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Resumo: Este trabalho trata-se de uma pesquisa aplicada, qualitativa, exploratória de levantamento, que tem como objetivo verificar a importância da sociedade na construção da identidade do indivíduo tímido. Buscou-se especificar na pesquisa as relações sociais do indivíduo que sofre de timidez, a forma como a sociedade o percebe e /ou aceita e quais influências a sociedade exerce sobre esse indivíduo. Foi aplicada uma entrevista estruturada, onde foram entrevistadas 15 pessoas entre 15 e 45 anos. Para a análise, os dados foram divididos em três categorias, sendo a primeira dividida em três subcategorias. Os resultados revelaram que a sociedade contribui para o desenvolvimento da timidez, sendo a família a instituição social que mais influencia nessa questão.
Palavras- Chaves: timidez, sociedade, construção, identidade.

Introdução

A timidez é um padrão de comportamento em que a pessoa sente dificuldade ao expressar aquilo que deseja, sente e pensa. Ela gera um desconforto diante de situações sociais, que pode, algumas vezes, atrapalhar o indivíduo na conquista de seus objetivos, sejam eles pessoais ou profissionais.

A timidez é frequentemente confundida com patologias como a fobia social e a personalidade anti-social. A timidez não é considerada doença; já a fobia e a personalidade anti-social, sim. A fobia social, é uma exacerbação da timidez, é quando a timidez se torna patológica. Ela acarreta maiores prejuízos à vida do indivíduo e seus sintomas são mais intensos e incapacitantes.

A personalidade anti-social é quando o individuo não se preocupa em manter relações sociais com os outros, agindo com indiferença aos sentimentos alheios. Já a timidez, incomoda o individuo justamente por ela afetar seu relacionamento com outras pessoas.

A timidez traz muitas conseqüências para aqueles que a vivenciam. Ela gera dificuldade em fazer amigos, em arrumar parceiros amorosos, em conseguir empregos, dificuldades em apresentar trabalhos escolares, dentre outras. 

Pessoas tímidas possuem características, conforme a situação em que se encontram. Geralmente, possuem baixa auto-estima, são inseguras, são medrosas, extremamente preocupadas com a opinião alheia, possuem sentimento de vergonha e são bastante passivas.

A escola, a comunidade e toda área social do indivíduo são locais onde os acontecimentos têm muita influência em seus comportamentos positivos ou negativos que podem reforçar a timidez, e o mesmo se aplica na interação com amigos e colegas. A timidez pode ainda aumentar por razões pouco conhecidas e assumir proporções aniquilantes.

A timidez é um mal que trabalha em silêncio, pois a maioria dos tímidos não reclama de suas aflições, de suas dificuldades e acaba por se fechar em seu mundo.  Apesar de não ser considerada uma patologia, a timidez é um problema que precisa ser tratado, pois ela compromete bastante a vida daqueles que a possuem. Para poder ajudar aqueles que a vivenciam é necessário mais estudos acerca do tema, mais revelações sobre suas causas e conseqüências. A importância deste trabalho se deve ao fato de que a timidez ainda é uma questão pouco estudada no Brasil e principalmente no Piauí, merecendo um estudo específico ao tema, e à pretensão de ajudar a desvendar um aspecto muito importante sobre o assunto: a sociedade influencia o desenvolvimento da timidez?  Espera-se que esta pesquisa contribuía para dissecar melhor esse problema que é tão comum no dia a dia de muitas pessoas.

Este trabalho pretende discutir o tema timidez, buscando problematizar como a sociedade pode influenciar na construção da identidade do individuo tímido, avaliando qual a importância da sociedade na construção da identidade desse indivíduo.  Buscou-se, de forma específica, analisar as relações sociais do indivíduo que sofre de timidez, avaliar de que forma sociedade o percebe/ ou aceita e verificar o grau de influência que a sociedade exerce sobre ele.

Conceitos Iniciais

A timidez é vista como uma reação humana normal, embora se trate de um problema psicológico. Em qualquer situação em que o indivíduo não realiza o seu potencial existe o problema psicológico. Na timidez a pessoa não consegue realizar coisas que ela anseia muito, a despeito de ter potencial – logo, trata-se de problema psicológico.

Ela pode estar relacionada a um problema de não-realização, visto que ela é, na sua essência, a desatualização das forças naturais; quando essas forças não executam a sua tarefa, algo falta ao indivíduo. Por outro lado, o autoconceito favorável facilitará a expressão dessas forças e trará bem-estar. Isso não quer dizer que todos devam ter os seus potenciais atualizados, mas quanto maior o número de áreas atendidas, melhor o indivíduo se sentirá.

Segundo ROGERS (2005), existe uma teoria chamada o conceito de tendência à auto-atualização. Esse conceito implica na existência de uma força básica que impulsiona o indivíduo para frente. Esta é resultante de outras forças do mesmo sentido.

Há uma série de impedimentos na vida de quem sofre de timidez. O principal deles está relacionado à privação de atividades que acabam por limitar sua vida em vários aspectos como social, profissional, econômico, sexual e familiar. O indivíduo muitas vezes se dá conta de suas limitações e, de uma maneira quase automática, prepara uma justificativa para evitar convites e acontecimentos. Nesse caso, existe um sofrimento pessoal, pois o indivíduo se dá conta de que poderia fazer tais atividades, porém está "impedido" de exercê-las.

Conforme afirmado por MIRANDA (2004), a timidez pode ser definida como um desconforto diante de situações sociais, que atrapalha o indivíduo na conquista de seus objetivos, sejam eles pessoais ou profissionais.

De modo geral, toda a população é afetada pela timidez, já que ela funciona como um verdadeiro "regulador social", atribuindo culpa e vergonha para evitar os excessos que transformariam a sociedade em um verdadeiro caos. Por algumas razões, uma porcentagem que não é pequena desenvolve uma inibição excessiva, e é neste caso que ela realmente atrapalha.

Tipos de Timidez

Pesquisas realizadas mundialmente demonstram que aproximadamente metade das pessoas sofre com a timidez em algum momento de suas vidas. A timidez pode ser crônica ou situacional. Na timidez crônica a pessoa experimenta dificuldade em praticamente todas as áreas do convívio social, pois, segundo NARDI:

Ela não consegue falar com estranhos, fazer amigos, iniciar relacionamentos amorosos, falar em público, enfim, os danos são generalizados. Já na timidez situacional, a inibição se manifesta em ocasiões específicas, e, portanto o prejuízo é localizado. Por exemplo, a pessoa não experimenta dificuldades no amor, mas morre de medo de falar em público ou o contrário (2000, P. 17).

Trata-se de uma forma mais comum de timidez, e a mais fácil de ser vencida. Isto ocorre porque o tímido situacional possui mais habilidades sociais do que o tímido crônico, e grande parte do tratamento consistirá na "migração" das habilidades já existentes, enquanto que no segundo caso faz-se necessário um desenvolvimento completo dos recursos necessários para a interação com o mundo.

Sintomas da Timidez

A timidez pode ocorrer em um ou mais dos seguintes níveis: cognitivo, afetivo, fisiológico e comportamental.

Sintomas Cognitivos:os sintomas cognitivos mais comuns são: pensamentos negativos sobre si mesmo e a situação, medo de avaliação negativa e de parecer tolo diante dos outros, perfeccionismo e crenças de inadequação social, entre outros.

Sintomas Afetivos:Os sintomas afetivos incluem a vergonha, tristeza, solidão, depressão, ansiedade e baixa auto-estima.

Sintomas Fisiológicos:Os sintomas fisiológicos mais observados são o aumento do batimento cardíaco, secura na boca, tremedeira, rubor, transpiração excessiva e gagueira. Em alguns casos, principalmente na fobia social, ocorrem sensações de desmaio, medo de perder o controle ou sofrer um ataque cardíaco.

Sintomas Comportamentais:Os sintomas comportamentais comumente encontrados são a inibição e passividade, evitação do contato visual, baixo volume de voz, reduzida expressão corporal e a apresentação de comportamentos nervosos.

LIMA & MARTINS (2005) afirma que só a própria pessoa tem a noção exata do quanto sua dificuldade a prejudica, uma vez que a maior parte dos sintomas é invisível aos olhos dos outros. Quando não tratada ocorre um verdadeiro círculo vicioso de fracassos ou evitações, ocasionando prejuízos em todos os âmbitos da vida do indivíduo.

As conseqüências mais comuns são:

  • Dificuldade em fazer amigos, círculo social extremamente reduzido;
  • Dificuldade em arrumar parceiros amorosos, início tardio da vida amorosa;
  • Dificuldade em apresentar trabalhos no colégio, faculdade ou serviço;
  • Dificuldade em participar de reuniões e apresentar seu ponto de vista.

Pesquisas realizadas por NARDI (2000) demonstram que tímidos e fóbicos sociais casam-se mais tarde e são menos felizes no relacionamento conjugal, têm menos oportunidades de ascensão profissional e maiores chances de sofrer com a depressão, entre outros.

Ambos podem ser tratados, e as chances de sucesso são extraordinárias. Quanto mais cedo a pessoa identifica o seu problema e procura ajuda profissional, melhor.

Causas da Timidez

Em grande quantidade dos casos, as causas da timidez são praticamente imperceptíveis. Existem situações silenciosas, porém visíveis ao observador atento. Conforme diz MIRANDA:

No período de formação e consolidação do eu, as tendências à auto-atualização podem ser controladas pela manipulação de sentimentos. Todo mundo já ouviu algum dos pais de uma criança dizer algo como: “Fica quieto que eu te levo para passear depois”. Ou alguém dizer ao irmão mais novo, de quem tem ciúme: “Não te deixo entrar no jogo porque você é mole”. Ou o irmão dizer: “Não, seu narigudo!”. (2004, p. 54)

Essas situações calam fundo no “eu” em formação. Algumas com significados de que a criança só será aceita se fizer concessões. Outras com mensagens de que é rejeitada porque porta defeitos.

Existe ainda uma situação silenciosa e praticamente invisível: quando não se valoriza o que o bebê, a criança ou o adolescente conquistam. Isso ocorre em famílias que podemos chamar de “frias” ou famílias em que os pais não conseguem exprimir sentimentos de alegria com os progressos dos filhos no cotidiano. O indivíduo não agrega conceitos de que é capaz. Isso o faz sentir-se em posição de desigualdade em relação aos outros.

Algo parecido ocorre quando há barreiras dos pais para exprimir amor. A criança não desenvolve conceitos firmes de que é amada. Posteriormente duvida de que as pessoas possam gostar dela.

Embora esses exemplos estejam circunscritos a situações da família, muito do que acontece fora de casa pode influir no autoconceito. Segundo MIRANDA (2004), a escola é onde os acontecimentos têm muito eco na criança, e o mesmo se aplica a amigos e colegas. Até mesmo a ausência desse convívio pode pesar no autoconceito, pois a criança não desenvolve habilidade ou confiança para lidar com os outros.

A posição do porque algumas pessoas são mais tímidas do que outras envolvem, a princípio, fatores que têm influência direta sobre essa questão. O primeiro é o genético - pais tímidos tendem a ter filhos tímidos. O segundo refere-se ao modelo de comportamento que os pais passam para os filhos. As crianças costumam imitar o que vêem. Assim, se toda vez que os pais, por exemplo, entrarem numa loja para comprar roupas falarem em voz baixa, quase pedindo desculpas por estar ali, os filhos entendem que aquela é a postura que devem seguir.

Para SCHUBERT (2009), é preciso considerar a influência do ambiente. Fazer parte de uma família que não freqüenta festas, clubes e reuniões e que tenha poucos amigos faz com que a criança não desenvolva suas habilidades de relacionamento interpessoal como deveria.

A punição física dos pais ou na escola, castigos, palmadas, surras, humilhações públicas, na infância e/ou adolescência, podem gerar ou alimentar a timidez. Com frequência, encontram-se, em pessoas tímidas, relatos de situações de desrespeito à sua dignidade.

Portanto, as causas da timidez têm dois pólos: o autoconceito e o conceito acerca do outro.

O primeiro pólo é um conjunto de valores e crenças, conscientes ou acessíveis à consciência, assim como atitudes e opiniões que o indivíduo tem de si mesmo, de si mesmo em inter-relação com o outro, com o mundo e com tudo que a mente pode alcançar.

O autoconceito se forma na interação do indivíduo com o mundo e com as pessoas. Logo, seus primeiros contornos se delineiam quando o bebê começa a perceber o mundo em volta. Nesse início a percepção mobiliza sensações no plano fisiológico. Os registros feitos na mente do bebê são não-verbais, isto é, apenas fruto das sensações. O bebê poderá chorar se alguém se dirigir a ele com aspereza. Embora não entenda o significado das palavras, o tom e a altura da voz, assim como a expressão fisionômica de quem fala, causam sensação de desconforto, expresso no choro.

Para LIMA & MARTINS (2005), todas as experiências do cotidiano da criança vão se impregnando em sua mente e formando sua noção de “eu”. Entre os dois e três anos de idade a criança toma consciência de sua existência no mundo como ser separado. A essa altura já está marcada pelo número extraordinário de experiências que viveu. O entendimento que começa a ter das coisas é influenciado pelas experiências vividas.

As experiências seguintes consolidam ou modificam a noção do “eu” que vinha se delineando. Se a criança experimentou rejeição no plano fisiológico, agora ela pode “ver” essa rejeição quando, por exemplo, apanha da mãe ou do pai ou de quem estiver à sua volta.

Já o conceito acerca do outro constitui o conjunto de crenças, atitudes e opiniões que o indivíduo carrega acerca das outras pessoas.

Conforme afirmam LIMA & MARTINS (2005), o segundo pólo necessário ao desenvolvimento da timidez começa a se estruturar também no primeiro estágio de interação da criança com o mundo. Nesse estágio as emoções vivenciadas pela criança no plano biológico vão deixando marcas na memória “visceral” e vão conduzindo suas atitudes. Ao ser tratada com aspereza, a memória vincula o desconforto à pessoa que a tratou daquela maneira.

Em fase posterior ela apanha e começa a perceber ameaça na pessoa e a desenvolver expectativa de hostilidade. Caso continue a apanhar em fases posteriores, poderá sentir isso como humilhação.

Paralelamente, toma consciência de sua impotência para reagir e ainda vê o outro como forte, poderoso. Essa consciência do outro se generaliza e qualquer pessoa torna-se forte e potencialmente ameaçadora. O medo do outro se instala.

Segundo afirma MIRANDA:

Para perceber o outro como forte e ameaçador, o adulto não necessita ter sofrido punição física quando criança. Essa percepção do outro pode desenvolver-se através de variadas experiências durante a infância e/ou começo da adolescência, como: sofrer ameaças de castigo, sofrer punições não-físicas prolongadas, excessiva restrição ao convívio com outras crianças, presenciar agressões físicas e/ou verbais entre os pais, acessos de raiva ou descontrole emocional de um ou ambos os pais. Enfim, um grande número de experiências pode determinar a percepção generalizada do outro como forte, potencialmente ameaçador (2004, p. 29).

Assim, fica evidente que as causas da timidez são complexas e são parte da evolução do "eu". Qualquer acontecimento na vida de uma pessoa só contribui para a timidez se for incorporada ao “eu” na forma de conceito, com sinal negativo. Em meio a tal complexidade, fator importante pode ser a punição física materna.

As causas da timidez são múltiplas. Entretanto, excetuando-se possíveis fatores genéticos, pode-se dizer que a timidez resulta de um processo. Esse processo pode ser explicado de diversas formas, dependendo da corrente psicológica que o profissional segue. E cada corrente enfatiza um conjunto de fatores ou causas para se desenvolver a timidez ou qualquer outro problema psicológico.

Uma vez que é impossível alinhar todas essas correntes da psicologia e então explicar como cada uma descreve os processos psicológicos, enumerou-se as causas mais freqüentes.

  • Pais ou um dos pais tímido - A percepção depreciada de si mesmo o faz depreciar ou não confiar no filho(a).
  • Pais ou um dos pais muito agressivo - Isso faz com que o filho tenha uma visão dos outros como potencialmente hostis.
  • Experiências de humilhações silenciosas ou públicas - Isso corrói o "eu" ou produz distorções no "eu" que está se desenvolvendo.
  • Familiares críticos - Algumas famílias têm uma cultura muito crítica. Essa postura pode ser velada ou aberta, direta (dirigida para dentro dela mesma) ou indireta (críticas dirigidas a pessoas de fora).
  • Problemas familiares que causem vergonha - É comum as crianças ou adolescente sentirem-se envergonhados durante um processo de separação dos pais, por exemplo. Isso pode ser superado em pouco tempo ou pode permanecer como uma forma de auto-depreciação. Problemas familiares de outra natureza podem também causar esse dano.
  • Famílias afetivamente frias - Famílias que não exprimem os sentimentos ou os exprime muito pouco, principalmente os sentimentos de carinho e alegria pelas realizações de alguém do grupo. Elas podem contribuir indiretamente para a Timidez, na medida em que isso não ajuda a desenvolver uma percepção pessoal de capacidade de realização, de competência, de ser capaz de ser amado, de ser estimado, de ser respeitado pelos outros.

Experiências como essas desenvolvem percepções do "eu" como sendo frágil e sujeito a crítica dos outros.

Metodologia

Quanto aos Procedimentos Técnicos:

Os métodos aplicados no estudo em questão estão pautados no levantamento, pois a pesquisa envolve a interrogação direta das pessoas cujo comportamento se deseja compreender.

Grupos de Sujeitos/Amostra:

A amostra da pesquisa foi composta por quinze pessoas, divididas em três grupos de cinco pessoas. O primeiro grupo era constituído por cinco familiares de tímidos; o segundo, cinco indivíduos tímidos, com idade entre 15 e 25 anos; e o terceiro grupo, cinco pessoas aleatórias, sem qualquer relação direta com indivíduos tímidos. Dessa forma, se pode observar a timidez de três ângulos: dois participativos e um imparcial.

Instrumentos para Coleta de Dados

Como instrumento para a coleta de dados, utilizou-se a entrevista, já que esta permite um contato direto entre entrevistador e entrevistado, aumentando a pessoalidade da observação do objeto de estudo. Para melhor explorar o conteúdo em questão, foram utilizados três tipos diferentes de entrevistas, cada uma contendo 10 questões.

Local de Coleta de Dados

As entrevistas foram realizadas em locais aleatórios. 

Análise de Dados

Este tópico limita-se a representar a análise e discussão dos resultados obtidos a partir de uma pesquisa aplicada, qualitativa, exploratória de levantamento. A partir de entrevistas estruturadas feitas a15 pessoas (5 indivíduos tímidos, com idades entre 15 e 25 anos; 5 familiares de tímidos, com idades entre 17 e 45 anos e 5 pessoas aleatórias e imparciais, com idades entre 17 e 25 anos), todos da cidade de Teresina, pode-se perceber que os grandes responsáveis pelo desencadeamento da timidez, na maioria dos casos analisados, são as relações sociais do indivíduo tímido, bem como a aceitação  da sociedade frente a esse indivíduo e o modo como o tímido lida com o problema em questão. Criaram-se, então, 3 categorias, que se estruturaram da seguinte forma: Categoria A – As Relações Sociais, dividida em três subcategorias; Categoria B – A Percepção e Aceitação da Sociedade; e Categoria C – O Indivíduo Tímido e a Timidez.

Categoria A: As Relações Sociais

De acordo com os dados coletados, observou-se serem as relações sociais as principais responsáveis para o desencadeamento da timidez. Considerando a densidade do conteúdo inserido em tal categoria, tornou-se necessária a divisão desta nas subcategorias: Relações Familiares; Relações Escolares e Relações Afetivo-Amorosas.

Relações Familiares

A maioria dos entrevistados mostrou ter uma boa relação com os familiares, mas uma parte considerável afirmou ter problemas com um dos pais ou com os irmãos. Os principais problemas estavam relacionados à punição física e/ou não demonstração de afetos por parte dos pais.

De fato, meus pais são mais frios. Até hoje não demonstram tanto afeto. Quando a gente vai fazer algum carinho, já tem aquela trava. E o ser humano, de uma maneira geral, é carente. Na minha adolescência, eu fui bem maltratado. Minha mãe, ela era bem zangada. E, certa vez, lá na minha escola, eu me envolvi numa briga com um colega, e a diretora resolveu chamar minha mãe e a mãe dele. Só minha mãe me bateu. Ela me bateu tanto, me jogou na parede. E me batia e me esmurrava (F.C, 25 anos).

Para MIRANDA (2004), a punição física dos pais ou na escola, castigos, palmadas, surras, humilhações públicas, na infância e/ou adolescência, podem gerar ou alimentar a timidez. Em muitos de seus relatos, as pessoas tímidas falam de situações de desrespeito à sua dignidade.

Outro fator comentado com bastante frequência entre os entrevistados são problemas familiares que causem vergonha a esse indivíduo e que sejam do conhecimento dos outros; a tendência é que este indivíduo se torne cada vez mais retraído e procure menos o contato social.

O meu período de maior timidez coincide com a época em que eu descobrir e passei também a compreender que o meu pai era alcoólatra. Mais ou menos na faixa dos 12 anos, eu comecei a perceber essa situação. Porque quando a gente é criança, a gente não tem muita noção dessas coisas. Eu passei a me fechar. Antes eu gostava muito de brincar na rua, com meus amigos. Depois, eu fiquei meio com vergonha de que alguém descobrisse que eu tinha um pai alcoólatra. Me isolei mais (M.B, 15 anos).

Algumas pesquisas confirmam a tese de que a hereditariedade possa ser uma peça-chave no surgimento da timidez; pois mesmo que o ambiente ajude a determinar a identidade do indivíduo, é o fator hereditário o responsável por predispor esse indivíduo à timidez.

Praticamente todos os tios e tias dele, tanto por parte de mãe como de pai, são tímidos. O pai dele também é. Bastante. Eu sou um pouco menos, mas os outros são bem tímidos (E.B, mãe, 45 anos).

MIRANDA (2004) afirma que o fator genético é de extrema importância - pais tímidos tendem a ter filhos tímidos. A percepção depreciada de si mesmo o faz depreciar ou não confiar no filho.

Relações Escolares

Todos os entrevistados afirmaram ser o ambiente escolar a área de suas vidas em que a timidez se mostra mais presente. De acordo com as entrevistas, dentre os principais prejuízos causados pela timidez no âmbito escolar se encontram as dificuldades de apresentar seminários, de falar em público e de fazer amigos.

A apresentação de seminários é uma coisa que me pega muito. Eu não sou desenrolado, eu gaguejo muito. Eu me sinto ruim quando eu tenho que estar na frente dos outros, falar (F.S, 19 anos).

Segundo MIRANDA (2009), a escola é onde os acontecimentos têm muito eco na criança, e o mesmo se aplica a amigos e colegas. Até mesmo a ausência desse convívio pode pesar no autoconceito, pois a criança não desenvolve habilidade ou confiança para lidar com os outros.

Pelo que ela me fala, na escola em que ela estuda, ela não tem muitos amigos. Acho que porque ela quase não conversa com os outros alunos. A timidez atrapalha (R.A, namorado, 17 anos).

De acordo com PECORARA (2005), em geral, a timidez e a introversão são consideradas sinônimas, mas não é exatamente assim: o introvertido procura a solidão, mas, ao contrário do tímido, não teme o contato social. O tímido deseja a companhia de outros, porém considera-se incapaz de manter uma relação.

Relações Afetivo-Amorosas

Segundo os entrevistados, o âmbito afetivo também é bastante lesado por conta da timidez. Dentre os principais problemas se encontram: a dificuldade de debater sobre problemas no relacionamento, a falta de iniciativa no relacionamento e complicações ao tentar manter a relação.

No relacionamento com o sexo oposto, eu enfrento grandes dificuldades. Já chegou ao ponto de terminar uma relação por causa da minha timidez. E outras nem foi possível começar, porque eu não tive a iniciativa e não consegui dar andamento. Aí apareceu outra pessoa e a levou (F.C, 25 anos).

Para SCHUBERT (2009), a paquera é um fenômeno recente, e por isso, geradora de dúvidas e insegurança. Considerando-se que até meio século atrás se tratava de um luxo reservado para poucos, não é de se admirar que muita gente ainda encontre dificuldades, principalmente os tímidos.

Uma vez, tinha um menino que eu gostava e que ficava me telefonando e tudo. Ele tinha pego o meu número com uma amiga minha. Só que no dia de a gente se encontrar pessoalmente, eu até cheguei ao local, mas fiquei tão nervosa que acabei indo embora sem falar com ele. Deixei ele lá, esperando. Depois disso, nunca mais nos falamos. Acho que ele pensou que eu não gostava dele. (S.S, 20 anos)

Segundo afirma MIRANDA (2004), os sintomas psicológicos mais comuns são o medo de rejeição, pensamentos negativos sobre a situação e o seu próprio desempenho, perfeccionismo, crença de que o outro é demais para a pessoa e a crença de que não possui habilidades suficientes para conquistar o parceiro em questão.

Categoria B – A Percepção e Aceitação da Sociedade

Tomando-se por base os relatos dos entrevistados que representam a sociedade, pode-se perceber que a maioria afirmou que um indivíduo não nasce tímido, mas, sim, torna-se tímido.

Eu acho que é mais uma questão de adaptação. O ser humano ele é muito adaptativo. Então, o comportamento que ele tem é mais moldado. Isso pode começar, por exemplo, pela família, que não abrigou muito bem a criança e acaba influenciando no comportamento dela na escola. Acho que são vários motivos que contribuem pra essa timidez. Então, no caso, eu não concordo que isso tenha a ver com o nascer (L.G, 17 anos).

Segundo DEL PRETTE (2001), os principais contextos para o desenvolvimento das habilidades sociais são a família, a escola e o grupo de amigos. A família é o primeiro grupo social de que o indivíduo faz parte, oferece modelos de comportamento e modela a conduta social através de práticas disciplinares.

A visão dos entrevistados no que diz respeito às possíveis causas da timidez estão ligadas à educação recebida pelo indivíduo e ao modo como a sociedade o trata.

Eu acho que pais mais controladores acabam deixando seus filhos mais retrancados, Enquanto pais que dão mais liberdade deixam seus filhos mais livres. Existe também a questão do preconceito, da discriminação, que faz com que a pessoa passe a se sentir inferior (J.S, 22 anos).

DEL PRETTE (2001) afirma que os pais costumam funcionar como modelos, devendo estar sensíveis aos sinais emitidos pela criança, dando-lhes condições de obter êxitos em relação a seus comportamentos adaptativos. Devem ser organizadores de um sistema de regras que permitirão a adequação da criança ao mundo. Os irmãos têm outros papéis que possibilitam à criança a vivência de comportamentos diferenciados. Eles são a ponte entre a família e o mundo.

Quanto à aceitação pela sociedade, grande parte dos entrevistados diz tentar incluir o indivíduo tímido sempre que este se encontra em seu ciclo; porém, segundo os dados coletados, a sociedade ainda não está totalmente preparada para lidar com essa situação, já que o tímido, muitas vezes, apresenta resistência.

Tentar incluir, a gente tenta, mas realmente é algo muito difícil. Até porque a timidez se estabelece como um quadro crítico no relacionamento. E a indiferença acaba sendo a primeira coisa que você acaba caindo. Porque realmente é muito difícil você tentar. A escola também não se encontra estruturada pra receber o tímido. Pelo contrário, é lá onde ele sofre maior preconceito. Acho que a escola deveria se preparar com grupos de estudo, oficinas e outros tipos de atividades que visem a inclusão do tímido, de forma sutil (L.G, 17 anos).

Conforme defende THOMAS & GRIMES (1992), a escola deve oportunizar o contato social da criança com outros adultos significativos e com o seu igual, estimulando o exercício de novos papéis e habilidades e impondo novos desafios interpessoais. A escola tem o papel de estimular a autonomia, a capacidade crítica, a cooperação e outras habilidades sociais que compõem a vida em grupo.

 Categoria C – O Indivíduo Tímido e a Timidez

Observando a problemática do ponto de vista de quem a vivencia, o indivíduo tímido, pode-se perceber que este se sente vítima da coerção do ambiente escolar, quando esta o obriga a realizar determinadas atividades que o indivíduo acredita ser incapaz de fazer.

Eu não gosto quando sou obrigado a fazer coisas que eu não quero fazer. Seminário é uma coisa que eu não quero e sou obrigado a fazer. E me sinto muito intimidado. Acabo gaguejando, fico tímido (F.S, 19 anos).

A maioria dos indivíduos tímidos que formam a amostra desta pesquisa dizem se esforçar para mudar esta condição. Todos afirmaram receber apoio dos familiares e amigos, que lidam de maneira positiva com a situação, buscando a diminuição da timidez em questão.

Os meus amigos me incentivam, dizem pra eu me soltar mais, dialogar mais com os outro. Eu acho que eles até compreendem que eu sou tímida. Às vezes, eu até tendo mudar, mas, às vezes, eu deixo pra lá, porque eu já estou acostumada com esse meu jeito. Eu tento me entreter mais com as pessoas. Aí, tem vezes que eu desisto, porque eu desisto das coisas muito fácil (R.R, 18 anos).

Para CARDUCCI (2001), os tímidos estão efetivamente empenhados em superar a timidez. A estratégia mais utilizada é a 'extroversão forçada' (escolhida por dois entre três tímidos), que consiste em obrigar-se a freqüentar locais públicos e procurar a presença de outros. Um a cada quatro tenta superar o problema minimizando a suposta periculosidade das situações sociais, enquanto outros indivíduos buscam a saída em livros de auto-ajuda.

PECORARA (2005) afirma que ao contrário do que normalmente se pensa, os tímidos se esforçam para resolver o que consideram ser um problema. Ainda assim, nem sempre conseguem vencer a dificuldade de manter relações sociais e criar vínculos. Demonstram forte medo diante das diversas situações.

Quando interrogados sobre quais seriam as possíveis causas da timidez, grande parte dos indivíduos tímidos afirmou serem os problemas familiares vivenciados.

Acho que a sociedade influenciou para esse meu comportamento tímido, porque a família é uma unidade da sociedade. E os nossos pais influenciam diretamente e o alcoolismo por parte do meu pai também foi um ponto crucial pra determinar essa minha timidez (F.C, 25 anos)

Conforme consta em estudos de CARDUCCI (2001), as principais explicações dadas por pessoas tímidas sobre quais seriam as causas de seu modo de ser estão relacionadas aos "fatores familiares", que incluem, por um lado, o divórcio dos pais, violências familiares e adoção por uma nova família e, por outro, aspectos ligados à relação entre pais e filhos, como uma atitude super protetora ou excessivamente severa por parte dos pais (ou de um dos pais) ou a ausência destes.  

Considerações Finais

O presente trabalho teve como objetivo verificar a importância da sociedade na construção da identidade do indivíduo que sofre de timidez.  A análise de dados demonstrou que a sociedade é uma grande colaboradora para o desencadeamento da timidez.  A maioria dos entrevistados afirmou que acredita que a sociedade teve participação no desenvolvimento de sua timidez. Eles citam a família como grande influenciadora nessa questão. Alguns acreditam que os problemas familiares podem ter contribuído para sua timidez.

De acordo com o terceiro grupo do objeto de estudo, os entrevistados imparciais, o indivíduo torna-se tímido e isso se deve ao ambiente em que ele se encontra. Para a maioria, um ambiente repressor pode ajudar a desenvolver a personalidade tímida.  Os entrevistados acreditam que as críticas e a repressão por parte dos outros torna a pessoa tímida mais retraída e insegura. Os entrevistados crêem ainda que discriminação e preconceito também fazem  a pessoa se isolar.

Muitos dos entrevistados do terceiro grupo acreditam que uma pessoa tímida pode se tornar mais extrovertida. Segundo eles, para isso, elas precisam interagir mais com outras pessoas, conversando mais com os outros, não se isolando.

Outra questão discutida no trabalho foi o comportamento do individuo tímido no ambiente escolar. O Bullying Escolar, que se caracteriza por atos de agressão fisica e psicologica contra um indivíduo, atualmente é um assunto bastante discutido pela mídia.  O Bullying também pode ser um importante motivo para o desenvolvimento da timidez por parte de jovens e adolescentes. 

Na escola a timidez também prevalece. As maiorias dos entrevistados declararam que no ambiente escolar apresentam dificuldade de fazer amigos; de se expressar, falar em público e apresentar seminários.

Espera-se que esse trabalho tenha contribuído para o alargamento do tema timidez, para o conhecimento de um aspecto importante sobre ele: a relação entre sociedade e tímido. 

Sobre os Autores:

Laíla Gabriela Carvalho de Sousa - aluna do 4º bloco de Psicologia da Universidade Estadual do Piauí -  Campos Poeta Torquato Neto, Teresina-PI

Maralice Alves de Sousa - aluna do 4º bloco de Psicologia da Universidade Estadual do Piauí-  Campos Poeta Torquato Neto, Teresina-PI

Referências:

CARDUCCI, Bernardo J. Timidez. 1ª ed. São Paulo: Alegro, 2001.

DEL PRETTE, Z. A. P. e DEL PRETTE, A. Psicologia das habilidades sociais: Terapia e educação. Petrópolis (RJ): Vozes, 2001b.

LIMA, Lúcia; MARTINS, Graça. Da Timidez à Ansiedade Social: Um estudo Cognitivo Comportamental. João Pessoa, 2005, 76 páginas. Monografia (Especialização em Psicologia Cognitivo-Comportamental). Faculdades Integradas de Patos. Disponível em: http://www.gracamartins.com.br/monografias/Timidez.pdf. Acesso: 20 de setembro de 2010, às 03h47min.

MIRANDA, Ruy. Punição física, uma possível causa da timidez. São Paulo: FTD, 2004. Disponível em: http://www.timidez-ansiedade.com/art/timidez/castigo-fisico.htm

NARDI, Antonio Egídio TRANSTORNO DE ANSIEDADE SOCIAL: Fobia social, a timidez patológica. Rio de Janeiro: NEDSI-Editora Médica Científica, 2000.

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