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A relevância do tema deve-se a importância imprescindível, para os profissionais que lidam com o direito e/ou a psicologia, de conhecer os fatores relacionados à forma como se constrói a dinâmica familiar em um contexto doente, para o qual a sociedade tenta fechar os olhos e assim buscar compreender como a história de vida, o contexto social e a família são importantes na estruturarão de uma personalidade.

Contextualização do Filme: Preciosa

O Filme retrata o drama social da Jovem Claireece Precious Jones. Desde já pode-se afirmar que o filme “Preciosa” não é uma obra de ficção qualquer e sim um retrato que pode vir a aplicar-se como roteiro real em diversos lares, nos quais crianças e adolescente são, constantemente, colocadas em situações de extrema desqualificação e marginalizadas, além de frequentemente expostas à violência sexual, física e psicológica

Precious é uma adolescente de 16 anos de idade que é expulsa da escola no início de  sua segunda gestação. Ainda, nas cenas iniciais coloca-se claramente no filme que Precious é possuidora de uma imaginação muito frutífera. Ela sonha, por exemplo, que seu professor é apaixonado por ela e que irão morar juntos. Tal imaginação mostrar-se-á como um dos mecanismos de defesa e grande parte da fonte de sua forte resiliência para a difícil estrutura familiar na qual se encontra inserida.

No ambiente domestico Precious vive com sua mãe que se mostra extremamente desequilibrada psicologicamente e portadora de características que poderiam ser atribuídas à uma estrutura boderline de personalidade. No enredo do filme aos poucos vai sendo evidenciado que o filho que está esperando é resultado de uma relação incestuosa com o seu Pai. Das relações de violência sexual às quais Precious é submetida desde os três anos de idade podem provavelmente originar-se as motivações para negligência por parte da mãe a qual nutre um ódio doentio contra a filha, pois acredita que a adolescente desde criança seria concorrente nas relações sexuais com o Pai.

Ao ser excluída de sua escola Precious é matriculada em uma escola alternativa para garotas com problemas sociais. Lembrando que a adolescente, além de encontrar-se grávida pela segunda vez, era praticamente uma analfabeta funcional.

A mãe de Precious é uma pessoa que se mantêm de forma parasitária dos benefícios do Estado que são garantidos à adolescente e à sua primeira filha, uma menina com  síndrome de Down, apelidada de “mongo”.

Ainda, no contexto familiar de Precious encontramos, mesmo que de forma bem rápida, a figura de sua avó materna, uma pessoa que se mostra como sendo a representação do amor, carinho e segurança e que cuida da primeira neta, sem no entanto, ter força suficiente para acolher Precious.

O segundo ambiente apresentado no filme é a sala de aula da escola alternativa. Local em que a personagem principal tem a oportunidade de pensar e apropriar-se de sua realidade tendo como facilitadora uma professora que presta acompanhamento individual às dificuldades oriundas da história de vida das alunas tutoreadas.

Pode-se afirmar que esse suporte social fora o alicerce para a reorientação da história de vida de Precious dando-lhe os meios e encaminhamentos necessários para que reorganizasse e se instrumentalizasse para enfrentar sua realidade que além de dificuldades uma dura dinâmica familiar incluía analfabetismo funcional, desemprego, baixa autoestima, AIDS, dois filhos para sustentar. Todos esses fatores alicerçados em uma personalidade que inicialmente estava completamente imersa nas situações traumáticas das quais revitimizava-se constantemente, como os abusos sexuais por parte do pai por exemplo.

O golpe que o Filme Preciosa nos proporciona vem como um terremoto que faz desmoronar as falsas fantasiais criadas ligadas ao ambiente familiar como a célula da sociedade, local de acolhimento, amor e carinho. Tudo que não é percebido, ou melhor, é negado a Precious.

A face grotesca das relações familiares apresentada durante o filme nos faz refletir o quanto pode ser aterrador alguns ambientes familiares. Ao se buscar em nossos ordenamentos jurídicos algumas Leis mais recentes que serviriam como amparo para situações nas quais ocorressem violências como as descritas pela história poderia citar-se o Estatuto da Criança e do Adolescente e Lei Maria da Penha. O Estatuto, caso realmente fosse obedecido, teria papel imprescindível para a prevenção de situações como estas e a conseqüente quebra de todo um ciclo da violência e a Lei Maria da Penha como mecanismo e meio reparador para a situação de violência já instaurada.

A proteção estatal não foi capaz de garantir a Precious seu direito “à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência,discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão” como determina a nossa carta magna em seu artigo 227.

Conclusão

O filme é muito chocante, pois nos remete a uma realidade que se esconde em vários lares: o abuso sexual infantil. O mais chocante é que apesar de ser uma obra de ficção retrata com fidedignidade esta cruel realidade deixando-nos, a princípio, de mão atadas frente a esta violência que ocorre em muitas famílias.

O horror do incesto, desamor materno e a grande resiliência da adolescente são marcantes e a reflexão oriunda da obra nos faz imaginar a possibilidade de tais cenas poderem estar se passando em cenários reais nesse exato momento.

Os mecanismos de prevenção e proteção social, tais como leis e órgãos personificadores destas leis (como aqueles oriundos da assistência social, por exemplo)  brilham como aparentemente o meio mais viável para uma tentativa de evitar que tais cenas continuem acontecendo. Em curto prazo poder-se-ia citar a importância da atuação de órgãos responsáveis por sanar os estragos já deixados na teia de vida dessas pessoas como os CREAS (Centro de Referencia Especializada da Assistencia Social) , por exemplo. Contando com uma atuação por um período maior de tempo os CRAS (Centro de Referência da Assistência Social) e outros órgãos responsáveis por promover meios para o empoderamento de qualidade de vida e defesa dos próprios direitos.

A atuação desses órgãos deve vir alicerçada, no entanto, pela compreensão de que um problema social nunca é um problema social isolado e afeta a comunidade como um todo..

Sobre o Trabalho

O presente trabalho é exigência parcial para conclusão da disciplina Dinâmica da Família e Relações com a Justiça ministrada pela professora JULIA BUCHER e Avaliado pela professora Vera Lúcia Lourenço do curso de Especialização em Psicologia Jurídica do Centro de Ensino Unificado de Teresina

Sobre o autor

Flora Fendandes Lima é Psicóloga graduada pela UESPI, especialista em psicologia jurídica, psicóloga do CREAS I da cidade de Teresina- PI e membro redatora do site Psicologado.com