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O presente relatório refere-se ao filme “Meu Pai, uma Lição de Vida” (1989) traz discussão sobre uma outra importante e delicada fase do desenvolvimento humano que é o envelhecimento, um processo universal e individual que envolve em seu contexto aspectos biopsicossocial; é um processo universal por ser natural, por ocorrer independente da vontade da pessoa e de forma gradual em indivíduos que finalizam a fase adulta, e é individual por ocorrer de forma peculiar e num tempo próprio a cada pessoa, que percebe e vivencia as alterações orgânicas, físicas e emocionais de forma diferenciada emitindo sua resposta na própria forma de encarar e viver esta fase da vida. Mais que falar do envelhecimento, o filme de Gary David Goldberg é uma belíssima obra, um drama sobre a complexa relação familiar, a dificuldade de envolvimento entre pai e filho e os valores que realmente são importantes na vida e que são aprendidos e vividos nesta relação.

“Envelhecimento é um processo seqüencial, individual, acumulativo, irreversível, universal, não patológico, de deterioração de um organismo maduro, próprio a todos os membros de uma espécie, de
maneira que o tempo o torne menos capaz de fazer frente ao estresse do meio-ambiente e, portanto, aumente sua possibilidade de morte”. (OPAS, 2006)

John (Ted Dansen) é um empresário apegado à rotina de seu trabalho e que se vê em uma situação delicada com o adoecimento de sua mãe Beth (Olympia Dukakis), uma mulher racional, controladora, autoritária que não permitia que o marido fizesse quase nada, todas as decisões parecia lhe pertencer. Ela e Jack (Lemmon) estão casados a muito tempo e tiveram dois filhos: John (Dansen) e Annie (Kathy Baker) que são independentes, cada um com sua vida e seu ritmo. A partir da hospitalização da mãe, o filme mostra uma realidade muito difícil: o marido Jack é totalmente dependente de sua mulher e agora seu filho precisa ajudá-lo na redescoberta de sua própria individualidade, seus gostos etc.

Embora a vida profissional de John, o filho, seja uma estressante loucura, ele abre mão de tudo para ficar mais tempo ajudando seu pai nessa nova etapa da vida, sua nova rotina, onde tudo era um desafio, do vestir-se sozinho aos cuidados domésticos, ainda mais  que a mãe ainda permaneceria mais alguns dias hospitalizada.

Infelizmente, após a saída da mãe a família descobre que o pai está com câncer e a forma como ele, o pai, foi informado do diagnóstico, levou-o a um choque perturbador e seu filho John, antes tão distante de tudo e de todos, agora reúne forças para cuidar de seu pai no afã de vê-lo recuperado. Em meio a tudo isso, John percebe o quanto distanciou-se não apenas de seus pais, mas também de seu filho Billy (Ethan Hawke)  que morava então no México e quase não tinha contato, tornando-se estranho um para o outro. Essa relação distante fica visível quando o seu filho visita os avós e então John tenta resgatar os laços perdidos dessa relação e inicia uma conversa com uma série de questionamentos no intuito de conhecer melhor a vida de seu filho que a princípio não entende o propósito e até estranha muito, mas permite essa tentativa de proximidade através do diálogo sincero.

Ao passo que John tenta conhecer melhor seu filho, ele busca também aproximar-se mais de seu pai e começam a fazer atividades juntos, conversando um pouco mais e ele vê quanto tempo perdeu nesta relação paternal.

Particularmente um dos momentos mais tocantes é quando Jack, hospitalizado, tem seu último diálogo com o filho John, e se espanta de ficar pensando em banalidades neste momento tão crucial, ao invés de pensar em algo mais sério, mais nobre para falar ao filho. John se aconchega na cama, ao lado do pai permanecendo assim até seu último instante de vida.

A finitude da vida é algo claro para todos, é um momento em que se busca a reflexão da vida conjugal e da própria vida em si, como forma de amenizar a dor da separação; o indivíduo idoso faz uma avaliação de si, de suas conquistas, de seus valores, dos sucessos e insucessos da vida, os ganhos e as perdas que denotarão sabedoria ou não, conforme estudos do teórico Erik Erikson. Pessoas que avaliam sua própria vida conseguem  melhor enfrentamento quando na terceira idade, mas os indivíduos que tem dificuldade de aceitação se deparam com algum desespero quando chegam  a esta fase, pelo próprio fato de saberem que a esta altura, não há mais tempo para finalizar coisas importantes na vida. Jack fez o que conseguiu para viver da melhor forma esses últimos instantes.

O filme aborda temas importantes como a relação familiar, os cuidados com o idoso, o acolhimento residencial ao invés da inclusão em instituição asilar  e deixa grandes lições sobre a importância família, sobre a vida, o amor, o respeito, a renúncia,a amizade, o zelo e proximidade entre pessoas num período tão delicado como o estágio do envelhecimento. A humanidade vive como se tivesse encontrado a fonte da juventude e nunca mais fosse envelhecer e sabemos que a vida não é isso, não é assim. A correria da vida diária de nada adianta quando a idade avança e nos pede mais calma no caminhar pela vida, mas isso não quer dizer também que a velhice seja estágio de estagnação, ao contrário, é a melhor idade! Momento de fazer as coisas  sem tanto perfeccionismo pra agradar os outros, momento de viver com sabedoria e alegria.

Nas instituição asilar percebemos em muitos internos a ausência desse colorido na vida e isso nos entristece de forma inevitável. A maioria que ainda está lúcida apresenta tanta apatia, tanta tristeza que mexe com as fibras mais íntimas dos nossos sentimentos. Muitos foram abandonados por seus familiares sendo que alguns nem sequer comparecem para visitá-los, renegando-os ao esquecimento.

O filme mostra outra realidade, diferente da que percebemos na instituição asilar, mas apesar de tudo, mostra que amor é sentimento universal e pode se manifestar em qualquer lugar de inúmeras maneiras, basta sentir e deixar fluir com sabedoria. Percebo mais nitidamente o quanto significa para os internos as horas que lhe são dedicadas de forma natural, não-obrigatória; são rostos tão castigados pela vida, pelas consequências da vida e tudo o que precisam é de atenção mais concentrada; o idoso precisa ser ouvido, precisa falar, manifestar que ainda vive e é o nosso papel como estagiário, mas principalmente como ser humano,  acolhê-lo com todo respeito e paciência, ainda mais no aprendizado desta profissão que trata sobretudo do comportamento biopsicossocial do ser humano. A tarefa não é fácil, mas aceitamos o desafio no afã de que um pouco de nossos melhores desejos e todo o nosso respeito possa ser percebido ou até sentidos por estes internos.

Referências

MEU PAI, uma lição de vida. DAD. Amblin Entertainment, EUA, 1989. Direção: Gary David Goldberg. Produção: Gary David Goldberg e Joseph Stern. Intérpretes: Jack Lemmon, Ted Danson, Olympia Dukakis, Kathy Baker, Kevin Spacey, Ethan Hawke e outros. Roteiro: Gary David Goldberg, baseado em romance de William Wharton. 1 DVD (117 minutos), widescreen, color.

Ministério da Saúde. Envelhecimento e saúde da pessoa idosa. Cadernos de Atenção Básica, n.º19, 2006.