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Resumo: O ciclo da vida é constituído pelo nascimento, crescimento, reprodução e morte. Esses eventos são naturais e próprios para a construção da vida humana. Para algumas pessoas esses processos evolutivos não seguem iguais para todos, existe uma especificidade de se colocar diante dos problemas e saber enfrentá-los é a questão primordial. A morte é vista sob diversos contextos cultural, social, familiar e vem para cada um de acordo com sua posição frente ao mundo; o lidar pode estar definido ou causar outros comportamentos adversos. Lidar com a morte é um fenômeno sofrível e algumas pessoas não estão preparadas para esse enfrentamento em questões não definidas.

Palavras-Chave: Morte, Doença, Enfrentamento, Sofrimento Psíquico.

1. Introdução

Como seres superiores de todas as condições de vida na biosfera, o homem é aquele que tem o privilégio de comunicação plena de sua raça, pois possui a capacidade de discernimento e dotado dos sentidos como norteadores de escolhas. As sensações, percepções, pensamentos nos permitem a todo o momento um comportamento e novas posturas diante dos desafios, permitindo assim outras mudanças.

Contextualizar sobre a vida é algo que todos nós podemos compreender na nossa trajetória como ser humano, no entanto nosso ciclo vital passa por processos que vai desde a concepção, nascimento, desenvolvimento e consequente morte. Todos esses fenômenos são inerentes a nossa vida cotidiana, mas para alguns indivíduos esses processos podem ser percebidos como fatores comuns, falam abertamente e não incomodam já outros sequer cogitam a ideia de morte, não quer chegar a finitude.

Nossa reação perceptiva diante do que não sabemos ou conhecemos causa estranheza e muito nos faz refletir se podemos ou devemos ocultar tal pensamento. O tema sobre morte e morrer requer seriedade, ética e respeito diante dos valores pessoais, familiares e culturais. O indivíduo se projeta diante da vida no antes e depois, por conseguinte na angústia de seu sofrimento que ora está no processo do adoecimento e morte.

Diante do sofrimento da doença orgânica o indivíduo não deixa de ter sua subjetividade, ela está atuando a plena capacidade e até mesmo mais atuante que antes, somente num estágio como o enfrentamento da doença é que se dá conta de tantas etapas da vida deixaram de ser valorizadas, no entanto não havia uma patologia. Esse questionamento está dentro da normalidade que o indivíduo vivencia, pois o colocam diante de sua real condição de pulsão de vida e morte, as instâncias psíquicas estão plenamente em conflito sobre tal questão. Enquanto a atenção lhe é dada, pela escuta, o indivíduo deixa fluir seu apelo à vida enquanto tem consciência que pode ser tarde demais.

Uma vez que o fim está próximo à capacidade de contingência nesse conflito entre viver e o morrer pode ser suplementado por uma força incomum diante da fragilidade humana. Para alguns indivíduos poderá ocorrer uma nova representação em simbolizar uma forma mais elaborada e compreendida que não ter como reverter à situação.

2. Sobre a Morte e o Morrer

2.1. Sobre o temor da morte

A morte suscita um questionamento e traz muitas questões acerca do enfrentamento da finitude. A morte é uma consequência natural da vida, faz parte do

ciclo vital que todos os seres enfrentam, sejam a raça humana ou outro tipo de vida. Não podemos escapar dessa etapa do nosso ciclo de vida, mas para algumas pessoas o fato de apenas citar o questionamento já causa desconforto, luta ou fuga. Para que o indivíduo possa assimilar entre sua real situação com um fato novo que lhe tira a plenitude é desconfortante e causa temor, medo e mudança de comportamento.

“Do ponto de vista psiquiátrico, isto é, bastante compreensível e talvez explique melhor pela noção básica de que, em nosso inconsciente, a morte nunca é possível quando se trata de nós mesmos. É inconcebível para o inconsciente imaginar um fim real para nossa vida na terra e, se a vida tem um fim, este será sempre atribuído a uma intervenção maligna fora do nosso alcance.” (KÜBLER-ROSS, 1996 p. 14).

Podemos perceber que a ideia de morte na leitura da psiquiatria nossa instância psíquica não concebe vislumbrar um parecer final sobre o fim da vida. È algo inerente que não nos pertence, mas que está presente a todo o momento. Associar uma vida que usufruímos em sua plenitude e em seguida nos depararmos com algo que nos tira o sentido da vida, causa estranheza e repúdio. Assimilar e aceitar essa verdade são algo que desmonta tudo que foi construído diante de nossa vivência.

“A necessidade humana de se explicar, de saber sua origem e de tentar desvendar qual será o seu destino após a morte faz com que seja buscado e teorizado sem nenhum parâmetro de aceitação em contradições a tais princípios e buscas”. (CAMOM, 2008, p. 04).

A autora fala nesse capítulo sobre diversas formas de temores acerca da morte, citando exemplos de como chega essa realidade para as pessoas. Um fato curioso que nos chamou atenção, de um senhor fazendeiro que sofreu uma queda e pediu para morrer em casa. É um exemplo bastante claro de aceitação, pois a atitude diante do fato põe a pessoa acerca do seu fim, dando-lhe a oportunidade de distribuir entre os seus a partilha de bens e responsabilidades, com isso, ele “pode” morrer em paz. É curiosoporque de imediato decidiu dar as ordens, pois seu fim chegou e não quer “partir” sem que tivesse cumprido sua missão. Esse fato foi vivenciado pela autora quando ainda era criança e não foi esquecido, na atualidade não se tem mais esse ritual.

“Morrer se torna um ato solitário e impessoal porque o paciente não raro é removido de seu ambiente familiar e levado às pressas para sua sala de emergência. Qualquer um que tenha estado muito doente e necessitado de repouso e conforto se lembrará de ter sido posto numa maca sob o som estridente da sirene, e da corrida desenfreada até de abrirem as portas do hospital”. (KÜBLER-ROSS, 1996 p. 20).

Estar doente significa já um estado de vulnerabilidade, e quando não há um tratamento mais humanizado o indivíduo se vê a sós diante do seu sofrimento e enfrentamento de sua patologia, no tocante a gravidade dos casos citados pela autora, os pacientes entrevistados no hospital e os estados de saúde com grave agravamento e alguns em estado terminal, só resta o conformismo e abandono, pois vai perdendo sua identidade e já não lhe é concedido o direito de opinar.

Nesse processo o paciente está sofrendo mais pelo que ainda pode ser feito por ele, e afinal o hospital está ali exatamente para essa função, o alívio da dor orgânica, pois o sofrimento psíquico, esse não poderá ser mensurado, é o momento da vivência que se dá ao paciente, qual sua postura frente à doença e como ele lida com esse temor de morte. Essa questão é permeada de um imenso anseio de luta, para alguns pode ser mais aceito, para outros paciente pode ser extremamente sofrível e inaceitável.

2.2 Atitudes diante da morte e do morrer

Nesse tópico a autora traz uma questão que envolve a sociedade numa contribuição defensiva. Trazendo para essa vertente podemos perceber o quanto ainda é um tabu se falar abertamente sobre morte e quais contribuições pode surtir. É um tanto pesado falar sobre a contribuição da morte, mas embora com todo o respeito que o assunto emerge, é possível sim fazer várias leituras acerca. As pessoas estão mais habituadas a planejamentos futuros, planos para uma velhice tranquila, vários métodos para prolongar a juventude.

Estamos no convívio social da medicina estética corretiva, preventiva e curativa, mas deixamos de lado alguns aspectos subjetivos como a nossa finitude. Não existe uma cultura onde se trabalha nosso deixar de existir. É nossas projeções perpetuar nossos genes para a posteridade, e, isso se faz através de nossos descendentes, mas que no fundo ocultamos o medo da morte. A ciência moderna já usa técnicas avançadas como a clonagem de células tronco para prevenção de doenças e até retardar a morte.

Notadamente o termo usado nesse livro sobre a morte, nos dá uma visão global da morte, pois o fato é que não acontece apenas pelo fato do adoecimento, mas pelas circunstâncias que se dão. Vejamos a problemática de ataques suicidas planejados por grupos e facções islâmicas pelo mundo a fora, esse forma de aniquilamento é um fato em si, ocasiona a vida que é tirada de pessoas que não deveriam ter morrido naquela circunstancia, mas aconteceu. Outro fato bastante comum são as guerras onde milhares de combatentes perdem suas vidas, movidos por uma ideologia da pátria a que serviu.

“Contudo”, podemos aceitar a morte do próximo, e as notícias do número dos que morrem nas guerras, nas batalhas e nas autoestradas só confirmam a crença inconsciente em nossa imortalidade, fazendo com que – no mais recôndito do nosso inconsciente – nos alegremos com um “ainda bem que não fui eu”. (KÜBLER-ROSS pag. 26, 1996).

Uma vez que não se pode fugir do fato em si, existe a luta pela rejeição ao concreto, então os indivíduos burlam suas frustrações a outros desafios, tentando suprimir esse medo que aterroriza e nos põe em tensão por não querer aceitar o fato. Esses acontecimentos podem acontecer por exatamente não sabermos lidar com uma certeza, mas que os comportamentos que a sociedade demonstra através da violência desenfreada, por inúmera e crescente incapacidade de saber lidar com as adversidades, inconscientemente cresce o número estatístico da violência urbana.

Nesse contexto podemos perceber o papel da religião e sua função na vida dos indivíduos; em tempos não muito distantes, as pessoas tinham mais voltados suas atitudes e condutas mais arraigadas e incondicionadas a fé em Deus, com isso acreditavam que ao morrer tinha certeza que encontraria uma vida futura, aliviando assim dor e sofrimento, era como se a morte lhe fosse como um prêmio pelos sofrimentos na terra. Essa fé nos dias atuais está cada vez mais afastada desses preceitos cultivados pelas pessoas mais velhas. Atualmente, percebemos que o prolongamento da vida se dá através de equipamentos muito sofisticados onde uma pessoa acometida de uma patologia pode permanecer por anos ligados a uma máquina, retardando sua vida e na confiança da medicina e de seus familiares um restabelecimento, como também a religiosidade e a fé no poder da cura.

Primeiro estágio: negação e isolamento

Diante do quadro que se apresenta de um diagnóstico o paciente busca não compreender o que está acontecendo e numa postura de negar sua condição, burla a verdade de forma a não aceitar um diagnóstico. Suas atitudes são de novo diagnósticas, pois busca resposta que anulem a primeira e sufoquem uma angústia desnecessária. Quando da confirmação novamente busca outra saída na esperança de uma nova interpretação.

Comumente a negação é uma defesa temporária, sendo logo substituída por uma aceitação parcial. A negação assumida nem sempre aumenta a tristeza, caso dure até o fim, o que, ainda, considero uma raridade. (KÜBLER-ROSS pag. 26 1996).

Segundo estágio: a raiva

Nesse momento o paciente já um tanto sofrido pela busca de compreender e entender sua patologia, começa a substituir seu sentimento de negação pela raiva. Vários são os questionamentos do porque aconteceu uma fatalidade dessas, e se manter firme diante de um quadro agressivo da doença não é fácil. Uma vez acometido, sua postura para o enfrentamento bem como seus familiares torna penoso o reconhecer-se doente e muitas vezes o paciente não tem expectativas quanto sua cura e passa a negligenciar a presença dos mesmos.

Quando dos momentos de rejeição mesmo sendo o tratamento adequado para prolongá-lo da vida, o paciente reage com agressividade aos médicos, equipe de enfermagem e mesmo os familiares, pois esse tipo de comportamento para o paciente na sua visão de ser doente já não faz tanto sentido, afinal ele sabe que seu fim está próximo.

Outro estágio pelo qual o paciente vivencia é o da barganha. Neste, há uma adiamento do sofrimento através do “bom comportamento”, com o intuito de receber uma premiação. Por exemplo, um paciente em estado terminal deseja visitar um amigo. Então ele se comporta bem, toma todos os medicamentos e depois pede ao médico que o deixe ir ver o tal amigo. Na maioria das vezes, a equipe do hospital acaba cedendo, porém o paciente não deixa de pedir novamente se outra vez quiser visitar alguém. É a chamada “promessa implícita!”. Diante da situação, ele faz a promessa de que esse é o último pedido, todavia nunca obedecerá. A maior parte das barganhas é feita com Deus, em segredo e indica uma realização de uma meta auto-imposta a ser cumprida.

Psicologicamente, as promessas podem estar associadas a uma culpa recôndita. Portanto, seria bom se as observações feitas por esses pacientes não fossem menosprezadas pela equipe hospitalar. (KÜBLER-ROSS pag. 97, 1996).

Um estágio bastante conhecido principalmente quando o paciente encontra-se em fase terminal é a depressão. Há dois tipos de depressão: a que o paciente geralmente reage, quando pensa em tudo o que fez ou deixou de fazer, pensa nas pessoas de que gosta ou não, pensa nos amigos e na família que tem que deixar, aumentando a sua tristeza e o seu sentimento de culpa; e a que o paciente tem de se submeter para se preparar para a morte. Este último tipo de depressão leva em consideração perdas iminente, ou seja, perdas imediatas, diferente do primeiro tipo que aborda perdas passadas.

Não seria bom se em um paciente que estivesse se preparando para a morte fosse encorajado a ver o lado bom das coisas, mas sim ouvido, pois geralmente ele quer se comunicar, falar o que sente e perceber que é ouvido. Ele tem que exteriorizar o seu sofrimento para que, desse modo, haja um alívio e certo agradecimento por parte dele.

É esta a hora em que o paciente pede para rezar, em que começa a se ocupar com coisas que estão a sua frente e não com as que ficaram para trás. É a hora em que a interferência excessiva de visitantes que tentam animá-lo retarda sua preparação emocional, em vez de incentivá-la. (KÜBLER-ROSS pag. 101-102, 1996).

Talvez se a equipe toda tivesse essa visão, ajudaria mais no apoio ao paciente neste estado. Ele poderia descansar e morrer tranquilo.

Deveriam saber que este tipo de depressão é necessário e benéfico, se o paciente tiver de morrer num estágio de aceitação e paz. Só os que conseguiram superar suas angústias e ansiedades são capazes de alcançar este estágio. Se esta angústia pudesse ser dividida com seus familiares, seria evitada muita angústia. (KÜBLER-ROSS pag. 102, 1996).

Por outro lado, aquela pessoa que foi acolhida, entendida, que recebeu ajuda para superar seu estado, bem como foi preparada para o que vier mais à frente vai atingir o estágio da aceitação. Nele, não haverá mais raiva, nem depressão, pois se entende que ele já foi ouvido, já entendeu sua situação, já não pode mais ir contra seu destino. Todos os sentimentos supõe-se que já externalizou, então agora só apresenta expectativas. Não significa ser certo tipo de felicidade, mas uma fuga de sentimentos (KÜBLER-ROSS, p. 126, 1996).

Esse é um período em que se deve apoiar a família, sempre a compreendendo e ajudando no que precisar. Geralmente o paciente quer ficar só, sem conversar, o que deve ser respeitado. Há pacientes em que este tipo de estágio não ocorre, devido a não aceitação da doença, então eles começam a lutar e se debaterem e a se agarrarem a esperança. (KÜBLER-ROSS, p. 127, 1996).

A maioria das pessoas pensa que este tipo de paciente pode realmente melhorar se lutar e resistir. Geralmente isso acontece pela própria não aceitação da família ou dos amigos, que o encorajam a lutar, pois desistir e aceitar são duas ações covardes. Porém, não se saber ao certo se isso é o melhor para o paciente ou se o melhor seria deixá-lo partir.

Enfim, não deveríamos menosprezar que o paciente guarde uma tênue esperança de cura diante da morte iminente. [...] não está na natureza humana aceitar a morte sem deixar uma porta aberta para uma esperança qualquer.
Portanto, não basta ouvir somente as comunicações verbais de nossos pacientes. (KÜBLER-ROSS pag. 130, 1996).

Depois de todos esses estágios pelos quais o paciente enfrenta, a única coisa que está direto no imaginário daquele paciente é a esperança. É ela que percorre intacto todo o caminho do paciente, desde a descoberta da doença até a sua morte. Mesmo os que aceitaram seu destino, não perderam de forma alguma a esperança, seja na esfera espiritual, seja na esfera científica.

É essa esperança que vai sustentar todo o sofrimento sentido pelo paciente, bem como todo o tratamento realizado pela equipe técnica para o mesmo. Desse modo, ele pode até se submeter a servir de cobaia, caso haja descoberto algum tipo de cura.

Não importa o nome que tenha,; descobrimos que todos os nosso pacientes conservaram essa sensação que serviu de conforto em ocasiões especialmente difíceis; [...]. Mantínhamos com eles uma esperança firme, que não lhes era imposta, quando finalmente desistiam sem desespero, mas num estágio de aceitação final. (KÜBLER-ROSS pag. 153, 1996).

É importante notar que vários pacientes, através desse sentimento, conseguem se recuperar ou pelo menos adiar sua morte, o que acarreta em uma aceitação melhor, pois vai ter mais tempo para passar pelos estágios anteriores. Muito ajudaria se as pessoas conversassem mais sobre a morte e o morrer, como parte intrínseca da vida, do mesmo modo em que não temem ao falar no nascimento de um bebê. (KÜBLER-ROSS pag. 155, 1996).

A contribuição da Psicologia para com o doente em fase terminal é de suma importância, visto que sendo ele o profissional da escuta saberá acolher a expressão das dores pelas quais passa o paciente, sejam elas em relação à doença, seja em relação a algo mal resolvido, sejam temores, planejamentos para o pós-morte ou outros. O Psicólogo também poderá ajudar a família e a equipe de saúde a compreender a importância da fala do paciente nessa sua fase final evitando assim, que o mesmo seja negligenciado em relação à escuta.

A segunda qualidade da consulta psicológica é a sua permissividade em relação à expressão de sentimentos. O cliente, através da aceitação pelo psicólogo do que diz da completa ausência de qualquer atitude moralista ou judicativa, da atitude compreensão que impregna toda a entrevista, acaba por reconhecer que todos os sentimentos e atitudes podem se exprimir. Nenhuma atitude é demasiado agressiva, nenhum sentimento demasiado culpado ou vergonhoso para não ser expresso na relação. O ódio pelo pai, sentimentos de conflito devidos aos impulsos sexuais, remorso por atos passados, repugnância em vir pedir ajuda, hostilidade e ressentimento para com o terapeuta, tudo isso pode se exprimir. (ROGERS, 2005, pág. 88).

A proximidade para com a morte pode trazer sofrimento psíquico para o paciente e seus familiares pelo fato de não se ter clareza do que ocorre após o término do ciclo vital, tudo isso parece incerto e inseguro, por se encontrar numa situação de vulnerabilidade e em local insalubre, como hospitais.

Aquele que sofre profundamente, encerrado de alguma forma em seu sofrimento, lança um olhar gélido para fora sobre as coisas: todos esses pequenos encantamentos enganadores em que habitualmente se movem as coisas, quando são olhadas por alguém saudável, desaparecem para ele: ele permanece envolto em si, sem encanto e sem cor.” (NIETZSCHE, 2008, p. 113).

A morte para a cultura ocidental é vislumbrado um fim, é como se houvesse uma completa perda de tudo que dissesse respeito à vida, uma quebra total dos laços parentais, de amizade, etc. De forma que o assunto torna-se tão horroroso que se evita falar dele, falar é como se atraísse a morte e, portanto é melhor nem citá-la. Sendo assim, evita-se tratar do assunto e vão sendo criados conhecimentos superficiais em torno do caso. É certo que é o encerramento do ciclo vital, porém, essa finitude terrena, que é tão certa, pode ser discutida e trabalhada para que os mitos se dissipem.

Alguns, absorvidos pelos sofrimentos tomam atitudes positivas frente à vida, no sentido de se desfazer de preconceitos, pensar em reconciliação, valorizar coisas simples, etc. “Onde você vê a morte, alguém vê o fim e o outro vê o começo de uma nova etapa [...]”. (autor desconhecido, ND).

Quando se contempla a finitude por conta de doenças, idade avançada ou perda dos amigos ou em situações de grande perigo muitas vezes lança-lhe um olhar mais valorativo sobre a vida e questiona coisas, como: Para que orgulho? Para que acúmulos? Isso, porém, é relativo, depende das subjetividades envolvidas. Quando a experiência é mesmo de morte, de finitude esperada, é necessário a pessoa ultrapassar todas as fases (negação, isolamento, raiva, barganha, depressão) até chegar à aceitação e assumir com tranquilidade a vivência.

Tome qualquer emoção: amor por uma mulher, sofrimento por um ente querido, ou isso por que estou passando, medo e dor causados por uma doença mortal. Se você bloquear suas emoções, se não se permitir ir fundo nelas, nunca conseguirá se desapegar estará muito ocupado em ter medo da dor, medo do sofrimento. Terá medo da vulnerabilidade que o amor traz com ele. - Mas atirando-se a essas emoções, mergulhando nelas até o fim, até se afogar nelas, você as experimenta em toda a plenitude, completamente. Saberá o que é dor. Saberá o que é o amor. Saberá o que é sofrimento. Só então poderá dizer, “muito bem, experimentei essa emoção. Eu a reconheço. Agora preciso me desapegar dela por um momento”. (MITCH, 1997, p. 103).

As doenças alteram a vida familiar, podem aparecer ressentimentos por conta das novas adaptações, como a mulher assumir negócios, dívidas, etc. Porém, é importante que as pessoas prossigam com suas vidas, que saibam cuidar de si e não se escravizem a rotina que se instala. “Não interrompam suas vidas – disse-lhes ele. – Se interromperem, essa doença terá arruinado três pessoas, em vez de uma”. (MITCH, 1998, p. 93).

As experiências têm mostrado que as pessoas com doenças graves não querem interromper o andamento da vida dos familiares, nem serem tratadas com indiferenças, com omissões e faz-de-conta. Albom apud Morrie (1998, p. 20) “disse aos amigos que, se quisessem mesmo ajudá-lo, não o tratassem com pena, mas com visitas, telefonemas, dividissem com ele os seus problemas, como sempre tinham feito”.

É muito importante a presença dos familiares quando o paciente está enfermo, visto que o amor, o zelo, o cuidado, revigora as forças do paciente e torna suportável a experiência do morrer. Os parentes e amigos costumam olhar a pessoa e não somente a doença, esta é o foco de muitos profissionais, que deixam de enxergar a pessoa que está doente e veem somente a sua enfermidade.

Se não levarmos devidamente em conta a família do paciente em fase terminal, não poderemos ajudá-lo com eficácia. No período da doença, os familiares desempenham papel preponderante, e suas reações muito contribuem para a própria reação do paciente. (KLÜBER-ROSS, 1996, p. 171).

O desamparo dos pacientes em fase terminal nos hospitais, bem como, de seus familiares conduz a reflexão sobre a humanização. O trabalho técnico e o convívio constante com dores e perdas naturalizam os acontecimentos, tal como ocorre com a percepção das pessoas perante aqueles que dormem nas ruas e mendiga o pão, quase ninguém mais se angustia, ocorre uma habituação com aquela realidade, de forma que não se tem sobre ela visão crítica, nem tampouco humanizada. “A situação de hospitalização passa a ser determinante de muitas situações que serão consideradas invasivas e abusivas na medida em que não respeitam os limites e imposições da pessoa hospitalizada”. (CAMON, 2010, p. 3).

As mortes por suicídio, por crimes, por problemas cardíacos, por doenças avassaladoras pegam as pessoas de surpresa e deixam uma dor muito mais profunda, como se a morte não tivesse dado tempo da pessoa se reconciliar com a pessoa que

partiu. “Creio que há uma grande diferença entre a morte lenta de um ente querido, com tempo suficiente para que ambos os lados se preparem para a dor final, e um telefonema apreensivo: “Aconteceu, está tudo acabado”.” (KLÜBER-ROSS, 1996, p. 186).

Muitas exortações existem no sentido de que a vida deve ser vivida em plenitude todos os dias. Há quem viva do passado, há quem viva para o futuro, mas o certo é que o presente é o menos valorizado e quando se fala que alguém vive o presente, é como se fosse um desperdiçador de tempo, alguém que pode ser pego de surpresa.

“- Como podemos nos preparar para morrer? – Perguntei. – Fazendo como os budistas. No começo de cada dia ter um passarinho pousado no ombro, que pergunta: “É hoje que vou morrer”? Estou preparado? Estou fazendo tudo que preciso fazer? Estou sendo a pessoa que quero ser? [...] – A verdade Mitch, é que, quando se aprende a morrer, aprende-se a viver”. (MITCH, 1998, p. 84, 85).

Há algumas pessoas que escolhem ser úteis até os seus dias finais, contribuindo assim com a humanidade por deixar um legado. “Estava empenhado em mostrar que a palavra “morrente” não é sinônima de “inútil”“. (MITCH, 1998, p. 20).

3. Considerações Finais

O assunto sobre morte ainda é muito pouco abordado, porém sua importância é extrema para a humanidade. As Instituições Educacionais poderiam promover mais oportunidades de pesquisa, pois seria uma forma de dar a conhecer fatos consideráveis sobre a finitude. Poderia repercutir em respeito aos pacientes em fase terminal, bem como reduzir preconceitos e oportunizar parentes e profissionais de saúde para um bom enfrentamento dessa realidade.

Muito se perde por fugir dos pacientes e muitas condutas poderiam ser alternadas diante de um novo saber. Contudo, o estudo sobre forma de estar mais próximo do tema ainda faz-se necessário um aprimoramento do hábito de falar sobre o assunto. É notório que a vida é mais contagiante, vivencia um aspecto de continuidade, mas tão somente estar ligado ao processo de morte. Ambas são e fazem parte de toda a humanidade, porém o tabu não permite falar sobre um contexto tão nosso quanto qualquer fase de vida. Conclui-se ao longo da vida nascemos, crescemos, desenvolvemos, reproduzimos e morremos essa última condição é esquecida. Finitude significa fim, condição que fatalmente a humanidade encaminha-se, notadamente não se cogita para o fim, fim esse que está pautado numa ideia de pensar como significa para quem ainda que viva um dia vá morrer.

Sobre os Autores:

Francileide Santana - Bióloga, Universidade Regional do Cariri – URCA, Psicóloga Faculdade Leão Sampaio – O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Caroline Feitosa Correia - Psicóloga Faculdade Leão Sampaio – O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Maria Vânia Furtado Brito - Psicóloga Faculdade Leão Sampaio – O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Orientadora: Profa Indira Siebra Correia - Docente da Faculdade Leão Sampaio – Psicóloga Especialista Saúde Pública - Uece. - O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Referências:

ALBOM, Mitch –A Última Grande Lição – O sentido da Vida– Tradução José J. Veiga, Rio de Janeiro, 1998, Sextante.

AUTOR DESCONHECIDO –Onde você vê. Disponível em: https://moodle.eadesaf.serpro.gov.br/mod/book/view.php?id=169876–Acesso: 25/03/2011.

CAMON, Valdemar Augusto Angerami. Psicologia e Religião. Editora Cengage Learning. São Paulo. 2008.

CAMON, Valdemar Augusto Angerami. (org). Psicologia Hospitalar. Teoria e Prática. 2ª edição. São Paulo. Editora Cengage Learning. 2010.

COELHO, Francisco José Figueiredo. FALCÃO, Eliana Brígida Morais. Ensino científico e representações sociais de morte humana. Artigo Científico. Acesso em 19/04/2011.

NIETZCHE, Friedrich. Aurora. 2ª Edição. Editora Escala. São Paulo, 1998.

ROGERS, Carl. R. Psicoterapia e Consulta Psicológica. 3ª Edição. Editora Martins Fontes. São Paulo, 2005.

ROSS, Elisabeth Kübler. Sobre a Morte e o Morrer. Editora Martins Fontes. São Paulo 1996.

ROSS, Elisabeth Kübler. A ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO DIANTE DE CRIANÇAS HOSPITALIZADAS EM IMINÊNCIA DE MORTE. Sobre a Morte e o Morrer. 2000. Disponível em: <http://www.espacopsicanalitico.psc.br/artigos_1.html. Acesso em 30/05/2011.