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A psicologia surgiu como uma disciplina específica na Alemanha na segunda metade do século XIX. Atribui-se geralmente a Wundt o título de fundador da psicologia como ciência experimental.

A primeira edição do livro-texto de Wundt Grundüge der Phisiologische Psychologie (Fundamentos da Psicologia Física) foi publicado em 1873. Em 1879 ele criou um laboratório¹ de psicologia em Leipzing. Em 1881 lançou uma revista de pesquisa Philosophische Studien.

 

Entre 1900 e 1920 Wundt também escreveu dez volumes de Psicologia Social (sua Völkerpychologie).

Wundt é entre os “fundadores” da psicologia o autor que mais sofreu distorção de suas idéias na literatura psicológica.

Wundt é antes de tudo um filósofo, que formulou um sistema de filosofia, uma teoria do conhecimento, uma ética e uma metafísica. Sem uma adequada compreensão de seus escritos filosóficos, os problemas relativos à interpretação de sua psicologia não poderão ser satisfatoriamente resolvidos. (Araújo, 2005).

Em 1862 Wundt se colocou três tarefas para sua vida, a criação de: (a) uma psicologia experimental; (b) uma metafísica² científica; e (c) uma psicologia social.

Wundt tinha 69 anos de idade quando publicou o primeiro dos dez volumes de sua Völkerpsychologie. Terminou seu último volume em 1920 e, como boa medida, acrescentou uma breve autobiografia e então morreu, duas semanas depois. Calcula-se que ele tenha escrito mais de 54 mil páginas durante sua vida. (Farr, 2004)

O segundo objetivo de Wundt, elaborado entre 1880 até 1900, era a criação de uma metafísica ou filosofia científica. Aqui, Wundt elaborou três obras que compõem sua metafísica científica: uma de Lógica (conjunto de estudos que visam determinar quais são os processos intelectuais ou as categorias racionais para a apreensão do conhecimento); uma Ética (conjunto de estudos dos juízos de apreciação da conduta humana); e uma de Sistemas Filosóficos (conjunto de estudos das principais concepções filosóficas para Wundt). (Bernardes, 1998)

A universidade moderna e a pesquisa

Hulbolt criou a universidade moderna quando restabeleceu a Universidade de Berlim em 1809. O elemento novo da universidade moderna foi a pesquisa (a wissenschaft).

Embora a wissenschaft separe a forma moderna da forma medieval de universidade, havia muita discussão entre os círculos acadêmicos na Alemanha a respeito de formas rivais de wissenschaft. A discussão mais aceita era entre as naturwissenschaften e as geisteswissenschaften. O que corresponde, de maneira superficial, a distinção entre ciências naturais, de um lado, e ciências humanas e sociais, do outro. (Farr, 2004)

Essa distinção é muito importante, pois levou Wundt a separar sua psicologia experimental (parte das naturwissenschaften) de sua psicologia social (parte das geisteswissenschaften).

Psicologia, para Wundt, era apenas em parte um ramo das ciências naturais. Ele percebeu que seria possível resolver experimentalmente certos problemas específicos dentro da filosofia. Esse projeto, estreitamente limitado, contudo, necessitava ser suplementado por uma forma de geisteswissenschaften.

O repúdio positivista a Wundt

A crença de Wundt de que a ciência experimental que ele criara em Leipzing era um projeto limitado, como demonstra Farr (2004), conduziu a seu repúdio pela geração mais jovem de psicólogos experimentais. Não podiam perdoar o fundador da sua disciplina por ter afirmado que a psicologia era apenas em parte um ramo das ciências naturais. Wundt afirmava que não era possível estudar os processos mentais mais profundos de maneira experimental.

Começou um movimento no sentido de provar que Wundt estava errado: Külpe, em Würzburg, estudando o pensamento sem imagem e Ebbinghaus, em Berlim, estudando a memória.

Para a geração mais nova de experimentalistas, especialmente Külpe e Ebbinghaus, o organismo substituiu a psique como foco de atenção. A substituição da psique pelo organismo, segundo Farr (2004) foi um passo preliminar importante no processo de considerar a psicologia como um ramo das ciências naturais. Esse fato marca também a transição da filosofia para a biologia como a disciplina-mãe para a psicologia.

Nos Estados Unidos, Watson proclamou que a psicologia era totalmente um ramo das ciências naturais ao declará-la como ciência do comportamento.

A visibilidade do indivíduo e das diferenças entre os indivíduos fez com que fosse mais fácil estudar esse último. (...) Wundt, em sua ciência experimental estava interessado pela mente em geral, e não pelas mentes em particular.” (Farr, 2004, pág. 41)

A psicologia de Wundt

Para Wundt a psicologia era uma ciência intermediária entre as ciências da natureza e as ciências da cultura.

O objeto da psicologia é, para Wundt, a experiência imediata dos sujeitos, embora ele não estivesse interessado, primordialmente, nas diferenças individuais entre esses sujeitos. Experiência imediata é a experiência tal como o sujeito a vive antes de se por a pensar sobre ela, antes de comunica-la, antes de “conhecê-la”. É, em outras palavras, a experiência tal como se dá. Contudo, Wundt não reduz a tarefa da psicologia à descrição dessa experiência subjetiva. (Figueiredo e Santi, 2004)

Por meio da análise dos fenômenos culturais, segundo Wundt, manifestam-se os processos superiores da vida mental – como o pensamento, a imaginação, etc.

A psicologia social de Wundt não usa o método experimental, mas métodos comparativos da antropologia e da filosofia, e seu objetivo é a investigação dos processos de síntese, por que para Wundt a experiência imediata não é nem uma coisa desorganizada nem uma mera combinação mecânica de elementos: a experiência imediata seria o resultado de processos de síntese criativa, em que a subjetividade se manifesta como vontade, como capacidade de criação. (Figueiredo e Santi, 2004)

Para Wundt a experiência podia ser concebida e elaborada cientificamente por dois aspectos: toda experiência pode ser analisa pelo seu conteúdo objetivo (experiência mediata) ou subjetivo (experiência imediata).

O método da psicologia

O objeto da psicologia é o mesmo das ciências naturais, é a mesma experiência sob um outro ponto de vista. A psicologia vai então servir-se dos métodos das ciências naturais: o experimento e a observação. O experimento consiste na interferência proposital do pesquisador sobre o início, a duração e o modo de apresentação dos fenômenos investigados. A observação refere-se à apreensão de fenômenos e objetos, sem que haja qualquer interferência por parte do observador. (Araújo, 2004)

Esses dois métodos de investigação darão origem a duas formas complementares de estudo psicológico: o experimento, que a psicologia individual/fisiológica utiliza na análise de processos psíquicos mais simples; e a observação dos produtos mentais, através da qual a psicologia dos povos investiga os processos psíquicos superiores. (Araújo, 2004)

Os objetos de estudo da Volkerpsychologie de Wundt eram a linguagem, a religião, os costumes, os mitos, a magia e fenômenos semelhantes. Segundo Wundt esses fenômenos surgem da “recíproca interação entre muitos” e não poderiam ser explicados em termos da consciência do indivíduo, que era a base do seu laboratório científico. A psicologia continuava a ser a ciência da mente, mas na Völkerpsychologie Wundt analisou a mente em suas manifestações externas, em termos de cultura.

Wundt não pensava ser possível estudar, através da introspecção, fenômenos tão profundamente mentais como o pensamento. Era apenas possível, através do laboratório, estudar processos sensoriais básicos. Isso porque a mente não pode voltar-se sobre si mesma e estudar aquilo de que ela mesma é produto. Estudar a relação entre linguagem e pensamento, por exemplo, era, para Wundt, parte de sua Völkerpsychologie. (Farr, 2004).

Para Wundt, a introspecção era uma forma de percepção interna. Quando o indivíduo é enfocado de dentro é psicologia, quando é enfocado de fora é fisiologia. Contudo ambos compõem o campo da psicologia fisiológica. Os processos generativos implicados na produção de fenômenos mentais coletivos, tais como a linguagem, são interacionais e, consequentemente, sociais. O que, como demonstra Farr (2004), levou Wundt a separar sua psicologia social da psicologia fisiológica. Eram projetos independentes, embora relacionados, o primeiro não poderia ser reduzido ao segundo. “A consciência individual é totalmente incapaz de fornecer a história do pensamento humano, pois ela está condicionada por uma história anterior a respeito da qual ela não pode, por si mesma, dar-nos nenhum conhecimento.“ (Wundt, 1916, pág.3).

Para Wundt, Völkerpsychologierefere-se àqueles produtos mentais que são criados por uma comunidade humana e são, por conseguinte, inexplicáveis em termos meramente de consciência individual, pois eles pressupõem uma ação recíproca de muitos.” (Wundt, 1916, pág.3).

Com Ebbinghaus em Berlim estudando a memória através de suas (specially devised nonsense syllables) sílabas sem sentido criadas especificamente, parecia que processos mentais superiores poderiam ser estudados experimentalmente.

Não há praticamente nenhuma semelhança entre o Wundt histórico e o seu retrato que emerge das narrativas históricas oferecidas em inglês.

Houve muitas pessoas que leram e reagiram à Volkerpsychologie de Wundt. Autores como Boas e Freud. Freud escreveu Totem e Tabu como uma resposta à teoria de Wundt sobre a era totêmica na evolução do ser humano.

Farr (2004) diz que há pouco, ou nenhuma influência de Wundt nas Geisteswissenschaften que possam ser encontradas nas histórias oficiais da psicologia. Para encontrar a influência de Wundt como psicólogo social, é preciso buscar em outras ciências humanas e sociais que são, agora, independentes da psicologia: psicanálise, lingüística, na sociologia americana ou francesa, na antropologia social e cultural inglesa e americana.

É duvidoso que os antecedentes filosóficos da “nova psicologia”, como ela passou a se chamar, foram entendidos pelos que não tinham a língua alemã como língua materna. O instrumental metálico da nova ciência de laboratório era, porém, bem mais fácil de carregar. (Farr, 2004, pág. 58).

Uma das principais idéias psicológicas de Wundt é a de que a vida mental/psíquica desenvolve-se gradualmente e continuamente do simples para o complexo, através de uma série de processos regulares, que constituem nossa experiência psicológica na vida cotidiana. (Araújo, 2004)

Esses elementos psíquicos, que são revelados através de uma análise psicológica, portanto, de uma abstração, constituem a base de toda a vida mental. O conteúdo da experiência imediata varia entre dois pólos, um objetivo e um subjetivo, os elementos podem ser, seguindo essa divisão, de dois tipos: as sensações ligadas ao conteúdo objetivo (luz, som, etc.) e os sentimentos simples relacionados ao conteúdo subjetivo (prazer, desprazer, etc.). (Araújo, 2004)

O próximo passo é a formação dos complexos psíquicos (psychische gebilde). Eles podem assumir quatro formas diferentes: representações, sentimentos, afetos e processos volitivos. As representações têm origem nas sensações e todos os outros complexos psíquicos originam-se a partir dos sentimentos simples.

Para Wundt, os complexos psíquicos, embora sejam compostos de elementos psíquicos, possuem características que não pertencem a nenhum de seus elementos em particular. É a ligação dos elementos que produz essas novas características, que somente pertencem aos complexos como tais.

É a fusão (verschmelzung), que tem como resultado a síntese criadora, que liga os elementos e constitui os complexos psíquicos, enquanto que a associação é um processo secundário, que se refere apenas à ligação de elementos já presentes em diversos compostos. O processo fundador da complexidade psíquica é, pois, a fusão, e não a associação.

Os complexos psíquicos podem ainda se conectar, formando um todo unitário. Essa conexão dos complexos, Wundt denomina consciência. E o processo através do qual um conteúdo psíquico é trazido à clareza da consciência é chamado de apercepção. Mas possível aprender conteúdos sem a presença da atenção, nisso consiste exatamente a percepção (perception).

Araújo (2005) destaca que Wundt é eleito o fundador da psicologia científica não apenas pela fundação do laboratório em sim, mas sim daquilo que passou a representar a partir de então. O laboratório de Leipzig atraiu estudantes de várias partes do mundo e tornou-se o primeiro e maior centro de formação de toda uma geração de psicólogos. Foi o seu sucesso que impulsionou a institucionalização formal da psicologia, quando em 1883, o Instituto de Psicologia teve sua existência oficialmente reconhecida pela Universidade de Leipzig e passou a ser incluído no orçamento universitário. Mas até meados do século XX a psicologia continuou subordinada à faculdade de Filosofia nas Universidades alemãs.

Veja mais em: Wundt (biografia)

Veja mais sobre: História da Psicologia

Veja mais sobre: Titchener e a Psicologia nos EUA 

Nota de rodapé:

Laboratório¹ - O Laboratório de Psicologia em 1879 era bastante precário e consistia apenas em uma pequena sala, anteriormente utilizada como auditório, que foi doada a Wundt. Aos poucos, ele foi adicionando novas salas ao Laboratório, o que levou o espaço a adquirir feições de um Instituto propriamente dito. Posteriormente o Instituto mudou-se para um prédio próprio, construído segundo as especificações de Wundt, que se tornou modelo para os demais laboratórios de psicologia na época, até ser totalmente destruído durante a Segunda Guerra Mundial. (Araújo, 2005)

Metafísica² - A criação de uma metafísica científica, perante o pensamento positivista, é um retrocesso no desenvolvimento do pensamento científico. De acordo com August Comte, o formulador do pensamento positivista, existem três estágios no desenvolvimento do conhecimento para atingir à verdade: toda forma de conhecimento origina-se da Teologia, a partir daí, o conhecimento se aprimora e se acumula, transformando-se em Metafísica, e por processos de acúmulo e aprimoramento chega-se ao estágio positivo ou científico.

Referências

Araújo, Saulo de Freitas. Wilhelm Wundt e o Estudo da Experiência Imediata. In: Jacó-Vilela, A. M.; Ferreira, A. A. L.; Portugal, F. T. (orgs). História da Psicologia: rumos e percursos. Rio de Janeiro: NAU editora, 2005.

Farr, Robert. As Raízes da Psicologia Social Moderna. Petrópolis: vozes, 2004.

Bernardes, Jefferson de Sousa. História. In: Strey, M. N. Psicologia Social Contemporânea: livro-texto. Petrólis: Vozes, 1998.

Figueiredo, Luis Cláudio e Santi, Pedro Luiz Ribeiro. Psicologia: uma (nova) introdução. Sao Paulo: EDUC, 2004.

Wundt, W. Elements of Folk Psychology: outlines of a Psychological history of development of markind. Londres: George Allen and Undwin, 1916.