaz de reproduzir perguntas, estimular sentimentos, inserir dúvidas e manipular emoções humanas imitando o que acontece nas relações humanas, na medida em que Theodore interage com esta reprodução das vivências humanas ele se humaniza, sua consciência a reconhece como um ser humano, mesmo que não haja corpo, ou que seu contato seja virtual e isto basta para ele.

Schneider (2011, p.115) explica que o homem se humaniza na relação com sua materialidade, com seu corpo, com os outros, coma sociedade, com o tempo e tudo o que é capaz de se relacionar, esse processo dialético acontece por meio da “apropriação da objetividade, de interiorização da exterioridade, portanto só existe enquanto subjetividade objetivada.” Significa dizer que o homem ratifica seu lugar no mundo através de seus atos ou práxis, configurando sua maneira de ser.

Se o homem é mediado pelas coisas do mundo e sua consciência aparece na relação com tais elementos, que tipo de referências uma namorada virtual poderia garantir ao protagonista do filme?

Parece que Theodore percebe as relações virtuais, em especial com Samantha, como relações seguras, sem exigências, da qual necessita pouco desprendimento pessoal e disposição de feedbacks, já que não possui um ser com necessidades na outra ponta da relação. Do ponto de vista da interiorização da objetividade, faz mais sentido ao protagonista estabelecer um tipo de vínculo no qual não é cobrado pela sua ausência ou pela sua indisposição a se relacionar e dessa forma, sua consciência o lança ao estabelecimento de relações cujo maior interesse estaria reduzido ao recebimento do que Samantha poderia oferecer, como se precisasse extrair ao máximo o carinho e atenção que acredita receber da namorada, sem, contudo, necessitar doar-se para a manutenção da relação.

Essa noção pressupõe uma unilateralidade, na qual o foco estaria na satisfação da necessidade de um dos pares. Diante dessa condição, pode-se inferir que a presença do Outro começa a ser um entrave no estabelecimento de relações saudáveis, na medida em que este Outro apresenta demandas que não cabem numa perspectiva em que apenas um Eu precisa ser beneficiado.

Em suma, pode-se concluir que a tecnologia tem sido utilizada de forma cada vez mais crescente nos dias atuais, refletindo em novas configurações de relações  sociais inclusive na possibilidade da relação virtualizada.

A tecnologia é uma ferramenta bastante facilitadora de diversas atividades ligadas ao cotidiano, portanto é fundamental para o homem reconhecer que tipo de relação vem estabelecendo com tal recurso. Percebe-se que, nos dias atuais faz-se um bom uso dela para aproximar pessoas distantes, mas quase que simultaneamente, usa-se de uma maneira nem sempre perceptível para afastar pessoas perto, o que vai refletir na qualidade das relações concretas e no prejuízo dos relacionamentos.

O filme “Her” extrapola o limite das relações humanas mostrando a história de um personagem que se apaixona por uma namorada virtual, evidenciando o fracasso dos relacionamentos  humanos  concretas.  Isso  acontece  por  uma  apropriação  unilateral  e   até mesmo alienada da realidade, pois pressupõe a existência de um sujeito frágil, cujo vínculo se dá na medida em que é amparado em suas necessidades sem precisar doar-se em benefício do Outro.

Dessa forma, percebe-se a falta de disponibilidade e dedicação que marca os relacionamentos unilaterais em que há o benefício de apenas um dos pares, dessa forma, esse tipo de vínculo pode representar relações de dependências na medida em que uso do Outro para me beneficiar.

O estudo ganha sua relevância, pois abre a discussão para se pensar no quanto a tecnologia favorece uma liberdade de autonomia ou de dependência, ou então, qual é o valor do Outro na minha constituição e que lugar ele ocupa em minha vida. Diante da análise do filme inferimos que podemos desenvolver padrões de relacionamentos marcados por um egoísmo muito forte e a tecnologia preenchendo o vazio da inabilidade de se relacionar com os Outros, revelando assim a desvalorização humana e seu completo descarte para alcançar a tão sonhada felicidade.

Sobre o Autor:

Dennys Rodrigues de Sousa - Graduando em psicologia pela Faculdades Metropolitanas de Maringá - UNIFAMMA, Maringá-PR, Brasil

Orientador: André Henrique Scarafiz - Departamento de Psicologia, Faculdades Metropolitanas de Maringá - UNIFAMMA, Maringá-PR, Brasil

Referências:

ALVES, Rubem. (1968). Tecnologia e humanização. In: Revista Paz e Terra, n. 08. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira.

CANTÚ, E. (2005). Elementos para o fortalecimento da mediação docente na educação tecnológica: aplicação no ensino-aprendizagem de redes de computadores. Tese (Doutorado em Engenharia Elétrica). Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis.

LÉVY, P. (2000). Cibercultura. São Paulo: Editora 34.

PERDIGÃO, P. (1995). Existência e Liberdade: Uma introdução à filosofia de Sartre. Porto Alegre: L&PM.

PORTO, T. (2006). As tecnologias de comunicação e informação na escola; relações possíveis...relações construídas. v.11, pp.43-58.

SARTRE, J. P. (1946/2012). O existencialismo é um humanismo (2a ed.). (V. Ferreira, trad.). Petrópolis: Vozes. (Originalmente publicado em 1946).

SCHNEIDER, D. R. (2011). Sartre e a Psicologia Clínica. Florianópolis: Edufsc. SILVA, A. (2013). A concepção de liberdade em Sartre. v.6, pp.94-107.

SILVEIRA, R. (2005). Ciência e tecnologia. Transformando a relação do ser humano com o mundo, pp.01-10.

VAZ, C.; Fagundes, A.; Pinheiro, N. (2009). O Surgimento da ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS) na Educação: Uma Revisão. pp.98-119.