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Resumo: Toda comunidade traz em si alguma particularidade e até mesmo uma complexidade. Quando observamos as camadas mais pobres da nossa sociedade, percebemos que nelas existem pessoas com pensamentos diferentes, culturas diferentes, histórias de vida singulares, mas que se cruzam, se complementam, numa realidade social estereotipada, fragmentada pelo capitalismo, pelas desigualdades e descrença nos poderes, na sociedade e no ser humano. O papel do psicólogo é de fundamental importância, pois este profissional faz o uso de seus conhecimentos para poder intervir nos sistemas, contribuindo pela busca de melhores condições às comunidades e seus membros. O psicólogo depara-se com diversas situações que na maioria das vezes chocam, mas que é necessário abrir novos espaços para a resolução desses problemas sociais, buscando melhores condições de vida. Tomaremos como base ao nosso discurso a inserção profissional no espaço saúde, para refletirmos o que vem sendo construído e o que nos falta concretizar para podermos afirmar que as políticas públicas na saúde estão sendo realmente aplicadas e quais vem sendo as contribuições de nossa classe profissional para que isso aconteça.
Palavras-chave: Psicologia Social, intervenção, comunidade, saúde, políticas públicas

Introdução

A Comissão Nacional de Direitos Humanos e o Conselho Federal de Psicologia construíram juntos uma forte militância em torno da questão dos Direitos Humanos na Psicologia. Tornou-se um movimento grandioso, que trouxe uma aspiração maior à profissão nos últimos tempos.

Este novo tipo de trabalho proposto aos psicólogos trouxe uma modelagem nova à profissão já que, por muito tempo o atendimento psicoterápico durante a década de 80, atendia somente a clientelas seletas e elitistas que mantiveram a imagem do profissional psicólogo como alguém que prestava um serviço selecionador. Além disso, a quantidade de profissionais lançados no mercado de trabalho já estava sendo maior que a demanda oferecida pela sociedade. Se continuasse a crescer dessa maneira, trazendo consigo oportunidades, senão para todos, mas para a grande maioria dos profissionais, pouco provável seria trazer estas discussões sobre inclusão social e direitos humanos para o meio profissional e acadêmico. O resultado seria uma grande formação de profissionais formados para atender dentro de seus consultórios aqueles que pagassem cada vez mais. E isto não é algo provável para a sociedade atual.

Podemos considerar então, que na hora certa, a metodologia de trabalho mudou. As crises econômicas de 1990 dificultaram ainda mais o espaço deste profissional e a Reforma da Constituição, em 88, trouxe um novo eixo, uma nova direção para os profissionais. Os direitos sociais, as políticas públicas, o advento do SUS (Sistema Único de Saúde), o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) trouxeram uma amplitude de meios para o psicólogo trabalhar na área da saúde, justiça e social.

Porém, a partir deste momento, o psicólogo encontrou-se frente ao desconhecido. Não tinham uma formação específica para trabalhar no meio social e muito menos uma prática para atender ao novo tipo de clientela pobre da sociedade. Então, a partir daí, surgiu a necessidade de se inventar e ainda estamos neste ponto de invenção, uma intervenção, uma maneira de como atender esta nova demanda, tão diferente da que por muito tempo foi atendida. A estas alturas todos ficaram perdidos entre os vários discursos e escolas teóricas que muito pouco ajudavam a pensar numa metodologia de trabalho.

Este encontro de novos caminhos de trabalho ao psicólogo pode trazer uma reflexão sobre os processos sociais existentes, sobre os contextos de vida na sociedade, passando a mostrar os males existentes e o que ela precisaria necessariamente para ser atendida e ser melhorada.

A violação dos direitos humanos trouxe uma discussão sobre a maneira que o Estado oferece estes direitos ao mesmo tempo em que os tira. Esta discussão só pode ser aberta a partir do momento em que o psicólogo passou a intervir e aplicar a luta pelos direitos humanos no seu trabalho. Mesmo trabalhando para o Estado, ele passou a perceber estes movimentos negativos e passou a militar contra, defendendo os direitos humanos. Então, de mero espectador passou a ser um cobrador de ações positivas.

A Comissão Nacional de Direitos Humanos trouxe à Psicologia a inquietude diante destes fatos, mostrando que ao se tratar de seres humanos, este assunto passa a ser da ordem psicológica já que seu objetivo é trabalhar pelo bem estar e pela saúde mental das pessoas. E, se tratando de Diretos Humanos, nada mais justo que a junção da psicologia, que também trabalha com seres humanos.

Enfrentar o sofrimento mental sem dúvida traria muitas ações, muitos movimentos, muitas criações de políticas públicas, enfim, traria a necessidade de eliminar o mal-estar existente na sociedade, evitando um sofrimento desnecessário.

Toda comunidade traz em si alguma particularidade e até mesmo uma complexidade.

Quando observamos as camadas mais pobres da nossa sociedade, percebemos que nela existem pessoas com pensamentos diferentes, culturas diferentes, histórias de vida singulares, mas que se cruzam, se complementam numa realidade social estereotipada, fragmentada pelo capitalismo, pelas desigualdades e descrença nos poderes, na sociedade e no ser humano.

O papel do psicólogo na comunidade é de fundamental importância, pois este profissional faz o uso de seus conhecimentos para poder ajudar as pessoas que sofrem pela falta de melhores condições. O psicólogo depara-se com diversas situações que na maioria das vezes chocam, mas que é necessário abrir novos espaços para a resolução desses problemas sociais, buscando melhores condições de vida.

Desde os tempos mais remotos, as pessoas desfavorecidas sofrem com graves problemas de exploração, opressão, pobreza, falta de oportunidades, preconceitos, discriminação. Mas isso vem sendo estudado e há quem tente solucionar. Dentro de uma comunidade é necessário comprometer-se com as diversas mudanças a serem feitas e aproximar-se dessa população oprimida. Ainda é possível trabalhar nessas pessoas uma consciência mais crítica, fazendo com que elas busquem uma identidade pessoal.

Como militantes dos direitos humanos, através de seus inúmeros trabalhos e de suas campanhas, o psicólogo é visto na sociedade como um operador da inclusão social e também se vê como uma pessoa, um profissional que vem discutindo o que se tem feito durante tanto tempo acerca dos problemas sociais e da exclusão provocada pelas “anormalidades” que a sociedade criou.

O modo que a sociedade lida com esta imagem e a relação que a Psicologia tem com este assunto, foi uma importante questão colocada em pauta pelo Conselho de Psicologia.  E cada ponto discutido nestes debates fomenta ainda mais a intervenção e a vontade deste profissional exigir e cobrar de todos a existência dos Direitos Humanos.

A Psicologia Social, os Psicólogos e as Políticas Públicas da Saúde: da Reflexão à Ação

A Psicologia Social estuda o comportamento dos indivíduos em suas relações sociais.

Para Augusto Comte, considerado o fundador da Psicologia Social, seu questionamento estava em como este indivíduo poderia ser construtor e construído, causa e conseqüência nestas relações. E foi com este pensamento que os psicólogos sociais procuraram, através de várias pesquisas, resposta para as crescentes tensões sociais desencadeadas no pós Primeira Guerra Mundial.

Durante muito tempo a sociedade foi usada como fonte de “escavação arqueológica” para explicar o comportamento do indivíduo, “traços de personalidade, atitudes, motivos, quando não por instintos”. (Lane, 1994)

A Psicologia Social produziu pesquisas e mais pesquisas em busca de formar teorias sociais. O profissional passou a ser visto como acadêmico pesquisador. Concomitantemente a Psicologia Social começou a entrar num processo de crise. E aqui no Brasil este processo se deu devido a forma de trabalho do psicólogo que exportava idéias e teorias de outros contextos sociais que não se articulavam com a nossa realidade, muitas vezes trabalhando de forma elitizada. Conforme nos diz Lane (1994), “não temos utilizado esta ciência para responder às questões sociais específicas do momento histórico em que vivemos”, ficando a Psicologia Social à margem sem construir um projeto de transformação social significativo.

Atualmente a Psicologia ampliou a visão da relação do sujeito com a sociedade. Da linha de pesquisa passou para a linha de ação. As psicologias ganharam um foco sócio-político trabalhando o sujeito como um ser social, ativo e transformador instrumentalizando-o para a conquista de uma melhor qualidade de vida. É neste contexto de transformação, de preocupação com o sujeito em sua comunidade, que a Psicologia Social trará suas contribuições através das intervenções, capacitações dos atores sociais, articulações entre os pólos do igual e do diferente, informações e comunicações.

Mas, para trabalharmos num contexto de transformação precisamos entender que o sentido é transformar+ ação. Para melhor explicitarmos, traremos um exemplo de Boarini (1989) onde em seu trabalho Estágio em posto de saúde: prática e reflexão, podemos acompanhar como se deu o processo de inserção de grupos de estagiários no espaço Posto de Saúde Comunitário do bairro de Mandacarú, no município de Maringá.

O primeiro grupo iniciou suas atividades em agosto de 1984 sendo o estágio feito na área de Psicologia Clínica e trabalho, supervisionados por dois professores das respectivas áreas.

As queixas principais vindas da supervisora-enfermeira do Posto de Saúde era que havia baixo índice de procura ao atendimento prestado no posto devido a instituição se localizar numa comunidade com alto nível sócio-econômico, porém, o que constatou-se foi uma realidade de miséria, péssimas condições de saúde e desinformação sobre os serviços sociais oferecidos para a comunidade.

De início os estagiários trabalharam a divulgação dos serviços oferecidos pelo posto, desenvolveram treinamentos dos funcionários, instrumentalizando os atendentes da instituição para acompanhar um grupo de gestantes. Em seguida, abriu-se oportunidade ao atendimento psicoterápico individual onde, de 32 pessoas que procuraram a terapia, apenas 2 deram continuidade enquanto os demais limitaram-se apenas ao primeiro encontro.

O trabalho foi desenvolvido no período de um ano dando sequência com um novo grupo de estagiários. Como no primeiro, o novo grupo priorizou o atendimento individual e tiveram o mesmo insucesso. Também tentaram um trabalho de grupo com as pessoas que se encontravam na sala de espera, mas, as dificuldades encontradas estavam desde a linguagem, a dinâmica à própria aceitação do trabalho. O terceiro grupo a continuar o estágio também priorizou o atendimento individual e sem nenhuma surpresa, não obteve êxito.

A exposição dos trabalhos realizados pelos três grupos foi motivo de reflexões acerca das dificuldades enfrentadas. Surgiram, portanto, dois questionamentos: por que os estagiários resistem à um trabalho grupal e priorizam o atendimento individual mesmo que este seja inviável nesta instituição?As dificuldades encontradas deveriam ser solucionadas dentro ou fora da experiência?

A prática do estágio tem significativa importância para o aperfeiçoamento do aluno. No entanto, discutir a formação do psicólogo é de fundamental importância principalmente neste caso onde a prática entra em desajuste com a teoria, ou seja, muitas vezes os recursos teóricos são mal aplicados às reais condições do exercício do profissional, e não se adequam às reais experiências numa sociedade de classes.

No caso do posto de saúde a dificuldade está no fato de os estagiários não perceberem que na realidade daquela comunidade suas prioridades não adequam uma terapia individual, e sim um atendimento médico, onde se encontra a maior demanda do posto. Onde as necessidades básicas não se encontram atendidas, dificilmente uma terapia psicológica será percebida. Isso não significa que diante das necessidades básicas desassistidas o homem não passe por sofrimentos, problemas emocionais e não tenha direito a um atendimento terapêutico psicológico.

No entanto, como diz o Boarini “são as condições materiais que determinam a consciência” e se o estagiário não conseguir perceber esta condição poderá criar uma falsa idéia de que as teorias aprendidas funcionam apenas às classes dominantes. É, portanto, diante dessas considerações que questionamos se uma terapia individual que desconsidera as condições materiais do indivíduo está realmente comprometida com a igualdade e a liberdade que cada um possui para procurar o melhor para si, e se a prática psicológica nesta condição mostrada acima realmente alcança uma classe desfavorecida tirando da psicologia essa “marca” de elitizada ou dominante.

A questão mais preocupante é que, se em anos passados a tentativa (nem sempre eficiente) de focalização das atenções dos psicólogos para as classes subalternas, no contexto da rearticulação do movimento popular (de corte antiditatorial), era fortemente motivada por um reconhecimento da importância do comprometimento social da ação profissional, hoje, o quadro nos parece radicalmente diverso. A ação profissional dos psicólogos que atuam no campo da saúde (ao menos considerados os exemplos que temos em mãos, o que não representa, necessariamente, a ausência de outras formas de inserção) nos indica uma extensão da prática convencional (calcada no modelo médico) com uma escassa ou nenhuma problematização dessa forma de intervenção, reforçando um dos aspectos mais dramáticos da prática dos profissionais que atuam no setor social público: o acesso desqualificado por parte de parcelas cada vez maiores da população aos serviços básicos no setor social. (YAMAMOTO, 2003, p.49-50)

Com o exemplo do estágio no posto de saúde e a reflexão trazida por Yamamoto podemos perceber uma sutil relação entre ambas. Praticar uma clínica individualizada num contexto onde as necessidades divergem com tal prática desqualifica o trabalho do profissional, o atendimento ao público-alvo, passando a imagem de que tal intervenção não é direcionada para todos ou, se é direcionada, direciona-se de maneira pobre, simplista, sem relevantes resultados ao sujeito. Além de uma imagem elitizada, estudos sobre a profissão nos mostram que durante muito tempo as grandes áreas da psicologia no Brasil foram a Clínica, Escolar e Organizacional. Deste modo podemos entender porque muitos estudantes saem de suas graduações com idéias focadas e fechadas. A constituição da psicologia como campo de saber direcionado ao estudo do homem se contradiz quando suas práticas não se adequam à realidade brasileira, reforçando assim a sua tendência elitista e minimizando sua importância no social, na comunidade.

Foi partindo da reflexão sobre o tipo de assistência que a psicologia estava dando a comunidade que os modelos de atuação começaram a ganhar outro rumo, outra perspectiva, direcionando-se cada vez mais às representações sociais, num contexto comunitário.

Mas para discutir esta questão de uma maneira não prolongada nos direcionaremos a atuação do psicólogo no campo saúde que, a princípio, deu-se através das Unidades Básicas de Saúde – desenvolvendo intervenções- e nos Núcleos e Centros de Atenção Psicossocial (NAPS|CAPS) no tratamento manicomial.

O psicólogo passou a atuar para a comunidade e não na comunidade, no sistema saúde, seguindo o mesmo modelo tradicional. Sua intervenção apenas reproduzia o modelo clínico, sem problematizar a adequação ou desenvolvimento de novos modelos que suprissem as exigências do serviço público e suas faltas.

O compromisso social da psicologia, que era o de transformar sua práxis sob uma ética que possibilitasse resolver os problemas sociais brasileiros, apontasse práticas que fortalecessem a população, oferecendo-a autonomia para enfrentar a situação de vulnerabilidade social só pode ser concebida quando a psicologia ganhou voz nas políticas públicas.

Além de garantir um espaço na construção de políticas públicas, a profissão ganhou novos referenciais de atuação na sociedade. A exemplo, o CREPOP, Centro de

Referência Técnica em Psicologia e Políticas Públicas, que tem por objetivo identificar, sistematizar, documentar e disponibilizar práticas desenvolvidas pelos psicólogos, através das políticas públicas existentes e da construção de novas políticas públicas, dentro da sociedade. O CREPOP

surgiu para oferecer à Psicologia um novo olhar sobre os compromissos com as Políticas Públicas e com os Direitos Humanos... traz, como principal propósito, ampliar a atuação dos psicólogos e das psicólogas na esfera pública, expandindo a contribuição profissional da Psicologia para a sociedade brasileira e, conseqüentemente, colaborando para a promoção dos Direitos Humanos no país. (CREPOP, 2007, p. 11.)

 A psicologia ganhou autonomia e a responsabilidade de produzir ações na sociedade. Sua característica de profissão elitizada desmoronou. Sua intervenção que outrora se concentrava apenas na clínica, agora tem por obrigação transformar-se numa intervenção comunitária, mais humanizada. O que nos presenteia com as “Psis” sociais, comunitárias, da saúde e muitas outras variáveis que chegam ao mesmo cociente: a comunidade.

Agora, sabemos que o psicólogo para atuar na saúde (CRAS, SUS,NAPS,CAPS etc.) possui suas referências dentro dos parâmetros atribuídos pelo Conselho Federal de Psicologia e pelas Políticas Públicas.

Ainda que pareça ter sido solucionado o problema inicialmente apontado para a atuação na saúde, estamos longe de ter alcançado este patamar de um serviço integral, universal e igualitário, defendido pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Existem muitos percalços com relação ao “querer” atuar na comunidade e “ter” que atuar nas instituições praticando a clínica tradicional. Não sabemos se ainda existem resquícios da formação fragmentada, se existem limites para a criação de novas políticas públicas ou se as dificuldades advêm de uma “politização do poder”.

O que sabemos é que, ao analisar a psicologia como atuante na saúde pública, temos que refletir quais são os compromissos ético-políticos prioritários em suas ações. Se antigamente a psicologia estava associada a patologias, desvios, doenças e promoção da saúde, hoje ela precisa ter uma característica despatologizante, mas além de despatologizar a patologia enquanto doença, é necessário despatologizar a sociedade enquanto doença social, enquanto um câncer incurável. Uma das ferramentas é a intervenção psicossocial que intera sujeito e meio social, direcionando às diversas áreas, visando o bem-estar psicossocial dos indivíduos, organizações, comunidades, grupos, instituições, não perdendo sua característica de pesquisa-ação. Ou seja, conforme Sarriera (2000), “a intervenção psicossocial diz respeito à relação indivíduo e coletivo, na interação dos sistemas macro-meso-microsociais”.

Nossa realidade nos traz uma imagem de sociedade desigual, violenta, com baixo nível educacional, altos índices de preconceito e exclusão, prostituição, drogadição entre outros problemas sociais. Tal imagem torna-se marginalizada, distante de uma possibilidade de mudança. É muito comum imaginarmos que os grandes problemas sociais encontram-se apenas nas favelas, nos morros, nas comunidades, estereotipando a população pobre pela falta de elementos positivos (educação, emprego, saúde, etc.) e pelo excesso de elementos negativos. E neste contexto o papel da intervenção psicossocial passa a ser o de agir sobre os fatores psicológicos insatisfatórios que podem ocorrer em diversas situações; diferentes instituições, condições sociais, desenvolvimento da personalidade, mudanças diversas, momentos críticos. A intervenção psicossocial age onde existe um mal estar, não significando dizer que seu grupo-alvo são apenas os “desfavorecidos”, pois até mesmo nas classes mais altas existem problemas.

A intervenção psicossocial trabalha definindo prioridades para que não corra o risco de perder o foco dos objetivos imediatos. Possui caráter preventivo, já que seu objetivo maior é o bem-estar psicossocial e uma melhor qualidade de vida das pessoas, grupos, instituições e comunidades. Por ter recebido influências da psicologia institucional, através do trabalho preventivo, desenvolve a psico-higiene, que é uma maneira de enfrentar os problemas e situações do cotidiano buscando este bem-estar psicossocial. Também busca compreender a realidade sócio-histórica e cultural de cada grupo-alvo para identificar suas necessidades, que variam para cada contexto social.

E é dentro desta identificação da realidade grupal e suas necessidades, suas peculiaridades que o processo de intervenção psicossocial se adapta. O trabalho de pesquisa-intervenção psicossocial é algo novo, portanto, está longe de se esgotar este tema já que as produções de conhecimentos vêm-se aumentando a cada dia.

Percebemos então que, psicologia, políticas públicas e comunidade estão intrinsecamente implicadas na construção do social. Ainda que existam dificuldades para a atuação do psicólogo na saúde no âmbito social, esta dificuldade não é isolada. Lembremos que

...a psicologia social têm múltiplas “histórias” e “atualidades”, que a psicologia social são “muitas”. Portanto, proponho pensar a saúde para além de um eixo temático de psicologia social, mas como campo necessariamente interdisciplinar, que desafia todas as especialidades à construção de práticas coletivas, individuais e comunitárias. (KIND, 2007, p. 266)

Nossa reflexão teve o intuito de posicionar o profissional psicólogo numa maneira crítica acerca de sua atuação, mostrando que para atuarmos na saúde, direcionando-a a comunidade, precisamos assumir um novo compromisso com esta, procurando conhecer sua realidade, suas necessidades, melhorando a qualidade de vida das pessoas, reassumindo nosso pacto com os direitos humanos e utilizando de nossa autonomia para defender, criar e fiscalizar as políticas públicas. Esperamos que possamos levantar questionamentos sobre este compromisso, que não é só do psicólogo mas também de outros profissionais que se preocupam com as transformações sociais.

Sobre o Autor:

Elisângela Maria dos Santos Silva - graduanda em Psicologia pela Faculdade do Vale do Ipojuca - FAVIP, Caruaru, PE.

Referências:

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