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O documentário “Ônibus 174” do diretor José Padilha, produzido a partir de um sequestro real de um coletivo da cidade do Rio de Janeiro, traz reflexões importantes sobre as questões sociais. Além de elucidar pontos consideráveis no que se refere a invisibilidade social, aponta também para a falta de políticas públicas para aqueles que estão à margem da sociedade, a atuação do Estado na segurança pública e o despreparo de pessoas envolvidas nesse trabalho.

Mas que falar sobre todas as circunstâncias adversas e sucessões de erros nesse sequestro cinematográfico, o documentário aborda a questão da invisibilidade social de uma maneira tão tocante, que faz despertar em quem o assiste sentimentos antagônicos. Por vezes de revolta e ódio imensos, por outras de compaixão e pena, todos eles direcionados ao protagonista principal da estória, Sandro Barbosa do Nascimento.

Sandro é um sobrevivente da “Chacina da Candelária” ocorrida há dezessete anos no mesmo palco social, em que vários meninos de rua foram assassinados violentamente. As cenas do “espetáculo real”, são entrecortadas com depoimentos de pessoas que viveram todo o drama, especialistas em assuntos sociais, e pessoas ligadas a trajetória de vida de Sandro, a qual foi marcada por tragédias que teve início na infância, ao presenciar o assassinato da mãe. Os fragmentos de sua história pessoal, apontam para um caminho em que a invisibilidade social se fazia cada vez mais presente.

De uma tentativa de roubo errada e da dimensão que este ato tomou, Sandro ganha uma visibilidade social, nunca antes conquistada, proporcionada pela exploração da mídia televisiva, que deternima o que deve ser visível e invisível. Os olhares de toda uma sociedade deram a ele a grande chance de se fazer existir. Assim como maioria invisível que percorre os grandes centros urbanos, Sandro pertencia a massa caracterizada pelos estigmas e indiferença sociais, “jovem, negro e analfabeto”, a que os nossos olhos estão tão acostumados a ignorar.

Em nossa corrida pela sobrevivência, em uma sociedade em que se prioriza cada vez mais a individualidade, treinamos desviar os nossos olhares para aquilo que nos causa incômodo, estamos tão habituados a fazer isso que esses personagens sociais são diluídos na trama urbana.

A invisibilidade do cotidiano só é modificada quando a dinâmica urbana é alterada, vários Sandros transitam pela sociedade, mas tornam-se visíveis à medida em que se transformam em ameaça, à medida em que utilizam a violência como linguagem, como modo de serem ouvidos. Nesses momentos, rompe-se a condição de invisibilidade, pois tiram-nos do nosso automatismo diário.

Entretanto a condição de visibilidade na sociedade só é possível, à medida em que passa por um reconhecimento da identidade, e quando os indivíduos por meio dos estigmas e da indiferença são negligenciados nessa particularidade, são negados a estes sua condição de sujeitos, de existência. Ao anular a identidade a invisibilidade frente ao um outro se efetiva.

Sandro ganha a visibilidade em dois momentos de sua fugaz existência, um em que é um dos sobreviventes da candelária, apenas mais um garoto de rua, outro quando ganha as manchetes de jornais, impondo ser visto, mas neste momento é destituído de toda piedade social que outrora conseguiu. Contrariando ao final esperado de filmes policiais, em que a mocinha é salva no final e o bandido morto, Sandro sai de cena com a mesma invisibilidade com que entrou, com a diferença de carregar consigo mais uma máscara que a sociedade lhe impôs, a de ser o único culpado pelo desfecho inesperado.

Sandro busca por um instante o seu lugar na sociedade, ao mesmo tempo em que tenta se vingar do Estado, descarrega na polícia todo o desafeto de uma vida alimentada pela exclusão social. É nessa instituição também, que segundo um dos depoimentos do documentário, uma parcela de indivíduos invisíveis é acolhida, pois resta a ela a única opção de ser militar. Assim, esse desfecho inesperado não poderia ter um final diferente, pois a trama que se espera disso, é uma batalha em que se trava entre o bem e o mal, na luta por uma visibilidade, conquistada cada uma a seu modo.

Mais do que transformar o personagem principal em vítima ou bandido, o documentário nos impele, além dos incomôdos, angústias que causa, a questionar sobre o lugar de indiferença a que nos colocamos. Mesmo sendo um mecanismo de defesa, “para nos livrar da dor alheia e nos poupar do sofrimento”. É fácil ficar nesse lugar, assim como é fácil também desejarmos que todos os indivíduos que causam dano à engrenagem social sejam eliminados.

A falta de políticas públicas capazes de atingir esse grande contigente de excluídos, impede uma abertura no sistema, um espaço para discorrer sobre as desigualdades sociais, as ideologias, a discriminação. A este contingente destituído de capital social-educação, emprego, ou seja, a riqueza adiquirida através das relações sociais e do sentimento de pertencimento ao contexto em que estão inseridos- não resta senão procurar meios para se fazerem vistos, ainda que contrariando a ordem social. A nós os atores sociais, ou expectadores resta “ aprender a conviver com os sandros”, não nos mobilizando, mas cada vez mais mergulhando na inércia social.

Sobre o Autor

Cláudia da Costa Stengel - Estudante de Psicologia da PUC-MG, Campus São Gabriel

Sobre o Trabalho

Trabalho apresentado na disciplina de Políticas Públicas, sob orientação da professora Márcia Mansur

Referências

DIMENSTEIN, Gilberto. O mistério das bolas de gude: histórias de humanos quase invisíveis. 2º ed. São Paulo: Papirus, 2006.

SOARES, Luiz Eduardo. Juventude e violência no Brasil contemporâneo. São Paulo: Ed. Fundação Perseu Abramo, 2004.