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Resumo: O objetivo deste estudo é investigar as relações entre a dinâmica familiar e o comportamento anti-social de 12 crianças de uma escola da rede pública municipal de uma cidade do interior do Estado de Rondônia. Utilizando-se de instrumentos que avaliam as práticas educativas usadas pelos pais para com os filhos e a percepção da criança frente ao suporte familiar recebido, o trabalho busca analisar a influência da família no comportamento da criança. Os resultados gerais encontrados apontam para uma correlação entre o comportamento agressivo destas crianças e o ambiente familiar ao qual fazem parte. Assim, o estudo conclui que estas famílias por meio de sua constelação e de suas práticas educativas configuram-se como espaço gerador de modelos agressivos. As considerações finais sinalizam a necessidade de futuros estudos para expandir a compreensão do comportamento agressivo e sua relação com a violência familiar.

Palavras-Chave: Comportamento agressivo; violência familiar; criança; estilos parentais; práticas educativas.

The Influence Of The Family In The Acquisition Of Aggressive Models By The Children.

Abstract: This study aimed to investigate the relationship between the family dynamics and anti-social behavior of twelve children at a municipal public school network in a provincial city of Rondônia. Using instruments that evaluate the educational practices used by parents with their children and the child`s perception facing the family support, the study sought to analyze the influence of the family on the behavior of the child. The results point towards a general correlation between the aggressive behavior of these children and their family environment which the children belongs. Thus, the study concludes that these families through their behavior and their educational practices are configured as a generator of an aggressive environment models. Final considerations point to the need for further research to expand understanding of aggressive behavior and its relationship with family violence. Keywords: Aggressive behavior, family violence; child, parenting styles, educational practices.

Introdução

Nas definições antropológicas, o foco de interesse do estudo acerca das famílias consiste na estrutura das suas relações Berenstein (1988), ou seja, no grau e na natureza do parentesco. De acordo com o autor, a estrutura elementar de parentesco inclui três tipos de vínculos: o consanguíneo (entre irmãos), de aliança (marido e esposa) e de filiação (pais e filhos). Para Antoni & Koller (2000), o grupo familiar tem sua definição psicológica como um conjunto de relações. Desta forma, a família pode ser vista como totalidade, sistema ou grupo formado por pessoas que se relacionam entre si, por parentesco e/ou por se considerarem pertencentes àquele contexto.

Assim, o objetivo deste estudo é abordar os principais aspectos referentes ao comportamento da família frente às condutas agressivas da criança, enfatizando a importância da interação parental e as práticas educativas utilizadas como modelos pelos pais sobre o desenvolvimento comportamental da criança, privilegiando uma perspectiva essencialmente psicológica. Num primeiro momento, discutem-se as consequências negativas da violência vivida na família sobre o desenvolvimento biopsicossocial da criança. Em seguida, apresentam-se alguns estudos que fundamenta a influência da família na aquisição de modelos agressivos pelas crianças, tal como Bandura (2008) que define que o comportamento agressivo da criança é resultado da agressão modelada e reforçada pela família. Partindo dessa premissa, entende-se que a pesquisa sobre agressividade no contexto familiar é importante, pois dá maior visibilidade sobre a questão e fornece melhores informações.

Considerando que a agressão vivenciada no âmbito familiar pode interferir no comportamento da criança, Lisboa & Koller, (2001) assina que a escola é um exemplo de microssistema ecológico no qual a agressividade prejudica o desempenho acadêmico e o estabelecimento de relações saudáveis e próximas. Assim, entende-se que uma das possíveis soluções para a redução da agressividade da criança no espaço escolar consiste em entender o seu próprio universo.

1. A Violência No Ambiente Familiar

Por ser o primeiro sistema no qual o individuo interage, a família consiste num micro-sistema onde cada membro tem uma posição e um papel socialmente definido, que reflete sua organização estrutural e funcional Gomes et al 2007. O que nos remete que a família é responsável pela sobrevivência física e psíquica da criança. Porém, nem sempre essa imagem de proteção cumpre sua função. O interior da família, lugar mitificado em sua função de cuidado e proteção, pode ser palco de muitas violências.

O fenômeno da violência familiar é, infelizmente, universal, favorecendo condições de riscos psicossociais para a família. Como afirma Milani & Loureiro (2008), a violência no contexto familiar constitui um fenômeno complexo, que envolve questões como a desigualdade social e prejuízos na qualidade de vida que atingem as famílias com comprometimento nas relações intrafamiliares e é evidenciado pelo abuso de poder.

Existem várias definições de violência familiar. Para Koller (1999), todo ato de violência tem em comum o fato de ser caracterizado por ações e, ou omissões que podem cessar, impedir, deter ou retardar o desenvolvimento pleno dos seres humanos”. De acordo com a autora existem três papéis no ato da violência, que podem ser confundidos, mesclados ou não: o papel de vítima, o de autor e o de testemunha. Considerando que todo ato de violência é sempre evidenciado pelo abuso de poder, Eisenstein & Souza (1993), afirmam que a violência pode ser observada como toda ação danosa à vida e à saúde do indivíduo, caracterizada por maus-tratos, cerceamento da liberdade ou imposição da força. Ou seja, a criança, por sua maior vulnerabilidade e dependência, se torna vítima freqüente de atos abusivos.

Corroborando esta afirmação Bock, Furtado & Teixeira (2002) postulam que a família, é, em muitos casos, um mito, pois muitas crianças sofrem ali suas primeiras experiências de violência: a tortura psicológica, a agressão física, o abuso sexual entre outras menos visíveis, porém tão danosa quanto. A violência da qual a criança pode ser vítima, ocorre de duas maneiras, como define Brancalhone (2003): a criança como parte integrante da família, pode estar exposta à agressão direta - quando ela é o alvo da agressão - ou indireta - quando presencia cenas de violência entre os pais.

A violência familiar é um problema social grave que atinge toda a população e precisa ser estudada sob múltiplos enfoques. Para alguns pesquisadores é possível inferir que as várias modalidades de violência ocorridas no ambiente familiar podem ser responsáveis por grande parte dos atos violentos. Ou seja, a violência familiar tem sido associada com agressividade infantil e delinqüência. Bandura (2008) assina que no caso de respostas agressivas as crianças imitam o tipo de relacionamento mantido com o modelo adulto e que a mera observação de modelos agressivos parece ser condição suficiente para produzir respostas imitativas de agressão. Ou seja, a observação de atos agressivos na família pode ser imitada pela criança no seu cotidiano.

O comportamento agressivo é definido como toda ação que causa ou implica danos ou prejuízos a alguém e é expresso de forma confrontativa e/ou não-confrontativa. (Lisboa & Koller, 2001). Crianças agressivas expressam suas dificuldades de interação e adaptação através de seus comportamentos.

De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV-TR), o comportamento agressivo encontra-se, inserido no quadro de transtornos de conduta, que é caracterizado por um padrão persistente de comportamento que viola os direitos básicos dos outros e as normas ou regras sociais importantes e apropriadas à idade (American Psychiatric Association, 2003). Estudo realizado por Corrêa e Williams (2000), sobre o impacto da violência conjugal na saúde mental das crianças, concluiu que havia altos índices de depressão, agressividade, isolamento e baixa autoestima em crianças que presenciaram atos violentos entre os pais.

1.1. A Agressividade Aprendida Através Da Modelação

Assim como a violência, os conceitos de agressão e agressividade envolvem múltiplos enfoques e direcionamentos. Stith (1993) citado por Meneghel, Giugliani & Falceto (1998), assina que, a agressividade entre crianças e adolescentes parece estar aumentando, porém este comportamento pode ser resultado de uma conduta menos repressiva em relação a este fenômeno. Por outro lado, as crianças podem estar mais agressivas como resposta à violência estrutural da sociedade.

A teoria social da aprendizagem (Bandura, 1973) é de grande importância para a compreensão da agressividade humana na medida em que focaliza o papel do ambiente social na aquisição, manutenção e modificação das respostas agressivas. De acordo com Bandura, Azzi, Polydoro & cols, (2008), as principais fontes de estilos de comportamento agressivo na sociedade moderna são a agressão modelada e reforçada pela família, onde o sujeito: 1. Aprende um estilo de conduta agressivo; 2. Alteram suas restrições sobre comportamento agressivo; 3. Torna-se insensível e habituado com a violência. Ou seja, a agressividade aprendida através da modelação. Bandura (2008) postula que quando adquirimos novos comportamentos em decorrência da imitação de pautas de conduta a partir de modelos, falamos em modelação. Assim, entende por modelação: o processo de aquisição de comportamentos a partir de modelos seja este programado ou incidental. Também se nomeia como modelação a técnica de modificação de comportamento com o uso de modelos. (Bandura, 1965a, 1972, 2008).

Quando os pais ferem-se mutuamente, a ansiedade dos filhos é esmagadora, eles podem desenvolver um padrão crescentemente agressivo em suas relações familiares, escolares e sociais (Wolff, 1985 apud Meneghel, Giugliani & Falceto1998).

Para (Bandura & Huston 1961, Bandura, Azzi, Polydoro & cols, 2008), a maior parte do repertório de socialização do indivíduo é adquirida por meio da “identificação com adultos significativos na vida da criança”. Ainda de acordo com o autor, pesquisas evidenciaram que a exposição a modelos agressivos pode: a) aumentar a probabilidade de imitação de comportamento agressivo; b) aumentar a imitação de respostas verbais não agressivas, emitidas pelo modelo agressivo; c) levar à imitação do comportamento agressivo, mesmo na ausência de desempenho durante a observação, sem reforçamento adicional do observador, e mesmo quando o modelo não fora reforçado ao exibir as respostas agressivas.

2. Método/Amostra

Verificando a possibilidade de responder às questões propostas foram utilizadas abordagens quantitativas e qualitativas como caminho para a realização da pesquisa.  Os sujeitos participantes desse estudo foram doze crianças sendo nove do sexo masculino e três do sexo feminino com idade entre nove e quatorze anos. Todos matriculados no quarto ano das séries iniciais de uma escola da rede pública municipal do interior do Estado de Rondônia.

De acordo com Gil (2008), o método comparativo procede pela investigação de indivíduos, classes, fenômenos ou fatos, com vistas a ressaltar as diferenças e similaridade entre eles. Seguindo este parâmetro os sujeitos que fizeram parte deste estudo foram avaliados de acordo com seu nível de agressividade.

3. Instrumento

Para a coleta dos dados foi utilizada a Escala de Percepção por Professores dos Comportamentos Agressivos de Crianças na Escola (Lisboa & Koller, 2001).  A escala é constituída de 41 itens que avaliam o comportamento da criança, medindo sua agressividade na escola. Cada item representa uma afirmação, sendo que a resposta deve ser dada pelo professor em uma escala do tipo Likert de 5 pontos - onde 1 corresponde a discordo totalmente, e 5 corresponde à resposta concordo totalmente.

Utilizou-se também uma entrevista semi-estruturada com as famílias para levantamento de dados contendo itens de caracterização (perfil sócio-demográfico: sexo, classe social, idade, bairro), relacionamento e dinâmica familiar.

Após a entrevista foi aplicado o Inventário de Estilos Parentais (IEP). O objetivo deste instrumento é estudar a maneira utilizada pelos pais na educação de seus filhos. O Inventário de Estilos Parentais (IEP) é composto por 42 questões que correspondem ás setes práticas educativas, cinco delas vinculada ao desenvolvimento do comportamento anti-social: negligência, abuso físico, disciplina relaxada, punição inconsistente e monitoria negativa, e duas que promovem comportamentos pró - sociais: monitoramento positivo e comportamento moral. Cada questão consta de uma frase à qual o respondente deve indicar a frequência com que a figura materna/paterna age.

E para finalizar aplicou-se o Inventário de Percepção de Suporte Familiar – IPSF. O instrumento é constituído de 42 questões distribuídas em três fatores sendo eles:

  • Afetivo-Consistente: esse fator contém vinte e um itens e evidencia as relações afetivas positivas intrafamiliares, desde o interesse pelo outro, até a expressão verbal e não-verbal de carinho, clareza nos papéis e regras dos integrantes da família, bem como habilidade nas estratégias de enfrentamento de situações-problema;
  • Adaptação Familiar: esse fator é composto de treze itens que expressam sentimentos negativos em relação à família, como isolamento, exclusão, raiva, vergonha, relações agressivas de brigas e gritos, irritação, incompreensão, e ainda percepção de relações de competição na família, interesse e culpabilidade entre os membros em situações de conflitos;
  • Autonomia Familiar: Composto por oito itens demonstra a percepção de autonomia que a criança tem de sua família, o que denota relações de confiança, privacidade e liberdade entre os membros da família. O Inventário de Percepção de Suporte Familiar – IPSF tem como objetivo avaliar as características da família, bem como os tipos de suporte existentes.

4. Procedimento E Coleta De Dados

Em um primeiro momento foi feito contato com a direção da escola para a apresentação do projeto, dos objetivos do estudo e a solicitação da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para a participação dos professores na pesquisa. Após a aceitação os professores receberam uma breve instrução sobre como preencher o instrumento a ser utilizado por eles: a “Escala de Percepção por Professores dos Comportamentos Agressivos de Criança na Escola” (Lisboa & Koller, 2001). Para a aplicação da escala foi extraído uma amostragem aleatória de trinta e três alunos de um total de cento e trinta e nove, sendo vinte e dois do sexo masculino e onze do sexo feminino. Os dados foram coletados no período entre março à maio de 2010. Com base nos dados fornecidos pelo instrumento, foram analisados os resultados e a partir destes formou-se o grupo para o estudo.

Para análise da pontuação da Escala de Percepção por Professores dos Comportamentos agressivos de Crianças na Escola (Lisboa & Koller, 2001), utilizou-se o critério usado por (Maldonado & Williams, 2005): foram computados os pontos negativos (referente a comportamentos agressivos), sendo diminuídos os pontos positivos (referente a comportamentos positivos) da escala. Em seguida, foi calculada a média e o desvio padrão. Após a definição do grupo (dezesseis alunos) a escola forneceu os endereços para o contato com as respectivas famílias.

Em um segundo momento foi feito contato domiciliar com cada família das crianças, onde foi feito o convite para a participação da pesquisa e solicitando o seu Consentimento Livre e Esclarecido por escrito, destas quatro rejeitaram o convite reduzindo o número de participantes a doze sujeitos. Após a assinatura do termo cada família respondeu a uma entrevista semi-estruturada, a qual teve por objetivo a coleta de dados sócio-demográfico.

Para a aplicação do Inventário de Estilos Parentais (IEP) e do Inventário de Percepção de Suporte Familiar – (IPSF), usou-se o seguinte procedimento: a coleta de dados ocorreu de forma coletiva em sala de aula, com duração de aproximadamente quarenta e cinco minutos para a resposta de cada instrumento. Tomou-se o cuidado de se esclarecer o objetivo da pesquisa que era avaliar a as práticas educativas utilizadas pelos pais e a percepção sobre o suporte familiar. Informo-se também a importância da resposta de todos os itens e a não-existência de respostas certas ou erradas. Para análise destes itens foram calculados o coeficiente individual de cada fator encontrando média e desvio padrão e em seguida foi feito uma análise geral de cada instrumento.

5. RESULTADO E DISCUSSÃO

Após o levantamento dos dados, foram analisados os resultados obtidos. Em um primeiro momento foram realizadas análises das características das famílias através dos dados coletados com as crianças, e constatou-se, com base nos testes estatísticos que há prevalência de práticas educativas negativas. A utilização desta tem sido descrita na literatura como prejudicial para o desenvolvimento da criança. Para (Cecconello, De Antoni & Koller, 2003), tal prática contraria, portanto, a Teoria dos Sistemas Ecológicos, pela qual a família deveria ser primordialmente, um sistema no qual as relações são recíprocas e com equilíbrio de poder.

5.1. Estilos Parentais

Quanto ao estilo parental observa-se que 66,6% das mães e 49,9 % dos pais encontram-se na zona de estilo parental de risco. Para Gomide (2006), aconselha-se a este grupo a participação em programas de intervenção terapêutica, em grupo, de casal ou individualmente, especialmente desenvolvidos para pais com dificuldades em práticas educativas nas quais possam ser enfocadas as conseqüências do uso de práticas negativas em detrimento das positivas.

Nota. E P R = Estilo Parental de Risco; E P Ab M = Estilo Parental Abaixo da Média; E P Ac M = Estilo Parental Acima da Média.
Figura 1. Porcentagem média de pontos atribuídos aos estilos parentais quanto às práticas educativas.

Para o grupo que se encontra abaixo da média o índice foi de 33,3% das mães e 25% dos pais, para estes aconselha-se a participação em grupos de treinamento de pais. Quanto aos que estão acima da média foi de 16,6 % para as mães e 8,3 % para os pais. Essa diferença entre as práticas educativas paternas e maternas pode ser justificada pela a ausência da figura paterna em algumas famílias configuradas como famílias monoparentais feminina.

O alto índice de estilos parentais de risco e abaixo da média se deve a predominância das práticas educativas negativas nessas famílias como mostra a figura 02. Dentre essas práticas encontra-se a punição inconsistente a qual obteve o seguinte coeficiente: M=7,1 DP=0,73 para o pai e M=7,6 DP=0,94 para a mãe. Isso demonstra que os pais orientam de acordo com seu humor na hora de punir a criança, interferindo, sobretudo, como assina (Gomide, 1998; 2006) na percepção do indivíduo, prejudicando sua avaliação no que se refere aos efeitos que suas ações têm sobre os outros e sobre o meio. Estudos realizados por Meneghel, Giugliani & Falceto (1998) concluíram que adolescentes punidos tiveram oito vezes mais chance de se tornarem violentos.

Quanto à negligência dos pais com as crianças há certa paridade entre pai e mãe onde se obteve os seguintes coeficientes pai: M=7,2 DP=1,03; mãe: M=7,3 DP=0,90. Esta prática consiste na falta de ações por parte da família perante aos aspectos médicos, educacionais, higiênicos, de supervisão e físicos e abandono por parte dos responsáveis podendo trazer conseqüências físicas e
­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­psicológicas na vida da criança.

Outro fator analisado como subitem das práticas educativas negativa foi o de disciplina relaxada, sendo pai: M=6,4 DP=1,17 e mãe: M=7,1 DP=0,79. Este item refere-se ao não cumprimento das regras estabelecidas. Os pais estabelecem as regras, ameaçam e, quando se confrontam com comportamentos opositores e agressivos dos filhos, abrem mão de seu papel educativo, retirando-se do embate (Gomide, 2003; 2004; 2006).

Nota. P I = Punição Inconsistente; N = Negligência; D R = Disciplina Relaxada; M N = Monitoria Negativa; A F = Abuso Físico.
Figura 02: Média de pontos atribuídos pelas crianças, nas subescalas do IEP.

 

A monitoria negativa caracterizada pela geração de ambiente hostil apresentando coeficientes: M=6,1 DP=0,87 para o pai e M=8,2 DP=0,96 para a mãe. Meneghel, Giugliani & Falceto (1998), afirma que o comportamento agressivo das crianças está articulado com as múltiplas formas de violência, explícitas ou não, que eles vivem no âmbito da família. Para Bandura (1965b; 2008), a teoria da aprendizagem social faz prognóstico de um aumento de respostas agressivas em decorrência do fornecimento de modelos agressivos. Com base nestas afirmações e nos resultados obtidos, podemos inferir que a agressividade apresentada por estas crianças pode ser entendida como imitação de modelos agressivos.

O abuso físico intrafamiliar é multidirecional (Cecconello, De Antoni & Koller, 2003), pois poderá ocorrer entre quaisquer de seus membros, por exemplo: pais e filho (a), irmãos, casal, entre outros. Onde muitas vezes é justificado e compreendido pelos membros familiares como uma prática disciplinar (De Antoni, 2000; Pires, 1999). O abuso físico e psicológico caracteriza-se pela prática dos pais disciplinarem seus filhos através de práticas corporais negativas, ameaças e chantagem de abandono e de humilhação do filho. Para este fator foram atribuídos os seguintes números pai: M= 8,1 DP=0,87 mãe: M=7,9 DP=0,79. Estudos realizados com famílias com história de abuso físico mostram que pais abusivos tendem a desencadear menos situações de interação com seus filhos do que os pais não abusivos (Kashani & Allan, 1998 apud Cecconello at. al 2003). Ainda de acordo com o autor na perspectiva social, o risco de abuso físico intrafamiliar está relacionado ao isolamento social, à falta de uma rede de apoio social e afetivo e aos eventos de vida estressantes, como dificuldades financeiras e desemprego.

5.2. Suporte Familiar

Os resultados também apontam para um baixo escore no que diz respeito à percepção da criança frente ao suporte familiar recebido, ou seja, estas famílias apresentam pouca afetividade entre os membros, dificuldades no processo de adaptação e pouca autonomia familiar.

Tabela 01. Pontuação de itens assinalados por níveis de intensidade em cada fator do IPSF.

A autoestima da criança depende em parte de elogios e críticas dos pais, também depende dos padrões decisórios, de comunicação e da disciplina da família. Observa-se que mesmo nas famílias consideradas com bom suporte familiar o fator autonomia familiar ficou abaixo da média não atingindo o escore mínimo aceitável que é valor 8. Portanto, essas crianças dependem que suas famílias transmitem mais confiança a elas para que se sintam mais seguras, para isso é necessário que seus pais fundamentem seus pedidos com razões, envolvem seus filhos no processo decisório da família, e estimulam a independência gradativa, detendo a responsabilidade final.

6. A Família

Com relação às famílias participantes da pesquisa percebe-se que a relação intrafamiliar é complexa, pois a falta de comunicação, somada à dificuldade para resolver problemas em conjunto são fatores negativos na criação dos seus filhos. Um dos desafios encontrado neste estudo foi a resistência da família em abordar assuntos que diz respeito à convivência entre seus membros e as práticas educativas utilizadas pelos pais para com seus filhos, uma vez que algumas dessas famílias já foram convocadas ao conselho tutelar para darem explicações sobre denúncias de negligências e maus tratos com os filhos. Em algumas dessas famílias foram detectado problemas com alcoolismos, vícios em jogatina e problemas com a justiça. Fatores que também contribuem para a mudança de comportamento intrafamiliares.

Estudos confirmam que crescer em uma família que possui um alcoólatra é sempre um desafio, principalmente quando falamos do contato direto de crianças com esta realidade. Portanto, pode-se inferir que para estas existe maior chance para o desenvolvimento de transtorno de conduta e dificuldades de entrosamento com outros colegas e pessoas da sociedade.

6.1. Configuração Familiar

Quanto à configuração familiar constatou-se que 41,66% das crianças convivem em família nuclear, ou seja, constituída por pai, mãe e irmãos biológicos, 33,33% moram com a mãe e irmãos biológicos e padrasto. Algumas famílias são constituídas apenas com a figura materna como provedora do sustento e educação dos filhos (famílias monoparentais). E isso se torna um agravante a mais já que a mãe precisa ausentar-se durante dia para trabalhar. De acordo com especialistas crianças que ficam muito tempo sozinhas se tornam mais vulneráveis, apresentando incertezas quanto ao futuro e sua estabilidade, apresentando sentimentos de solidão, tristeza, carência afetivas, frustração, revolta, necessidade de atenção por terem perdido o pai e dificuldade de perdoar em função de situações onde houve abandono.

Tabela 02: Dados de escolaridade, Renda Familar e Habitação

A renda familiar das famílias participantes variou entre oitenta reais a dois salários mínimos, ou seja, entre R$ 80,00 a R$ 1040,00 obtendo média de R$ 592,50 por famílias ou renda per capita de R$ 148,12. Vale pontuar que parte dessa renda vem de programas sociais, uma vez que 75% das famílias recebem ajuda de programas assistenciais do governo federal ou doações de instituições não governamentais. Assim, observa que a baixa renda dessas famílias flerta com o baixo nível de instrução de seus responsáveis. Ou seja, quanto maior for o nível de escolaridade do indivíduo maior é sua chance de conseguir emprego e conseqüentemente aumentar sua renda.

Quanto ao número de membros que convivem na mesma casa a média obtida foi de 4,08 membros por família. À ocupação da figura paterna predomina o trabalho autônomo e desempregado, enquanto mãe a realidade é ainda mais grave já que 66,6% encontram-se desempregadas.

Esses números traduzem o grande contraste social em que vivem essas famílias. Onde a realidade não diferente do restante do país em que a distribuição de renda é desigual, ou seja, uma minoria é muito rica, enquanto grande parte da população vive na pobreza e miséria. A falta de oportunidade e o baixo nível de escolaridade traz como consequencia uma renda familiar insuficiente para as necessidades básicas da família.

6.2. Nível De Instrução

Com relação ao nível de escolaridade 10 % dos pais e 41,6% das mães são analfabetos ou semi-analfabetos; 50% dos pais e 16,6% das mães estudaram apenas o primário (séries iniciais); 30 % dos pais e 25% das mães têm o ensino fundamental completo e apenas 10 % dos pais e 16,6 % das mães concluíram o ensino médio. Resultado que confirmam as estatísticas apresentadas, Guimarães (2010) conclui que “os indivíduos que apresentam maior grau de educação possuem maior participação na renda. Sujeitos com mais de 11 anos de estudo, apresentam sempre os maiores retornos na renda”.

6.3. Habitação

No que diz respeito à moradia 33,33% dos participantes do estudo moram em casa de familiares, 50% em casa própria e 16,66% residem em casa alugada como demonstra a tabela 02.

De modo geral observa-se que um conjunto de fatores contribui para que essas crianças se transformem em vítimas, vítimas de um sistema que reprime, discrimina e não oferece oportunidades a elas. Dessa forma, as suas agressões podem ser uma resposta a tudo aquilo que lhe é imposto.

Com relação à família o estudo confirma a hipótese proposta, de que o núcleo familiar ao quais essas crianças estão inseridas configura-se enquanto espaço de geração de comportamentos anti-sociais entre seus membros.

7. Considerações Finais

Os resultados apresentados confirmaram os resultados do estudo comparativo de Maldonado & Williams (2005) sobre os efeitos da violência familiar sobre o comportamento das crianças. Neste os autores concluíram que houve maior incidência de severidade de exposição à violência familiar nas crianças do sexo masculino que apresentaram comportamento agressivo na escola, quando comparadas às crianças do mesmo sexo que não apresentam tal comportamento.

Também evidencia o que a literatura especializada postula, de que as principais fontes de estilos de comportamento agressivo na criança são a agressão modelada e reforçada pela família (Bandura, 2008). Ou seja, o comportamento agressivo apresentado pela criança no contexto escolar pode ser considerado reflexos, reprodução ou até mesmo devolução da violência sofrida no ambiente familiar da qual a criança é a primeira vítima. Onde a maioria está exposta a fatores de risco e parece não apresentar rede protetora suficiente para minimizar esses efeitos.

Nesse sentido faz se necessário, portanto, a reestruturação da família fundamentada em relações mais simétricas entre pais e filhos, que possibilite mudança nos comportamentos não só da criança mais em toda a família. “A tolerância às diferenças, as trocas permitidas, respeitando os limites, e os papéis de cada membro do grupo, representa o forte vínculo que torna a família o sustentáculo emocional do ser humano” (Day at. al 2003).  Todos os esforços que permitam o reforço deste espaço de entendimento irão contribuir para um bom desenvolvimento biopsicossocial da criança.  Bowlby (2002) defende que as crianças necessitam de um ambiente de afeto que lhes favoreça segurança para viabilizar e garantir um desenvolvimento saudável.

Considerando-se os aspectos acima mencionados a respeito da importância da família para o desenvolvimento da criança, bem como a questão do ciclo de vida familiar, pode-se dizer que as experiências vivenciadas pela criança, tanto no contexto familiar quanto em outros ambientes nos quais ela está inserida, contribuem diretamente para a sua formação possibilitando um aprendizado essencial para a sua atuação futura.

Por essas razões, torna-se necessário o investimento em programas de orientação para estes pais e/ou responsáveis com a finalidade de instrumentalizá-los para poderem lidar de forma mais adequada com seus filhos, auxiliando-os a fornecer orientações mais precisas que sirvam de referência para as crianças. Assim, estes, por sua vez, podem ver os pais como modelos positivos ao qual podem recorrer diante das dificuldades de ajustamento que enfrentam.

Embora os resultados apontem para uma correlação entre o comportamento anti-social da criança e o modelo familiar ao qual ela faz parte, vale ressaltar que esse fator não pode ser considerado isolado, uma vez que outras fontes geradoras de violência podem influenciar diretamente na má conduta destas crianças. A precária condição sócio-econômica, o contexto escolar onde muitas vezes o aluno pode usar a agressão como um recurso contra o autoritarismo do professor, o meio social e cultural e o preconceito recebido por elas, são fatores causadores potenciais das agressões em suas vidas, onde a desigualdade social, por si só, já é agressiva, e não oferece oportunidades a estas crianças.

Nesse sentido torna-se importante trazer para discussão e comparação dados de pesquisa com crianças de diferentes classes sociais sobre comportamento agressivo e violência familiar, já que os sujeitos participantes deste estudo fazem parte de uma população imersa em uma série de fatores que colaboram para a ocorrência de violência em maior escala.

Sobre os Autores

Eraldo C. Batista - Acadêmico do curso de psicologia da Faculdade de Rolim de Moura - FAROL

Benedito A. Oliveira - Acadêmico do curso de psicologia da Faculdade de Rolim de Moura - FAROL

Simone L. Pires - Docente do curso de psicologia da Faculdade de Rolim de Moura - FAROL e Doutorando pela Universidade de Ciências Empresariais e Sociais de Buenos Aires-Argentina

Endereço para correspondência:
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