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Resumo: O artigo de Almeida e Lourenço (2008) intitulado por “Amor e sexualidade na velhice: direito nem sempre respeitado” apresenta uma abordagem sobre o modo como a sociedade percebe a sexualidade e o amor dos indivíduos na velhice, enfatizando alguns preconceitos, tabus, e estereótipos, com os quais os idosos se deparam durante o seu enamoramento e, a vivência de sua sexualidade, além de salientar, a necessidade de se romper com esses paradigmas para que o envelhecer possa ser compatível com uma boa qualidade de vida. Respaldados nesse artigo, o presente ensaio procura desenvolver um estudo sobre a forma como a sociedade percebe a sexualidade do idoso, além de apresentar as mudanças pelas quais o corpo passa durante a fase da velhice. Destaca-se ainda, o modo como a sexualidade é entendida e desenvolvida pelos idosos, e de que maneira o amor se perpetua nessa fase do ciclo vital.

Palavras- chave: Velhice; Sexualidade; Sociedade; Amor.

Introdução

“A sexualidade é uma necessidade do ser humano, cuja dinâmica e riqueza deve ser vivida plenamente. Esta nasce, cresce e evolui com o ser humano, sendo por isso necessária para a realização plena, como pessoa, de todo o indivíduo. O amor e o prazer que daí se retira não termina com o envelhecimento” (SILVA, 2006)

O itinerário do ciclo vital do ser humano é uma totalidade das suas experiências vividas, das suas emoções, objetivos, desejos e ideologias que vão se firmando com o passar do tempo.

Assim como a infância, a adolescência e a vida adulta, a velhice é considerada como uma etapa da vida, marcada por mudanças de nível físico, mental, social e sexual. A Organização Mundial de Saúde define que o sujeito é considerado como idoso a partir dos sessenta anos de idade. A velhice é uma fase da vida que não tem uma idade exata para começar, pois é um momento que varia muito de indivíduo para indivíduo, uma vez que depende da disposição e dos interesses que o sujeito possui em relação a sua qualidade de vida.

 Segundo Neri (2001) o envelhecimento pensado em termos biológicos compreende uma série de processos que acarretam a transformação do organismo, sobretudo após a maturação sexual, e tem como consequência a diminuição gradual da probabilidade de sobrevivência. Tais processos, considerados de natureza interacional, iniciam em épocas e ritmos diferenciados para cada parte do corpo, provocando resultados diferenciados. Na perspectiva do desenvolvimento life-span, o envelhecimento é uma experiência heterogênea, isto é, ocorre de modo diferente para indivíduos e sociedades que vivem em contextos históricos diferentes. Dessa forma, pode-se dizer que “existem diferentes padrões de envelhecimento, raramente observáveis em estado puro” (BALTES, 1987, apud NERI, 2001, p.22).

O que é Ser Idoso? – Repercussões e Representações Sociais

Na contemporaneidade, pensar na Velhice nos remete muitas vezes, a concepções, imagens e representações de uma fase do ciclo vital, marcada por perdas nas condições e atividades corporais, surgimento de doenças, desgastes, enfraquecimento, incapacidades, dependência, fim, decadência, inatividade sexual, fragilidade, vulnerabilidade, solidão, sofrimento, abandono, desânimo. No entanto, em contrapartida a todo esse aparato moldado por uma sociedade, na qual alimenta a ideia de velhice como um sinônimo de perda, estudos contrapõem essa concepção à sabedoria, experiência e ao conhecimento adquiridos com o envelhecer que, são repassados as novas gerações. Assim, percebe-se uma relação em que sentidos de perdas e de desvalorização são amenizados e compensados por ganhos.

Para Baltes (1987, apud Neri, 2006, p.24)

“O envelhecimento é um processo que acarreta mudanças de natureza ontogenética, traduzidas no declínio das capacidades intelectuais dependentes do funcionamento neurológico, sensorial e psicomotor. Essas mudanças refletem-se na diminuição da plasticidade corporal”.

Segundo o autor, a presença de mudanças intelectuais de base ontogenética não quer dizer necessariamente que o indivíduo terá uma eterna descontinuidade de aprendizagem, ou uma incapacidade de aprender coisas novas, visto que a partir das experiências já adquiridas, pelos seus antepassados, há uma compensação do declínio nas capacidades de processamento de novas informações.

Todas essas mudanças tanto físicas, psicológicas, dentre outras ocorrem de modo diferente entre os indivíduos, pois depende do contexto onde cada um está inserido, das condições culturais na qual ele vive e da personalidade de cada um.

É importante frisar que todo esse processo de mudanças e adaptações a nova fase é acompanhado por um amadurecimento emocional, visto que o indivíduo passa a experimentar novas sensações, novos sentimentos, e novos prazeres, que são proporcionados nessa fase da vida, na qual o indivíduo está inserido e, consequentemente o sujeito é posto a se adaptar a esse novo momento.

Vivenciar a velhice é conviver com mudanças tanto físicas, psicológicas, sociais e comportamentais. Na vida sexual há algumas mudanças: no homem há a chegada da andropausa, diminuição de hormônios responsáveis pelo apetite sexual; a ereção do órgão sexual torna-se mais dependente do estímulo táctil; e o tempo Retrário (tempo necessário para que o homem relaxe e possa reiniciar a atividade sexual novamente) torna-se maior, dentre outras mudanças.

Quanto às mulheres há a chegada da menopausa, sendo que esta assinala o fim da capacidade reprodutora, o que não implica na impossibilidade de desenvolver a sexualidade; nossos desejos não se acabam, apenas se modificam. Além da menopausa, há também uma menor lubrificação vaginal, uma maior sensibilidade no gozo, uma dificuldade de excitação dentre outras alterações.

Sexualidade na Velhice: a busca pelo prazer

Durante muito tempo a sexualidade foi tratada como tabu na sociedade, devido, em grande parte, pela ignorância que os indivíduos tinham ao seu respeito. Segundo a definição de Silva (2006, p. 30):

“a sexualidade é uma dimensão humana que acompanha a pessoa desde o nascimento até a sua morte (...) tem um sentido muito maior do que apenas a sua função reprodutiva e, por isso, não se limita à fase da vida em que a procriação é mais adequada (...) além de ser fonte de prazer, de bem-estar físico e psicológico, de troca, de comunicação e de afeto, a sexualidade estabelece relações entre as pessoas e faz parte do seu desenvolvimento e da sua cultura.”

Em virtude desta concepção, o que se percebe é que a sexualidade vai muito além do véu de ilusões perpassados pelos antepassados, no qual a mesma era apenas relacionada ao coito e a reprodução. Hoje ela é compreendida e expressa pelo simples fato de dançar, conhecer, experimentar, e aventurar-se em algo que propicie prazer.

Toda essa premissa de mudanças as quais o ser humano é exposto durante a Velhice, muitas vezes acarreta em concepções que privam o sujeito de vivenciar a sua sexualidade de forma saudável e prazerosa.

A sexualidade na Velhice ainda é norteada frequentemente por velhos estereótipos, com singulares significados, que acarretam em reforçar as controversas concepções que a sociedade defende.

 Para Almeida e Lorenço (2008, p.02)

(...) a sociedade muitas vezes classifica esse período da vida como de assexualidade e, até mesmo, de androginia. Dessa forma, nesse período o indivíduo teria de unicamente assumir o papel de avô, ou de avó, ao lhe ser delegado pelos filhos o cuidado de seus netos, na expectativa de os monitorarem enquanto, concomitantemente realizam atividades como fazer tricô e assistir televisão, usufruindo sua aposentadoria (...)

Nesse contexto, percebe-se que grande parte da sociedade acredita que na vida o sujeito vive e atua em função de um determinado objetivo e quando ele é alcançado não há mais nada a fazer, tornando-se seres improdutivos, incapazes de vivenciar a sua sexualidade.

A união dos estereótipos (o idoso, analogamente à criança, é analisado por uma perspectiva assexuada, sem quereres, sem desejos, sem sentimentos, sem fantasias e sem expectativas) com a falta de informação, induzem a atitudes pessimistas em tudo o que se refere à sexualidade na velhice.

Na realidade, muitos indivíduos acreditam na idéia de que o idoso não sente prazer em namorar, pois os mesmos dimensionam a sexualidade apenas para a genitalidade e o sexo, esquecendo que a sexualidade ultrapassa essa concepção e cria laços de companheirismos, afetividade, troca de experiências, conjunto de sentimentos.

A sexualidade se expressa de diferentes formas nas múltiplas etapas do ciclo vital, assim afirma Almeida e Lourenço (2008, p.03) “para algumas pessoas com a progressão da idade há uma concomitante anulação do desejo sexual, ao passo que, para outras, há apenas uma modificação neste.”

Contudo, é necessário mencionar que todo esse legado de conhecimento, muitas vezes, é fruto de concepções que o ser humano herdou dos seus antepassados como afirma Almeida e Lourenço (2008, p.04):

(...) Derivam dessa relação o modo como as pessoas foram educadas, as repressões vivenciadas por elas ao longo de sua vida, os apelos da família e da sociedade, que contribuem para gerar pessoas medrosas, inseguras quanto aos seus próprios desejos e atitudes, sobretudo no que diz respeito ao domínio afetivo-sexual. Isso gera um círculo vicioso de pais que transmitem tais padrões morais, éticos e religiosos aos seus descendentes e assim sucessivamente formam pessoas com um pensamento cada vez mais homogêneo (...)

O Amor no Entardecer da Vida

Segundo Capodieci (2000, p. 231) “na idade avançada ama-se de maneira mais profunda, consegue-se purificar o amor da paixão que é mais sensual do que genital. Assim para eles um olhar ou uma carícia podem valer mais do que muitas declarações de amor.” Durante a velhice a vivência da sexualidade ocorre de uma maneira mais profunda, pois os conceitos e valores defendidos nesse momento são outros, o indivíduo norteado de experiências antepassadas envolve-se num relacionamento com maior maturidade, responsabilidade e, os desejos, que o mesmo possui pelo parceiro, são sentimentos mais verdadeiros, puros.

Apesar da sexualidade está presente em todos os momentos do ciclo vital, a sua vivência muda de acordo com a fase, tendo características próprias de cada uma delas; na velhice as relações amorosas passam por momentos diversos, pois há o momento do encanto, do enamoramento, do conhecimento, e da amizade profunda.

O idoso na verdade, anseia mais por uma companhia, na qual possa dividir as suas alegrias, as suas tristezas, vivenciar as suas aventuras, sentir emoções junto de alguém que gosta e não apenas curtir alguns instantes com alguém onde o sexo é o centro da relação. A Sexualidade não se resume ao coito, há uma série de outras formas de expressá-la. Para o idoso a relação é prazerosa quando há uma troca de experiências, sabedorias, histórias, desejos, sorrisos, lágrimas, além de vários outros sentimentos.

Na velhice o amor concentra todas as emoções e cognições, que o indivíduo sente pela companhia do outro, assim, o que se percebe é que nessa fase do ciclo vital há uma recriação dos conceitos e sentimentos, que os mesmos sentem, vivenciando-os de forma mais profunda.  Almeida e Lourenço (2008, p.06) acreditam que “(...) o amor é uma coisa tão eterna na vida das pessoas que pode ser descoberto e vivenciado em qualquer idade. Felizmente não é atribuído apenas na juventude, pois os sentimentos e desejos não têm idade para se manifestar (...)”

Então, o que se percebe é que a sexualidade na velhice dimensiona-se para o campo psicoafetivo do sujeito. Segundo Vasconcelos (1994) o sucesso conjugal na velhice está ligado à intimidade, à companhia e a capacidade de expressar sentimentos verdadeiros um para o outro, num contexto de segurança, carinho e reciprocidade, podendo representar uma oportunidade de expressar afeto, admiração e amor, revelando a confirmação de um corpo funcional, aliado ao prazer de tocar e ser tocado, defendendo assim, a ideia de que na velhice, diferente do que muitos indivíduos acreditam, o idoso pode sim ser amado, vivenciar a sua sexualidade, os seus desejos e sentimentos de forma saudável, uma vez que na contemporaneidade já existem mecanismos como citrato de sildenafil (Viagra), cirurgia de prótese peniana, dentre outros mecanismos, os quais auxiliam na reposição de alguns recursos que o corpo perde, ao longo do ciclo vital, proporcionando deste modo, o desenvolvimento da sexualidade nessa fase.

Para Baltes (1987, apud Neri, 2006, p.25): “graças à ação de mecanismos de seleção, otimização e compensação, no âmbito individual ou cultural, os mais velhos não mostram necessariamente declínio no desempenho de certas tarefas normalmente desempenhadas pelos jovens (...)”.

Considerações Finais

A sexualidade sempre esteve norteada por tabus, principalmente quando se diz respeito a sexualidade dos idosos, pois, principalmente nos antepassados, esta fase era igualada a conceitos de entrega ao ócio, inércia, acomodação, lamentação, e assexualidade. Assim, não se pode negar que alguns indivíduos ainda persistem nessas concepções, no entanto, os tempos mudaram, a sexualidade do ser humano é uma realidade inata em sua vida.

A necessidade de ter alguém ao seu lado, dividindo momentos bons, compartilhando emoções está presente em todo o ciclo vital. De fato, com o passar do tempo, o corpo muda, algumas dependências surgem, porém essas não devem ser consideradas como empecilhos para vivenciar a sexualidade de forma prazerosa, uma vez que ela se molda a cada etapa, são novas sensações, novos desejos.

Vale salientar que a sociedade precisa retirar a tenda dos olhos e começar a enxergar que o ser humano, principalmente na velhice, precisa de afeto, carinho, companhia, e que todo esse conjunto de estereótipos que envolvem essa fase da vida implica no desenvolvimento da baixa auto-estima, do medo e da solidão.

Afirma Almeida e Lourenço (2008, p.08):

É importante abandonarmos posturas derrotistas e reeducarmos a nossa visão, aprendendo, definitivamente, que o amor não acaba com o passar dos anos, pois não existe “aposentadoria” para ele e, concomitantemente, para a vivência de uma sexualidade em idade avançada.

O amor e a sexualidade na velhice significam muito mais do que a sociedade possa imaginar. É o momento da auto-afirmação de si, de seu corpo, do bom humor e da melhor qualidade de vida, momento no qual possa ser possível significar e ressignificar os diversos sentidos da vida.

Sobre o Autor:

Sarah Mabell Rios - Acadêmica do Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades, com área de concentração em Subjetividade e Comportamento Humano, da Universidade Federal da Bahia. 2012.1

SReferências:

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