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Resumo: A psicologia organizacional se caracteriza como uma subárea da ciência psicológica com o intuito de atuar de forma interdisciplinar no comportamento humano no âmbito das relações das pessoas com as organizações através da compreensão dos fenômenos psicológicos. Este artigo objetiva apresentar uma revisão teórica sobre a inserção do psicólogo no campo organizacional, levantando um breve histórico sobre essa profissão e intervenções realizadas, bem como conhecer o papel do psicólogo nas organizações e empreender uma discussão sobre a mera aplicação de técnicas nesse contexto e a proposta de ser um agente de transformação social nas empresas. A partir desse contexto, conhecer princípios e métodos de atuação contemporâneos na leitura dos fenômenos psicológicos. É necessário que os profissionais reconheçam as variáveis de crescimento da área a fim de que possam melhorar a qualidade na sua atuação, desse modo, a realização de pesquisas sobre o tema é relevante para auxiliar na atualização, capacitação e formação profissional da psicologia científica.

Palavras-chave: Psicologia Organizacional, Atuação Profissional, Fenômenos psicológicos

Considerações Iniciais

O trabalho dá sentido à existência do homem, é através do trabalho que o indivíduo constrói os bens necessários para a sua própria sobrevivência e é capaz de mostrar suas habilidades, aptidões, qualidades. No contexto contemporâneo, as relações humanas e interpessoais encontram-se permeadas pelas ocupações, logo, o mercado encontra-se altamente competitivo, o que exige mão de obra diferenciada. Nesse ponto, a psicologia ganha destaque como uma área que objetiva promover qualidade nas organizações, bem como nas pessoas.

Sabe-se que a ciência psicológica, como atividade profissional, possui grande respaldo e foco de reconhecimento nas práticas clínicas, porém, embora historicamente o psicólogo brasileiro tenha nesse campo a maior área de atuação e reconhecimento social, uma pesquisa do Conselho Federal de Psicologia realizada em 1988 colocava a Psicologia organizacional como a segunda maior área de atuação dos profissionais. Em 2000, a prática denominada organizacional ou do trabalho foi tida como 3ª área de atuação, com 12,4% de profissionais (WHO & CFP, 2001).

Desse modo, pesquisas desse nível demonstram que a psicologia organizacional ocupa um importante espaço como subárea da ciência psicológica e que suas práticas nesse contexto justificam uma necessidade de investir em maiores pesquisas.

A psicologia organizacional é uma área que ainda está em construção e caminha para encontrar seu próprio caminho e consolidação, tendo em vista que sua impulsão provém do interesse em possibilitar o resgate da dignidade humana e uma qualidade de vida  de para ser humano no âmbito de suas relações organizacionais e interpessoais. O seu objeto de investigação científica deve estar claro e, sobretudo, atuar no desenvolvimento de uma prática ética baseada no respeito ao indivíduo.

Breve Histórico sobre a Psicologia Organizacional

De acordo com Schein (1982), a psicologia organizacional pode ser reconhecida como um campo de atuação interdisciplinar que procura compreender os fenômenos organizacionais que se desenvolvem em torno de um conjunto de questões referentes ao bem-estar do indivíduo, já que, de acordo com o autor, as organizações são sistemas sociais complexos.

No que tange à evolução dessa área, pode-se considerar que seu desenvolvimento se deu a partir do século XIX. No início, esse trabalho teve o nome de Psicologia industrial, tendo em vista que buscava estudar o comportamento das pessoas relacionado com a sua produtividade a fim de aplicar conhecimentos para a solução de problemas nesse contexto.

Conforme Ghiraldelli (2000), com o advento da globalização e em razão do vínculo estreito com as atividades administrativas, a Psicologia organizacional e do trabalho (POT) passou por várias transformações em busca do desenvolvimento da produtividade do trabalhador e do seu bem-estar. Atualmente, os profissionais da referida área caminham para uma atuação psicossociológica, orientados por uma visão ampla e dinâmica da organização dentro da sociedade.

Desde o seu surgimento, a prática em psicologia organizacional passou por modificações, e embora pareça não haver consenso entre os autores sobre as terminologias utilizadas, é notável que houve uma ampliação no espectro de sua atuação.

Assim, a princípio existiu o psicólogo industrial que teve foco somente no recrutamento e seleção, utilizando especialmente os testes psicológicos, dando foco somentepara à produtividade, enquanto as relações interpessoais entre os funcionários não era levada em consideração. Nos tempos atuais, esse profissional visa compreender o sujeito em seu ambiente de trabalho e resgatar a dignidade humana nessas relações.

A psicologia organizacional surge no Brasil como uma tentativa de racionalização e a procura de um caráter científico e inovador no controle dos processos produtivos, no contexto das idéias da administração científica de Taylor. Leon Walther traz para o Brasil a psicotécnica, os cursos e a primeira aplicação de testes ocorreram em 1924 no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo. A aplicação desses testes para selecionar empregados expandiu-se, principalmente nas empresas ferroviárias (ZANELLI et al, 2004).

O Papel do Psicólogo nas Organizações

A inserção do psicólogo do contexto organizacional, remonta ao desenvolvimento da própria construção da psicologia no Brasil. Esse movimento ainda é recente e está se construindo para garantir o reconhecimento social, porém, abrange muitos questionamentos sobre sua denominação, as atividades realizadas e a competência desse profissional.

De acordo com MARQUES (1994) a identidade de um psicólogo clínico define-se pelo domínio de teorias, técnicas e métodos compatíveis entre si, cujo o objectivo é tentar atingir a “verdade” psicológica do sujeito observado para se poder, directa ou indirectamente, encetar um processo de intervenção.

Conforme (CAMPOS et al 2011) o papel do psicólogo dentro das organizações é atuar como facilitador e conscientizador do papel dos vários grupos que compõem a instituição, considerando a saúde e a subjetividade dos indivíduos, a dinâmica da empresa e a sua inserção no contexto mais amplo da organização.

Schette (2005) expõe algumas atribuições do psicólogo tais como, seleção, treinamento, desenvolvimento de pessoal, avaliação de desempenho, estudo da formação e funcionamento de grupos, estilos de liderança, comprometimento com os objetivos organizacionais, padrões de comunicação, etc. Inclui ainda aconselhamento psicológico, desenvolvimento organizacional por meio de diagnóstico de problemas e planejamento de mudanças e ainda atuação no âmbito da legislação trabalhista e relação com sindicatos intermediando os conflitos.

Psicologia Organizacional: aplicação de técnicas ou transformação social?

As diversas e rápidas transformações que as organizações e as sociedades sofreram desde o final do século XX têm exigido dos profissionais de psicologia uma maior disposição, no que concerne a capacidade de gerenciamento de pessoas, de facilitadores de mudanças, bem como de promotores de melhor qualidade de vida.

O psicólogo organizacional não pode mais continuar sendo um mero aplicador de técnicas, outrora aprendidas na graduação, que possibilitam apenas lidar com o ser humano como um ser isolado, dotado de deficiências e potencialidades. Ele precisa compreender ohomem como um ser social, em constante interação com o meio, um ser que se constitui nas relações que estabelece e nas atividades que executa (AZEVEDO, BOLOME, p.2, 2001).

O psicólogo organizacional ainda está um pouco distante do papel de agente de transformação social, tendo em vista que sua prática ainda está muito limitada, seja pelas organizações, seja por limitações pessoais. Nesse sentindo, para que haja um profissional transformador social é necessário que seja levado em consideração a resolução dos fenômenos psicológicos e organizacionais em sua complexidade com o objetivo de resultar em uma possível ação transformadora.

De acordo com Zanelli (1994), o psicólogo como agente de mudanças "deve estar preparado para discutir o referencial científico-metodológico que sustenta sua prática e os resultados que obtém, mas preparado também para discutir os valores que sustentam diferentes direcionamentos do trabalho" (p. 184).

Considerações Finais

Com base nos estudos revisados fica claro que a Psicologia Organizacional é uma área em ascensão no Brasil, pois abre caminhos para uma nova possibilidade de atuação e prática do profissional de Psicologia. Nesse aspecto, é uma prática que se propõe em possibilitar qualidade de vida nas relações interpessoais no trabalho através de uma atuação interdisciplinar pautada no resgate à subjetividade do indivíduo. Esse artigo se fundamenta a partir de uma revisão teórica sobre a atuação do psicólogo organizacional, suas práticas e funções. Espera-se que esse material sirva de subsídio para pesquisas e produção de conhecimento científico, bem como para motivação de estudos empíricos com temas semelhantes.

Sobre o Autor:

Alex Barbosa Sobreira de Miranda - Departamento de Psicologia. Faculdade de Ciências Médicas. Universidade Estadual do Piauí (UESPI). Teresina, PI, Brasil.

Referências:

AZEVEDO, Beatriz Marcondes de; BOLOME, Sílvio Paulo. Psicólogo Organizacional: aplicador de técnicas e procedimentos ou agente de mudanças e de intervenção nos processos decisórios organizacionais?. Rev. Psicol., Organ. Trab.,  Florianópolis,  v. 1,  n. 1, jun.  2001 .   Disponível em http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-66572001000100008&lng=pt&nrm=iso.

CAMPOS, Keli Cristina de Lara et al. Psicologia organizacional e do trabalho - retrato da produção científica na última década. Psicol. cienc. prof.,  Brasília,  v. 31,  n. 4,   2011 .   Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932011000400004&lng=pt&nrm=iso.

Schein, E. H. (1982). Psicologia organizacional. Rio de Janeiro: Prentice-Hall do Brasil.   

SCHETTE, Fátima Rosely. O papel da psicologia no desenvolvimento de líderes organizacionais segundo psicólogos e líderes. Campinas, 2005. Tese de Doutorado.Programa de Pós-graduação em Psicologia – Centro de Ciências e Vida – PUC –Campinas. 182p.

Ghiraldelli Jr., P. (2000). As teorias educacionais na modernidade e no mundo contemporâneo: humanismo e sociedade do trabalho. In P. Ghiraldelli Jr. Didáticas e teorias educacionais. (pp. 15-38, O que você precisa saber sobre didática e teorias educacionais). São Paulo: DP&A.         

MARQUE, M.E. Do desejo do saber ao saber do desejo: contributos para a caracterização da atuação projectiva. Análise Psicológica, 1994.

WHO Instituto de Pesquisa de Opinião e Mercado & Conselho Federal de Psicologia. (2001). Pesquisa de Opinião WHO – Quem é o psicólogo brasileiro. Recuperado em 29 setembro 2009 de http://www.pol.org.br/pol/export/sites/default/pol/publicacoes/publicacoesDocumentos/Pesquisa_WHO.pdf.         

ZANELLI, J Carlos; et al. Psiclogia, Organizações e Trabalho no Brasil. Porto Alegre: Artmed, 2004.

ZANELLI, J. C. O psicólogo nas organizações de trabalho: formação e atividades profissionais. Florianópolis: Paralelo 27, 1994.