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Resumo: Os Centros de Atenção Psicossociais - CAPS surgiram a partir da Reforma Psiquiátrica apresentando uma nova concepção de cuidado para pacientes com transtornos mentais. Estes formam um grupo, carente de ações que se direcionem às suas necessidades, bem-estar e inserção social. É nesse contexto que as atividades artísticas aparecem como eficiente método terapêutico adjuvante para esse grupo de pacientes. A Arteterapia resgata o potencial criativo do homem, buscando uma psique saudável e estimulando a autonomia e transformação interna com a finalidade de reestruturação do ser. Uma vez instalado o comportamento de representar, com recursos artísticos, emoções, sensações e pensamentos, os comportamentos disfuncionais são passíveis de serem modificados frente às suas representações. Desse modo, possibilitam uma clareza do transcurso habitual entre ambiente (estímulo), pensamento e sentimento para o indivíduo, promovendo assim, o autocontrole. O objetivo do presente estudo foi conhecer até que ponto, estimular atividades artísticas para os pacientes psiquiátricos, em forma de tratamento complementar, ajuda a desenvolver conhecimentos, habilidades e atitudes, dentro de suas limitações, facilitando sua inserção social. O método da pesquisa-ação, foi realizado no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS III), em Juazeiro do Norte-CE, através de encontros de atividades artísticas e oficinas, junto com a equipe de psicoterapia da instituição. Os resultados levaram a crer  que tais atividades estimularam a concentração dos usuários desse serviço de saúde, auxiliando em seu tratamento. Conclui-se pois, que o tratamento extra-hospitalar oferecido pelo CAPS desempenha um papel fundamental na reinserção familiar e social, opondo-se ao antigo regime hospitalocêntrico.
Palavras-chave: CAPS, arteterapia, inclusão social.

Introdução

A partir da Reforma Psiquiátrica, houve grandes mudanças associadas ao tratamento dos transtornos mentais. Anteriormente, o tratamento submetia os indivíduos à exclusão social sendo então necessária uma nova concepção de cuidado com esses doentes, buscando melhor qualidade de vida para estes e retirando-os do ambiente dos manicômios, reinserindo-os assim na sociedade. Com esse objetivo, surgiram os Centros de Atenção Psicossociais (CAPS), onde a Terapia Ocupacional procura resgatar o convívio destes indivíduos com a sociedade.  “Neste contexto extra-hospitalar, a arte assume um papel de extrema importância, viabilizando o processo de reabilitação e inclusão sócio-familiar dos portadores de transtornos mentais e priorizando o tratamento do paciente como um todo” (RISSATO; CROTTI; ANTONELI, 2008).

A Arteterapia é uma atividade de estimulação à execução de imagens pela expressão artística, buscando respostas em pacientes para que possam se auto-observar, promovendo reflexões sobre o desenvolvimento pessoal, habilidades, interesses, preocupações e conflitos. Uma vez instalado o comportamento de representar com recursos artísticos emoções, sensações e pensamentos, comportamentos disfuncionais são passíveis de serem modificados frente a suas representações. Desse modo, possibilitam uma clareza do transcurso habitual entre ambiente (estímulo), pensamento e sentimento para o indivíduo, promovendo assim, o autocontrole (CARVALHO, 2001).

É nesse contexto de novos métodos terapêuticos para pacientes com transtornos mentais, que este trabalho vem reforçar a divulgação da arte como meio adjuvante no tratamento desses pacientes, visto que a melhora dos sintomas requer além do tratamento medicamentoso, a utilização de outros recursos como terapia. Dessa forma, atividades de lazer, apoio e atenção de amigos e familiares ajudam a desenvolver o potencial criativo desses indivíduos. Nesse sentido, a realização de oficinas de arte estimula a aquisição de novas habilidades profissionais e autoestima, unindo a educação e qualidade de vida (SIQUEIRA E BARJA, 2009).

O projeto “A arte como recurso terapêutico em pacientes com transtornos mentais” mantido pelos acadêmicos de medicina da Universidade Federal do Ceará nos centros de Atenção Psicossociais de Barbalha e juazeiro do Norte, visam o desenvolvimento de conhecimentos, habilidades e atitudes dos pacientes psiquiátricos dentro de suas limitações. Além disso, criam condições para que os pacientes com transtornos mentais possam inserir-se plenamente na sociedade. Também realizam atividades lúdicas visando, não somente o lazer, mas principalmente buscando desenvolver ações educativas e incentivando a abertura e realização de novas ações na área de saúde mental.

Assim, como forma de avaliar o trabalho de extensão dos acadêmicos de medicina da Universidade Federal do Ceará, procurou-se conhecer até que ponto, estimular atividades artísticas para os pacientes psiquiátricos, em forma de tratamento complementar, ajudaria a desenvolver conhecimentos, habilidades e atitudes, dentro de suas limitações, facilitando sua inserção social.

Método

O método constou de uma pesquisa-ação, na qual as ações foram realizadas de modo a intervir na realidade da população, após investigação e análise de necessidades. Esse tipo de pesquisa visa promover uma transformação, visto que pesquisa e ação, devem caminhar juntas.

Optou-se por utilizar esta metodologia crítica, pois a transformação é vista como uma necessidade dos sujeitos, percebidas pelo pesquisador. Além disso, esta metodologia valoriza a reflexão crítica do processo, assim como a emancipação dos sujeitos.

A pesquisa-ação crítica envolve a perspectiva dos sujeitos, da população em estudo, buscando uma transformação da realidade a qual os sujeitos estão inseridos (FRANCO, 2005).

O estudo foi conduzido no Centro de Atenção Psicossocial, na cidade de Juazeiro do Norte-CE, sul do estado do Ceará, nos meses de março a dezembro de 2011.

Juazeiro do Norte é um município que conta com população aproximada de 250 mil habitantes, segundo estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística em 2009 (IBGE, 2000).

A amostra foi composta por usuários do Centro de Atenção Psicossocial em Juazeiro do Norte-CE. A instituição contava, à época do estudo, com aproximadamente 450 usuários cadastrados. As atividades de terapia ocupacional são abertas para toda a população.

Os critérios de inclusão para participação no estudo foram: a) usuários do CAPS que se encontravam no local, na data marcada para os encontros; b) indivíduos que decidiram participar voluntariamente.

Conforme o estudo tenha sido feito como uma pesquisa-ação, a coleta de dados seguiu as etapas propostas para este tipo de estudo, a saber: planejar uma melhoria da prática, agir para implantar a melhoria planejada, monitorar e descrever os efeitos da ação e, por fim, avaliar os efeitos da ação (TRIPP, 2005). Foram realizadas atividades, envolvendo os usuários do CAPS, em encontros realizados mensalmente, abordando diversas áreas nos temas de arte e cultura. As ações foram discutidas com a equipe de trabalho de modo a também motivar diretamente, os profissionais de saúde desse serviço.

A apuração dos resultados foi realizada através de discussão com os profissionais e representantes dos familiares, em forma de rodas de conversa.

Após a coleta de dados, estes foram organizados, analisados e interpretados à luz da literatura científica sobre a temática.

Resultados e Discussão

As ações foram desenvolvidas de março a dezembro de 2011, envolveram oficinas terapêuticas, com atividades artísticas em diversas temáticas da atualidade, dentre as quais, oficina de música com participação de músico, e dos próprios usuários como estímulo a arte; atividades de criatividade com desenhos e colagem; atividades de dança, dentre outras modalidades.

Em outros encontros, foram dirigidas apresentações de teatro com artistas da região, assim como a realização de oficinas de artesanato.

Observou-se que tais atividades estimularam a concentração dos usuários desse serviço de saúde, auxiliando-os no seu tratamento.

Percebeu-se que os pacientes com transtornos mentais devem ser estimulados a viverem em sociedade, sem que haja temor ou preconceitos por parte da população, que em muitos casos, ainda continua tratando-os como loucos, sem nenhuma expectativa de inserção social. Observe-se as seguintes falas dos familiares dos usuários:

A gente leva às vezes para passear [...] sempre que tem alguma coisa que a gente possa fazer por ele...[...] mas aqui ele parece que se sente alegre junto com os outros, participando.... para ele é muito bom. [E.F.O.]

Quando tem festa, ela leva convite, eu venho e participo também. É ótimo. Ela gosta é muito [M.J.S.]

De acordo com as entrevistas, alguns familiares e profissionais consideram as oficinas como importante instrumento de tratamento a pessoa em sofrimento psíquico, pois oportuniza aprender algo que lhes possa ser fonte de renda, como também, formar laços de amizade, adquirir hábitos de responsabilidade, entre outros; além de ser uma forma de inserção social.

Acho bom, esse trabalho daqui que ela faz, para ela também é bom, se distraí, fica ali conversando com as pessoas, quando vê está fazendo alguma coisa interessante...[...]. E eles podiam até vender [...] Muito bom.[M.F.S.]

Aqui nas oficinas, Ele pinta [...] dança [...] e faz qualquer tipo de aula de arte [...] eu vejo que ele sabe até ensinar a costurar. [G.P.S.]

As atividades artísticas vêm representando um papel muito importante neste tipo de intervenção, pela inserção de formas novas de tratar pessoas com comprometimentos psiquiátricos, em ambulatório. Isso proporciona um olhar mais amplo do ser humano por trás dos seus transtornos psicológicos.

Eu acho ótimo [...]. As oficinas são muito importante, é necessário na vida de todos

[...] atividade de arte é muito importante. [J.U.C.]

Aqui tem poucas atividades físicas pela manhã [...] aula de educação física, mas falta outras atividades [...] tem que ter um serviço especial para aqueles que não gostam de entrar nas oficinas, que às vezes ficam no quarto [...] eu observo isso. [C.G.C.]

As atividades desenvolvidas parecem abrir portas para o resgate da identidade do indivíduo, principalmente, quando se tem acesso a sua história de vida. Esta atitude permite tomada de ações que valorizam mais as suas habilidades e potencialidades.

O usuário tem a liberdade de participar ou não das oficinas garantido a autonomia da pessoa em escolher e participar daquilo que mais gosta, visando assim que o usuário se privilegiar das atividades que o CAPS oferece.

Eles tem total liberdade de escolher a oficina que quer ficar ou não. [...] os alunos fazem oficinas diferentes em cada encontro. Isso é muito bom. Quando ele não quer, ninguém obriga. [E.F.M.]

Mesmo assim, observou-se a necessidade da manutenção de drogas psicotrópicas, principalmente em casos de pacientes com sintomas psicóticos.

As atividades artísticas parecem ter peoporcionado uma maior motivação para a participação e envolvimento na atividade terapêutica, e uma melhor compreensão do paciente, de sua realidade e de seus pensamentos e emoções.

As fotos abaixo, registram momentos do trabalho.

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O trabalho comprometido que o Centro de Atenção Psicossocial de Juazeiro do Norte oferece a sua comunidade é de valiosa importância para os usuários e também para reforma psiquiátrica, pois demonstra o quanto a luta antimanicomial tem ganhado espaços no nosso país.

Esse serviço tem se comprometido através das atividades terapêuticas em realizar um

trabalho árduo de acompanhamento, cuidado e reinserção social da pessoa com transtorno mental.

Acreditamos que a parceria com a Universidade Federal do Ceará, através da oficina de Arte como Recurso Terapêutico deve ser introduzida em outros serviços, pois é uma atividade rica para o aprendizado, para a autonomia e para a inserção da pessoa em sofrimento emocional na sociedade. E que essas atividades sejam aprimoradas e fortalecidas dentro do serviço com a participação de todos os atores sociais que participam desse processo.

Conclusão

O transtorno mental pode, dependendo da atitude que se tenha para com as pessoas acometidas, excluir o paciente da sociedade, devido a sua dificuldade de integração consigo mesmo e com os demais indivíduos. Ressalta-se a importância de um tratamento extra-hospitalar, como por exemplo, os Centros de Atenção Psicossociais – CAPS, considerados como dispositivos na rede de atenção substitutiva e extra-hospitalar, que desempenham um papel fundamental na reinserção familiar e social de pessoas portadoras de transtornos mentais. Trata-se de uma modalidade de tratamento que se opõe ao regime hospitalocêntrico.

A Terapia Ocupacional nestes Centros de reabilitação exerce um papel importante, tendo como um dos objetivos a reabilitação Psicossocial.

Agradecimentos:

À Universidade Federal do Ceará e Faculdade de Medicina do Cariri pelo apoio financeiro fornecido e, aos profissionais do  Centro de Atenção Psicossocial de Juazeiro do Norte-CE, pela atenção e participação na realização das atividades.

Sobre os Autores:

1. Plínio Pinto Malveira: Acadêmico de Medicina pela Universidade Federal do Ceará- UFC Barbalha. EmailO endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ;

2. Josefa Janiele Lopes Moreira: Acadêmica de Medicina pela Universidade Federal do Ceará- UFC Barbalha. EmailO endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.;

3. Gislene Farias de Oliveira: Doutora em psicologia Social. Professora Adjunta da Universidade Federal do Ceará- UFC Barbalha. EmailO endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.;

Referências:

CARVALHO, M. R. Terapia Cognitiva e Comportamental através da Arteterapia, 2001. Trabalho apresentado ao 3º Congresso das Terapias Cognitivas, São Paulo, 2001. Disponível em: http://www.nacsantos.com.br/imagens/arteterapia.pdf.

FRANCO, M. A. S. Pedagogia da Pesquisa-Ação. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 31, n. 3, p. 483-502, set./dez. 2005.

IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. IBGE – Cidades@. IBGE, 2009. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1

RISSATO, B. R.; CROTTI, L. P.; ANTONELI, R. T. Terapia Ocupacional Dinâmica: um processo de intervenção em usuários com transtornos mentais atendidas no CAPS I em Lins, 2008. Disponível em: http://www.juterapeutaocupacional.com/pdf/terapiaocupacionaldinamica.pdf.

SIQUEIRA, A. C. M. B.; BARJA, A. M. Um novo olhar para os pacientes psicóticos: intervenções de terapia ocupacional, 2009. Trabalho apresentado ao XIII Encontro Latino Americano de Iniciação Científica e IX Encontro Latino Americano de Pós-Graduação, São Paulo, 2009. Disponível: http://www.inicepg.univap.br/cd/INIC_2009/anais/arquivos/0962_0536_01.pdf.

TRIPP, D. Pesquisa-ação: uma introdução metodológica. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 31, n. 3, p. 443-466, set./dez. 2005.