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Resumo: A morte faz parte do desenvolvimento humano, a experiência da perda é um dos eventos mais doloroso que se pode vivenciar, tornando-se mais difícil quando se considera a mãe como figura de referência ou apego. O presente estudo aborda a temática acerca da morte na perspectiva do luto em decorrência da perda materna, tendo como objetivo compreender a vivencia do familiar diante da morte materna, analisando os sentimentos do filho no momento que soube da morte, descrevendo o imaginário do filho em relação ao velório e avaliando como este filho enfrentou o luto diante da perda materna. A pesquisa utilizou-se de um estudo de campo, exploratória, com o método descritivo e com a abordagem qualitativa, obedecendo aos critérios éticos. Participaram dez pessoas adultas clientes de uma Empresa de Serviços Póstumos em Teresina, na qual foram submetidos a uma entrevista semi-estruturada, posteriormente os dados foram coletados e a análise de conteúdos efetivada. Empregou-se as categorias: a representação da figura materna; sentimentos vivenciados no momento que soube da morte materna e no momento do velório; os aspectos psicológicos do filho; o enfrentamento do luto. Os resultados mostraram que o impacto da perda para o filho é influenciado pelo vínculo estabelecido com a genitora. Conclui-se que compreender os aspectos psicológicos vivenciados pelo filho diante da morte materna pode ajudá-lo a encarar e reconhecer sua perda como única, incomparável e incomensurável, em alguns casos se faz necessário o acompanhamento psicoterápico na elaboração do luto, principalmente quando a vivência torna-se prejudicada na ausência da mãe.
Palavras-chave: Morte. Luto. Filho. Perda. Mãe

1 Introdução

A morte faz parte do desenvolvimento humano desde a sua mais tenra idade e acompanha o ser humano no seu ciclo vital, deixando suas marcas. A experiência da perda é considerada principalmente quando se refere à morte, um dos eventos mais estressantes que se pode vivenciar. Ao se propor conhecer os aspectos psicológicos vivenciados pelo filho diante da perda materna, que provoca sofrimento psíquico ao filho e a família; os estudos sobre tanatologia e a psicologia do luto servem como subsidio aos profissionais na elaboração do processo do luto.

Assim a presente produção científica apresentou como temática a morte na perspectiva do luto em decorrência da perda materna, buscando responder o seguinte o problema: Como o filho vivencia o processo da morte materna? E como questões norteadoras: I- Quais os sentimentos do filho ao saber da morte de sua mãe? II- Qual a representação do velório da mãe para o filho? III- Como ocorre o enfretamento do luto diante da morte materna?

A escolha da investigação sobre o tema descrito justificou-se, diante das observações da pesquisadora, realizadas no cotidiano do trabalho em uma Empresa Funerária onde havia a expressão verbal do cliente relacionada ao sofrimento da perda do familiar. Através desta premissa elucidou-se o interesse e motivação em pesquisar os aspectos psicológicos vivenciados pelo filho diante da morte materna, de forma mais aprofundada.

Por se tratar de uma temática com pouca literatura e por ser considerado complexo de se abordar, espera-se que o estudo possa contribuir para amenizar o estigma social em relação à perda materna. E tenha como relevância cientifica contribuir para profissionais da saúde que de acordo com a literatura muitos não estão preparados para lidar com a temática, podendo com isso ampliar e auxiliar o jeito de ser na relação com o outro e incentivar pesquisa e extensão. E como relevância social ajudar a sociedade enfrentar as questões da morte, partindo-se do pressuposto que informação e literatura sobre esse assunto poderão auxiliar para amenizar o “pavor” de falar sobre morte.

A pesquisa teve como objetivo geral a compreensão da vivência do familiar diante da morte de sua mãe. E como objetivos específicos: analisar os sentimentos do filho no momento que soube da morte materna; caracterizar o imaginário do filho em relação ao velório materno; avaliar como o filho enfrenta o luto diante da morte materna.

2 Materiais e Métodos

A pesquisa foi desenvolvida com base em um estudo de abordagem qualitativa, com caráter descritivo e exploratório, sendo classificado também como um estudo de campo. Minayo (2006) afirma que a abordagem qualitativa se concentra ao estudo da historia, das relações, das representações, das crenças, das percepções e das opiniões, resultantes das interpretações que o individuo faze a respeito de como vive, constrói seus artifícios e a si mesmo, sente e pensa.

O estudo foi realizado com clientes de uma Empresa de Serviços Póstumos de Teresina-PI. A participação da pesquisa foi obtida com dez sujeitos adultos e que tem histórico de perda materna após três meses. Teve como critérios de exclusão pessoas menores de 18 anos. Para a coleta de dados foi utilizada entrevista semi-estruturada, neste sentido, foi guiada por relação de perguntas de interesse da entrevistadora, não se limitando a estas.

O projeto de pesquisa foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade Integral Diferencial (FACID), que obedece às normas da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP), responsável pelo cumprimento da Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde. Entretanto, antes do projeto ser submetido ao Comitê de Ética da FACID, a instituição onde foi realizada a pesquisa autorizou a pesquisa, que serviu de cenário para a investigação.

Mediante a aprovação, o pesquisador escolheu os dez participantes clientes de uma Empresa de Serviços Póstumos de Teresina- PI, estes por sua vez assinaram duas vias do Termo de Consentimento Livre Esclarecido (TCLE), consentindo a realização do instrumento de analise de dados que posteriormente foram coletados e analisados, incluindo no termo a permissão na utilização do gravador de voz; o procedimento foi aceito em todo o processo pelos participantes.

3 Resultados e Dicussão

Os dados coletados na pesquisa foram analisados pelo método de análise de conteúdo; que de acordo com as falas obtidas através das respostas no roteiro de entrevista semi-estruturada foram elaboradas as categorias referente à temática, com os dez participantes que tem histórico de perda materna após três meses, com faixa etária de 38 aos 71 anos.

3.1 Representação da Figura Materna

Essa categoria se caracteriza pelo significado atribuído a figura materna, levando em consideração o vínculo estabelecido entre mãe e filho.

Bombly (2004) diz que o primeiro contato social estabelecido, ainda quando bebê é com a mãe, o que se torna uma fonte de segurança e proteção, às vezes perpetuada na vida adulta do filho.

É porque a figura materna é uma coisa assim [...] que a gente se sente bem, segura. (MARIA BEATRIZ, 49 anos)

[...] Mãe é um ser amável com o filho, cuidadosa (MARIA ESCÓCIA, 71 anos)

Foi possível observar nas falas dos participantes, que o vínculo estabelecido com a figura materna, serviu como um suporte no enfrentamento das dificuldades surgidas ao longo do desenvolvimento do filho.

Alem da necessidade de proteção, Freud (1996) coloca que inicialmente o individuo protesta, não aceita a ausência do objeto amado, posteriormente segue como uma atitude de desespero, devido à falta desse objeto e de não ser mais possível o contato com ele, não sabendo conviver com essa privação.

Cardella (1994) afirma que a relação materna tem características diferenciadas da relação fraterna. O pai, geralmente coloca para o filho aspectos relacionado às escolhas, orientação e independências. O que implica que muitas vezes ao fazer suas próprias identificações ocasione na independência dos seus genitores.

Constatou-se nas falas dos participantes abaixo descritos, uma consonância com a literatura no que se refere à relação com os genitores, estendendo-se a fato da ausência do pai e do maior vínculo estabelecido com a figura materna quando comparada a paterna.

Mãe é tudo na vida porque é quem gera, ela é quem dar a vida, cria, acompanha em todo momento, pro filho a mãe é mais presente do que o pai, o pai fica mais do lado da responsabilidade de manter e a mãe de acompanhar, pra mim é isso (MARIA HÉLEN, 53 anos).

Olha uma coisa aqui [...] era melhor eu perder meu pai do que ela gostava mais da minha mãe do que do meu pai sem mentira nenhuma (MARIA CARLA, 45 anos).

É importante frisar que tanto o amor paterno como o materno envolvem abdicação e permuta, onde os mesmos colocam para o filho a possibilidade de fazer as próprias escolhas, construir sua identidade e particularidades, a fim de que quando tornarem-se adultos os vínculos adquiridos não se transforma em dependência. A literatura sobre o luto leva em consideração esse apego (CARDELLA, 1994).

3.2 Sentimentos Vivenciados no Processo da Morte Materna

3.2.1 No momento que soube da morte materna

De acordo com Esslinger (2004) quando o paciente e o familiar sentem que o momento da morte se aproxima, estes podem experienciar de uma intensa angústia denominada de dor total (dor física e dor pelo prenúncio da morte). Entretanto essa dor pode ser multidimensional: dor física, dor psíquica, dor social, dor espiritual.

Ballone (2010) denominou como dormência emocional, o estado que a pessoa fica em poucas horas após o conhecimento da morte, a maioria das pessoas sente uma espécie de confusão emocional, como se fosse incapaz de acreditar que realmente aconteceu. Esse sentimento existe, ainda que em grau geralmente diminuído, mesmo que a morte estivesse sendo esperada. Apesar de fisiológica, essa sensação de irrealidade pode se tornar um problema se durar por muito tempo.

Fiquei desesperada quando minha sobrinha me deu a noticia, desesperada, mas a minha sobrinha tava aqui pra me dá força, eu tava aqui em casa quando ela faleceu, minha sobrinha veio me pegar aqui, quando cheguei no hospital eu queria só ver a minha mãe, só ver ela, fiquei muito triste, triste demais (MARIA BEATRIZ, 49 anos).

Senti desespero [...] desespero, angústia, dor, tristeza [...] (choro) (MARIA GADÚ, 43 anos).

Durante os relatos acima, alguns participantes ficaram emocionados e choraram ao descrever as atitudes tomadas no momento que receberam a noticia do falecimento: angústia, desespero e tristeza.

Quando a morte ocorre no contexto hospitalar após a paciente vivenciar todas as fases (raiva, barganha, depressão e finalmente a aceitação). Geralmente no momento do noticia a reação é de raiva, desespero, sentimento de culpa. O familiar prefere ficar sozinho, andando pelos corredores, como tentativa de fuga no enfrentamento da realidade, sentindo-se impotentes, ficando a cargos de amigos e outros parentes na resolução das questões burocráticas (KUBLER-ROSS, 2007).

A minha prima que subiu com os documentos dela e resolveu os procedimentos funerários, aí pronto o resto o povo tomou de conta ai eu caí, caí assim no sentido de não ter mais reação (MARIA HÉLEN, 53 anos).

Na hora que eu [...] (pausa longa) fiquei [...] apaguei [...] ai eu fiquei normal, mas fiquei nervoso, na hora foi minha esposa que resolveu tudo, na hora eu não resolvia mais nada (JOSÉ ALISON, 53 anos).

O psicólogo hospitalar desempenha o papel humanizado no cuidado ao paciente, no atendimento ao paciente e a sua família, alem de atuar junta a equipe de saúde. A morte faz parte do cotidiano do profissional de saúde. No entanto o despreparo acomete muito esses profissionais que no período de formação da sua graduação é insuficiente a capacitação para essa demanda. Em alguns locais fica na incumbência do psicólogo com uma linguagem mais clara informar sobre a morte da pessoa (HONHERDORF; MELO, 2009).

A médica disse: o quadro da sua mãe é irreversível, continua a mesma coisa, só com a diferença, ultimamente ela vem dando umas paradinhas, ela está parando de vez enquanto. A psicóloga olhou pra mim, olhou pra doutora e falou: incrível não é doutora foi só a filha dela sair que o aparelho dela zerou. A doutora olhou pra mim e disse: você entendeu? Eu disse que havia entendido e que sabia que a minha mãe tinha falecido. A doutora respondeu: ela ainda não faleceu, está parando. Mas eu sabia, ela já tinha falecido, eu me abracei com a psicóloga e chorei. (MARIA HÉLEN, 53 anos).

Os participantes pouco relataram sobre os profissionais de saúde, porem foi importante ressaltar a fala da entrevistada acima da qual corrobora com a literatura, principalmente no que se refere ao suporte no momento da noticia do falecimento.

3.2.2 No momento do velório

O ritual do velório é o momento das ultimas considerações prestada pelo familiar, cada um expressando de maneira particular. É considerado o momento de confronto direto com a realidade da morte e a oportunidade de prestar a ultima homenagem, partilhar sofrimento e receber suporte dos outros (GOMES, 2006).

Aquele momento ali representou o momento da despedida, momento que a gente sabia que era a ultima vez que tava com ela [...] momento de muita tristeza porque a gente tava sabendo que era a ultima vez que tava vendo ela, tava tendo contato com ela apesar de saber que ela não tava mais viva (MARIA FLOR, 60 anos).
Significado do velório dela foi uma coisa natural porque o homem nasce, cresce, reproduz, envelhece e morre e fui uma coisa natural, e eu particularmente senti que ela tava aliviada, porque ela sofreu muito, foram varias internações, então eu vi que ela tava descansando, o sofrimento dela foi grande. É um alivio pelo fato dela ter acabando aquele sofrimento. A partir dali parece que os minutos começaram a contar (JOSÉ BRUNO, 46 anos).

De acordo com essa perspectiva, foi possível encontrar nas falas dos participantes o significado do velório e formas de manifestações dos sentimentos diante da perda. Apontando ainda reações divergentes na representação da morte da mãe para o filho.

Santos (2008) pontua que cada indivíduo percebe a morte de si e do outro, de acordo com as próprias experiências de vida, preocupações éticas, intelectual, religiosas, profissionais, ideológicas e as experiências no ciclo familiar. E por falar em religiosa, é considerada como a melhor forma de enfretamento da perda, pois geralmente propicia mais conforto ao familiar. Acreditam na imortalidade da alma, na crença de que o espírito foi para um lugar melhor, pois, estudos acreditam que ter fé diminui a dor.

Às vezes eu me conforme mais porque eu via muito ela sofrendo, mulher, ela pedia muito a Deus que levasse ela, eu acompanhei todo o sofrimento dela e achei bom por essa parte, que sei que Deus foi quem levou ela, não foi nenhum acidente nem uma pessoa que matou ela, foi Deus. Que ela tava sendo libertada de toda aquela dor que ela sentia, e que ela tava bem (MARIA ANA, 38 anos).
O coração da gente fica doendo, com vontade de chorar e tem hora que não chora, ao mesmo tempo tem conforto, eu chorava muito quando eu não era de Jesus, ai eu chorava me desesperava, ficava toda trosida, e depois que eu sou de Jesus Cristo, Deus conforta a gente, você chora, mas agüenta. Ela não volta mais, ela vai ser vê na frente de Jesus, em nome de Jesus (MARIA DÉBORA, 68 anos).

Foi possível também encontrar no discurso dos participantes, a morte sendo encarada como o melhor para o paciente terminal, portanto algo possível de acontecer segundo a experiência de vida do familiar. E observou-se que os aspectos relacionados à religiosidade trouxeram mais conforto ao familiar e aceitação diante da perda.

No entanto, menciona Erthal (2004) que o desespero é um sentimento bastante presente na vivencia do familiar e surge quando a pessoa reconhece que não existe mais possibilidade para tentar a vida novamente. Uma sensação de impotência e que não existe mais recurso para reparar a situação. Com a impressão, por exemplo, de travar uma luta entre realizações próprias, projetos antes criados pelo pessoa falecida e as limitações que o mundo oferece com a finitude do ser.

Vontade de chorar muito, de gritar, de gritar por ela, de chorar por ela como eu chorava, às vezes eu gritava muito quando eu falava, quando eu chorava, tinha vontade de ir la perto do caixão e pedir: mãe levanta. Vontade de perdir que ela levantasse. Vontade de chorar muito, de gritar, desesperar, de me descontrolar mesmo (choro) (MARIA GADÚ, 43 anos).

Com a fala do participante foi possível observar a presença do sentimento de desespero pelo fato de não poder permanecer juntamente com o familiar. E a dificuldade colocada por eles na hora de expressar o significado do velório e os sentimentos surgidos no momento.

3.3 Os Aspectos Psicológicos do Filho após a Morte Materna

Os aspectos psicológicos, geralmente são os mais afetados diante da perda, não descartando os biológicos, sociais e espirituais. Com a perda ocorre uma ruptura na estrutura emocional do individuo, com o impedimento do vinculo/contato que antes era estabelecido com a pessoa que morreu, surge então às chamadas resistências ou mecanismo de defesa como uma tentativa de equilíbrio (MELO, 2010).

Diante da perda alguns enlutados podem apresentar quadros somáticos e/ou doenças graves depois do luto, onde se pode configurar uma depressão reativa, um quadro mais grave de outra doença (SANTOS, 2008).

Teve uma glândula do meu pescoço que cresceu depois da morte dela, apareceu no mês de junho, não foi crescendo pequenina apareceu grande, agora tenho que fazer cirurgia (MARIA GADÚ, 43 anos).

Estou com uma doença de pele agora,por incrível que pareça eu nunca tive, agora eu estou começando, presenciei essa mancha aqui em mim depois que ela morreu (MARIA HÉLEN, 53 anos).

Com a descrição dos relatos mencionados pode-se inferir a correlação existente entre mente e corpo, ou melhor, doença psicossomática. Em dois participantes da pesquisa relataram o surgimento de doenças dermatológicas após a morte materna. De acordo com a literatura as doenças dermatológicas são consideradas na sua grande maioria psicossomáticas.

Chalhup e Rodrigues (2009) afirmaram que pessoas com mais autonomia desenvolvem um sistema imunológico muito mais resistente a todo tipo de doença. Portanto, pessoas mais dependentes de afeto, geralmente inseguras, são mais resistentes na elaboração de metas, logo a incerteza é encarada como muito dificuldade.

O meu psicológico já vinha abalado há dois anos devido umas cirurgias que eu tive de mama, de tireóide, e eu também tenho problemas de depressão devida também a tanto perda, que eu já perdi cinco irmãos adultos, perdi meu pai há nove anos, agora perdi ela. (MARIA HÉLEN, 53 anos).
Já tive um surto de esquizofrenia ela que me ajudou a me equilibrar de novo, me acolheu. Às vezes não quero me encontrar sem perspectiva como eu já me encontrei há alguns anos atrás. Eu tomo remédio controlado e eu tenho me esforçado muito pra mim não viver sem perspectivas, porque ela muito tempo pra mim foi minha perspectiva [...] Mudou tudo (choro) (MARIA GADÚ, 43 anos).

Com as colocações das participantes acima, percebeu-se a dificuldade no enfretamento do luto com relatos de perdas na família, um fator provocante de transtornos psicológicos. E com a morte da genitora, alguém que mantinha certa dependência afetiva, interferiu na elaboração de projetos de vida, onde a participante denominou perspectiva.

De acordo com Melo (2004), os enlutados apresentam reações que se manifestam após a perda do ente querido: Sensações físicas; Cognições e pensamentos habituais; Comportamentos usualmente manifestados após a perda.

Assim, depois da morte da minha mãe eu senti mais vontade de dormir, de vez enquanto dá assim umas tonturas, o sintoma que eu senti que eu não tinha foi esse, queria dormir todo tempo, ficar só dentro de casa, de vez enquanto me dá tontura, é isso (MARIA BEATRIZ, 49 anos).
Não durmo de noite, eu me lembro muito dela, ela levantava pra ficar assim com ela, conversar com ela. Só mesmo não durmo direito. (MARIA ESCÓCIA, 71 anos).

Diante dos discursos das participantes é notória a semelhança com o que a literatura descreve. Neste caso, principalmente quando se refere aos aspectos relacionados aos comportamentos manifestados após a perda materna, onde distúrbio de sono (insônia) foi o mais relatado pelos participantes.

Outros fatores psicológicos e sociais também influenciam no luto, como as condições de sobrevivência, se vivem sem companhia após a perda, a idade do enlutado e as condições financeiras. As perdas secundárias surgidas com a morte de alguém também implicam na elaboração, denominadas de perdas simbólicas (KOVÁCS, 2002).

Deste modo, foi possível observar nos relatos dos participantes que as dificuldades na elaboração da perda, que vai além da morte física da pessoa, abordando outras perdas, como a situação financeira, onde a pessoa falecida servia de auxilio nas questões econômicas, acarretando em perdas secundarias para o enlutado.

3.4 O Enfrentamento do Luto Diante da Perda Materna

O luto pode seu denominado como luto normal ou luto patológico. A elaboração do luto é um processo de incorporação da perda e de trabalho sobre o pesar. Quando esse pesar não é vivenciado pelo enlutado o luto não é elaborado, portanto a existência (sentido da vida) não é resignificada (MELO, 2010).

Segundo Melo (2004), os enlutados apresentam sentimentos comuns no processo do luto: Tristeza; Raiva; Culpa e autocensura; Ansiedade; Solidão; Alivio.

Como eu falei sentimento de raiva da minha sobrinha, ela não tava nem la no velório ela [...] ela tem 11 anos, filha do meu irmão, nem ela nem o outro, se ela tivesse la nós ia dá nela, ela foi a culpada ( MARIA CARLA, 45 anos).
Eu poderia ter feito mais, quanto mais você faz, mas depois que a pessoa morre a gente perde a gente acha que poderia ter feito mais, podia ter feito mais, podia ter dado mais de mim, ter ficado mais com ela, infelizmente a vida não oferece essa condição pra gente, eu me cobro mais, eu acho que eu poderia ter dado mais ter ficado mais ela (MARIA FLOR, 60 anos).
Não tenho mais quem cuide de mim, ninguém vai querer ter trabalho comigo, o amor que ela teve ninguém vai ter (choro) [...] Fico preocupada comigo mesmo, o que eu vou fazer, como eu vou viver agora (MARIA GADÚ, 43 anos).
Chorei, chorei porque eu sabia que dali em diante a minha mãe tinha acabado [...] Em compensação um alivio, por que ela tinha acabado o sofrimento dela (MARIA HÉLEN, 53 anos).

De acordo com os relatos dos participantes vivenciam/vivenciaram sentimentos diversos e alguns com muita intensidade, que podem ser expressos de uma forma fragmentada pelos vários familiares. Como exemplificação, um pode transportar toda a zanga pela família, enquanto outro familiar está apenas com a tristeza, um demonstra alívio e outro se isola.

O luto provoca a dor que tem suas implicações e peculiaridades. Indivíduos diferentes reagem de forma semelhante à perda de um familiar. Assim, todas as manifestações emocionais expressadas é uma tentativa de preencher o espaço deixado pelo ente querido, tornando-se essencial para o desenvolvimento do processo do luto (MELO, 2010).

As manifestações dos sentimentos diante da perda passaram por modificações no decorrer do tempo. Questões culturais e religiosas exerceram e ainda exercem grandes influências. Na idade media era permitida a manifestação do sentimento. Já no século XX a morte passou a ser sinônimo de fracasso, as pessoas negam o sofrimento, como se o processo do luto fosse evitável (KOVÁCS, 2002).

Eu não tenho mais esse negocio de luto, eu sou cristã não posso ter muito esse negocio de sentimento demais, por que quando a gente é cristã que desaparece mesmo, Deus levou, a gente pensa que ta tudo certo la pra ela. (MARIA ESCÓCIA, 71 anos).
Aquele luto de antigamente que não existe mais, não tão nem ai, vão pra festa, ouve musica, la em casa não tem nada disso, ninguém ouve musica, só depois de um ano que a gente vai botar musica, é só mesmo indo pra missa, rezando o terço, acedendo vela, indo pro cemitério, está sendo assim meu luto, é isso que meu coração está pedindo, não é pra fazer não é pra mostrar, não é pra dizer o que eu estou sentindo não, é isso que meu coração está sentindo, isso que eu fui ensinada, é isso que eu estou vivenciando (MARIA FLOR, 60 anos).

Os discursos dos participantes tornam-se ainda mais acentuados quando exemplifica o que mostra na literatura, na qual foi possível encontrar influência das questões religiosas diante do processo de resolução do luto, porém independente da época em que se encontra.

Bowlby (2004) definiu que acentuação dos processos pertencentes ao luto normal resulta no luto patológico. O que se configura a luto saudável é a possibilidade nas reorganizações dos vínculos e de re-significar a vivencia, aceitando a presença da ausência da pessoa morta. Definiu quatro fases para o processo do luto, são elas: - Entorpecimento (essa fase pode ser breve, mas também pode durar semanas; surge uma descrença em relação ao ocorrido, geralmente negando-o. - O anseio e a busca da pessoa perdida (o enlutado vivencia sentimentos de raiva, esperança, pranto, com o intuito de reencontrar e de está novamente com a pessoa que morreu. - Fase de desorganização e desespero (o enlutado encerra o desejo de está com o ente querido e surge um sentimento de solidão, sentindo-se desamparado e em estado de desespero por ter perdido o vinculo). - Recuperação e reorganização (o enlutado se organiza gradativamente, rever o sentido da vida, restabelece vínculos, traça novos objetivos.

A gente não tem nem explicação, por causa que a gente fica muito sentido. Pra mim naquela hora era um sonho, pra mim que ela não tinha nem morrido na hora, ela apagou como um passarinho não fez remorso nenhum, fiquei naquele sentido que pensei que ela não tinha morrido (JOSÉ ALISON, 53 anos).
A gente fica se perguntando, inclusive eu fiquei me culpando assim porque eu não levei ela no dia mesmo que ela gripou, eu ainda esperei uns 3, 4 dias, será se eu tenho levado no primeiro dia teria sido diferente? Minha mãe não tinha morrido, eu acho que ela não tinha morrido (MARIA HÉLEN, 53 anos).
Eu sei que eu sinto muita falta, muita falta. Eu to lhe dizendo que não sinto mais, porque não gosto de ficar só, se eu ficar só eu me sinto ruim [...] Ave Maria é ruim demais ficar só. Mas me sinto só como se não tivesse mais parente nenhum. Eu tenho três filhos, mas me sinto sem parente (MARIA ESCÓCIA, 71 anos).
Dessa vivencia me chamou atenção é que a gente tem quem ficar mais com a família da gente mais, mais e mais, esse foi o aprendizado que eu tirei, cada coisa que você passa da sua vida, especialmente de sofrimento você aprende, você só aprende. O sofrimento só faz você aprender e melhorar cada vez mais. Agora eu quero está mais junto com meus irmãos (MARIA FLOR, 60 anos).

Comparar a morte como um sonho, mostrado na fala do participante acima, seria uma espécie de mecanismo de defesa para o familiar, que pode ocorrer involuntariamente, como forma de negar a perda, amenizar o choque (torpor). A reação de protesto é muito comum diante da morte de uma pessoa querida, denominado culpado para a morte. Em outros casos, quando o familiar era o cuidador, este se sente culpado pela morte, imaginando que se tivesse tido mais atitudes a morte não teria ocorrido. No discurso expõe claramente uma característica geralmente típica da fase de desorganização, neste caso a solidão. A filha sente falta da figura materna apesar da presença dos familiares sente-se sozinha. Ainda apresenta na ultima fala no relatou do participante a aquisição de aprendizado com o sofrimento adquirido diante da morte materna, portanto, a luz da literatura mostra uma elaboração para o sentido da vida.

Entretanto Lima, Pereira e Silva (2006) citam que no processo de luto, existem variáveis que determinam o tempo e a intensidade das fases. Logo, o tempo que o indivíduo leva para elaborar o luto pode variar ou até durar anos. Pode-se dizer que, em alguns casos, ele nunca acaba.

Pode-se dizer que com os discursos dos participantes tomados como exemplos nas fases propostas descarta qualquer critério de diagnostico (luto normal ou patológico). Servindo apenas como norteamento no que se refere o processo do luto vivenciado pelo filho diante da morte materna.

4 Conclusão

Nos discursos dos participantes do presente estudo, retomando ao que a literatura discorre, no que se refere a representação da figura materna, na falas dos filhos denotam-se que foram relatados somente aspectos positivos no relacionamento mãe- filho. Quanto aos sentimentos vivenciados no momento que soube da noticia da morte materna foram diversos tais como tristeza, revolta, desespero e angustia.

Foi possível perceber uma confluência entre a fundamentação teórica e as falas dos entrevistados, tais como, a importância do vinculo estabelecido na representação social da morte para o familiar. Os participantes expressaram a existência de um bom relacionamento com a genitora e uma relação muito próxima com as mesmas, este relato estabeleceu-se com a grande maioria dos entrevistados. Em relação à morte materna resultou sentimentos de desamparo e solidão para o filho. Outro ponto observado foi em relação o ciclo de desenvolvimento das genitoras, todas as mães dos participantes da pesquisa eram idosas, sendo demonstrado em suas falas que os filhos que residiam com elas (mães) se comportavam como cuidadores, estabelecendo assim, uma relação mais estreita entre ambos e o nível maior do apego, consequentemente vivenciaram o sofrimento também por meio das lembranças mantidas no ambiente que conviviam e na companhia que compartilhavam.

No que se refere ao ritual do velório, a literatura pouco relata, apenas comenta como ocorre esse ritual no decorrer do tempo. Desse modo, na coleta de dados do estudo, quando abordado o assunto que concerne esse ritual, houve uma maior sensibilização por parte da pesquisadora, contato e acolhimento incondicional. Os participantes nesse momento relataram sentimentos de desespero, dor, tristeza e de despedida, semelhantes aos sentidos no momento da noticia do falecimento. Correlacionando com a literatura, o familiar geralmente foi criado em uma visão “romântica de feliz para sempre”, anulando essa hora da despedida. Apesar de que alguns participantes encarar essa realidade, aceitando-a mais, mesmo assim, usufruem do aprendizado que o ser humano faz parte de um ciclo de desenvolvimento sendo a morte a ultima etapa.

Com a pesquisa reforçou-se a importância de estudos referentes a tanatologia, esse tema costuma impactar os profissionais, paralisando-os pessoal e profissionalmente. Os profissionais de saúde necessitam de mais aperfeiçoamento, lidam com a morte diariamente no exercício da profissão e utilizam como suporte neste momento a objetividade e linguagem técnica a fim de suavizar o impacto da perda. Alguns teóricos destacam os psicólogos denominados como os mais preparados para lidar com a notícia de morte e estereotipados como agente maior de conforto ao familiar, porem por se tratar de uma demanda que acarreta sofrimento, resistências e múltiplas reações de sentimentos, estes profissionais também precisam de uma capacitação. A atuação dos profissionais de saúde foi pouca relatada pelos participantes, porem a relevância desses profissionais nas questões da morte se faz importante mencionar.

Com a pesquisa percebeu-se o impacto da perda nos aspectos psicológicos, com a necessidade de atendimento psicoterápico para determinados participantes o que não significa aceitação definitiva e completa da perda, mas a possibilidade de colocá-la em perspectiva de modo a seguir adiante, auxiliar na elaboração do luto, principalmente quando a vivência torna-se prejudicada na ausência da mãe.

Temas significantes ainda podem ser investigados, como a temporalidade do processo do luto na família e os legados familiares das perdas que influenciam bastante nas consequências dos aspectos psicológicos no familiar. Os resultados mostraram que o impacto da perda para o filho é influenciado pelo vínculo estabelecido com a genitora. Nesse sentido, tantos os objetivos gerais quanto os específicos foram alcançados, já que se buscou conhecer os aspectos psicológicos da vivencia do filho diante da morte materna.

Sobre o Autor:

Kaline de Sousa Pinto - Graduada em Psicologia. Email:

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