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Resumo: A doença e a hospitalização abalam consideravelmente o desenvolvimento emocional da criança. A presente pesquisa tem como objetivo promover uma breve reflexão sobre a hospitalização infantil por meio de uma revisão bibliográfica. Refletindo sobre a internação infantil vê-se a importância de se ter nas dependências do hospital brinquedotecas para que assim, as crianças possam ter momentos de lazer, distração e oportunidades de se elaborar de maneira lúdica seus sofrimentos psíquicos.

Palavras-chave: hospitalização, criança, psicologia.

Introdução

A doença e a hospitalização abalam consideravelmente o desenvolvimento emocional da criança. No que diz respeito à criança doente, deve-se ter uma atenção especial, pois é no desenvolvimento infantil que se estabelece e se constrói a personalidade do indivíduo, qualquer alteração em seu decurso pode acarretar conseqüências na vida adulta.

A criança que é hospitalizada tem dificuldade de compreender o que se passa com ela, de assimilar a doença e os procedimentos médicos necessários para o tratamento, o psicólogo então tem como função auxiliar a criança na compreensão de sua doença e elaboração dos sentimentos que são incitados como o medo, angústia, stress, sentimento de culpa, rejeição e os comportamentos regressivos.

A família também sofre pressão geradora de sofrimento psíquico, necessitando de atendimento psicológico juntamente com a criança que está hospitalizada.

Em suma, esta pesquisa tem como objetivo promover uma breve reflexão sobre a hospitalização infantil por meio de uma revisão bibliográfica.

Desenvolvimento 

A instituição hospitalar surgiu pela necessidade de separar as pessoas doentes dos demais, por supostamente acarretarem danos a sociedade. Segundo Campos (1995) os hospitais tinham como fim a prática do cristianismo onde a caridade era o ponto central. O hospital até o Século XVIII não era visto como um instrumento terapêutico, os sujeitos que ali se encontravam não recebiam tratamento visando a cura, para muitos era o local em que se esperava a morte. Como nos aponta Focault, era um hospital-exclusão.

O hospital era essencialmente uma instituição de assistência aos pobres. Instituição de assistência, como também de separação e exclusão. O pobre como pobre tem necessidade de assistência e, como doente, portador de doença e de possível contágio, é perigoso. Por estas razões, o hospital deve estar presente tanto para recolhê-lo, quanto para proteger os outros do perigo que ele encarna. O personagem ideal do hospital, até o século XVIII, não é o doente que é preciso curar, mas o pobre que está morrendo. (FOUCAULT, 1979. p. 101).

O hospital nessa época era regido por leigos religiosos que ofertavam assistência, alimentação e além disso cuidadavam do lado espiritual de cada sujeito, a salvação de suas almas. A função médica nesse período não aparecia no hospital, a prática médica era individualista e se baseava somente nas teorias e na medicalização, focava-se no atendimento clínico. No entanto, a tranformação da organização hospitalar ocorreu quando se desfez essa imagem do hospital, o despindo de seu efeito negativo, reorganizando a desordem existente em relação as doenças e passando o médico a ser o detentor de poder na instituição e presença constante no hospital.

Ao longo dos tempos essa visão foi se modificando e hoje o hospital tem como função proporcionar a cura, tratamento e prevenção das doenças a população que necessite de intervenções médicas e assistência á saúde. Entretanto, ainda é forte essa concepção imagética do hospital, visto ainda como algo ruim e amedrontador, principalmente para as crianças que estão em fase de desenvolvimento e que ainda não são capazes em sua totalidade de compreender o real motivo de estarem neste local.

Nos dias atuais, efetivamente, quando se detêm um olhar para a questão da criança que está em sofrimento físico e, consequentemente esta passa a ser internada, “esquece-se” do sofrimento psíquico em que a criança vivencia, devido ao fato de que a preocupação maior dos profissionais da saúde é pela doença da criança, o tratamento e a cura. Os médicos ainda não estão preparados para a escuta dos pacientes e quando se remete ao contexto  infantil essa atenção é primordial.

Questões de ordem emocional e existencial geram irritação entre os técnicos dos serviços de saúde, que tendem a interpretá-las não como problemas de saúde a serem atendidos, mas como resultado da atuação do paciente que não “coopera”. (CAMPOS, 2010, p. 52)

O impacto da hospitalização permeia o imaginário infantil podendo acarretar consequências negativas. Como nos aponta Campos (1995), o sujeito perde sua identidade pessoal, pois a partir do momento em que é internado, este passa a ser mais um número de prontuário, ou até mesmo o indivíduo que tem determinada doença.

A hospitalização é uma experiência que não passa despercebida para o paciente que permanece internado e muito menos para seus familiares e/ou acompanhantes. E quando o assunto é internação de crianças, a reflexão deve ser redobrada, uma vez que a doença e o processo de hospitalização podem comprometer sua integridade física e seu desenvolvimento mental. (MONDARDO, 1997 apud  DIASBAPTISTA , BAPTISTA, 2010, p.179).

Para a criança o hospital é um local visto como hostil, amedrontador e punitivo, por ter regras e proibições que a mantêm em situação passiva diante dos procedimentos hospitalares. Muitas crianças sofrem com a necessidade de intervenções médicas e hospitalares e a aceitação por elas é de difícil compreensão. Segundo Altamira (2010), a criança doente que está fisicamente enfraquecida, sentido dores, tende a ter uma aceitação melhor do processo de hospitalização a medida que lhe traga a diminuição de seu sofrimento físico, aliviando sua dor.

Enquanto que, as crianças que são internadas sem nada sentir, encaram esse processo como hostil, tem mais dificuldade de compreender e aceitar a doença. Ferro (2007) afirma que elas culpam a família e os médicos por suas dores e por estarem naquela situação.

Como citam Cabral e Nick (2006) a infância é o período em que o sujeito está quase que totalmente dependente dos cuidados parentais, e no hospital, a criança é privada do convívio social e familiar passando a ter rotinas duras, e também não tendo explicações sobre os procedimentos médicos e aos exames em que é submetida e, concomitantemente, o indivíduo se defronta com um ambiente carregado de emoções, histórias e casos dos mais diferentes tipos e “sentimentos como vida e morte, cura e sofrimento, qualidade de vida plena e limitada, alegrias e tristezas, entre outros” (DIAS, BAPTISTA; BAPTISTA, 2010, p.179). Sendo necessária em muitos casos a intervenção do psicólogo junto à criança e principalmente a família que sofrem pressão geradora de sofrimento psíquico.

A criança quando hospitalizada incita muitas emoções e sentimentos muitas vezes não vivenciados anteriormente, como o medo, sentimento de abandono, a insegurança, o stress, necessitando assim de um apoio ou até mesmo de intervenção psicológica para que essas emoções sejam canalizadas para algo positivo, não acarretando-lhe conseqüências negativas (FERRO, 2007).

Como enunciado por Moreira e Macedo (2009), é na infância que se configura as primeiras relações sociais, ou seja, na família e na escola, no caso de crianças hospitalizadas essa socialização é importantissíma pois é através dela que a criança passa a compreender e elaborar os mecanismos para enfrentar a doença, trazendo ressonâncias para a vida da criança. Enquanto as crianças constroem nas escolas e ambientes familiares suas relações e interações sociais, a criança doente constrói no ambiente hospitalar seu local de sociabilidade. É importante que o tratamento seja feito de modo a não afetar seriamente suas construções a respeito de si, da doença e das pessoas ao redor, por isso faz-se necessário que os profissionais da saúde saibam lidar com a subjetividade da criança e de sua família, dando respaldo necessário a elas.

Os profissionais da saúde costumam tratar o doente como objetos de estudos, tratando somente a doença e esquecendo-se do próprio paciente que fica á mercê de sua própria doença. Por isso faz-se necessário o programa de humanização da saúde, em que a relação com o paciente e sua subjetividade, seus direitos e valores tem de ser levados em consideração para que assim a facilitação da compreensão da doença e seu enfrentamento possam ser mais bem vivenciados.

A humanização do atendimento ao paciente internado supõe o respeito pela pessoa doente, o reconhecimento de que ele tem uma identidade, uma história, um lugar no mundo, que ele deve ser escutado e atendido nas suas queixas, que não são apenas orgânicas. (NIGRO, 2004, p. 30).

Segundo Lunardi, Lunardi e Backes (2006), os hospitais devem dar suporte,  reconhecer o trabalho  e investir na formação dos profissionais da saúde, valorizando a humanidade do trabalhador para que este valorize a humanidade do paciente e possam juntos encontrar caminhos para encarar o momento vivido. A ética é fundamental.

No filme Patch Adams – O amor é contagioso, Patch interpretado por Robin Williams, é um estudante de medicina revolucionário e inovador, que modifica o olhar para com os pacientes do hospital da universidade em que estuda. Uma  cena interessante que dá margem a uma curiosa investigação acerca do assunto se observa quando, Patch se fantasia de palhaço e no ambulatório de oncologia infantil, tenta evocar risos das crianças, destruindo a imagem de frieza e tristeza daquele ambiente e quebrando o silêncio assustador (Shadyac, 1998).

Muito mais do que cuidar da doença física, a atenção devotada ao paciente, a escuta de suas queixas e angústias são necessárias para que o tratamento tenha eficácia, o paciente necessita falar de sua doença e do que ela lhe acarreta, com as crianças isso ocorre também através das brincadeiras. ”Sem o brincar a criança perde uma das vias de expressão de suas emoções, perde o espaço no qual poderia estar repetindo situações traumáticas e também perde a possibilidade de elaborar esses traumas através dos jogos simbólicos”. (NIGRO, 2004, p. 75).

Através do brincar é possível ter acesso aos conteúdos inconscientes das crianças através da linguagem simbólica por elas emitidas, a observação e a escuta do psicológo se manifesta como instrumento essencial para entender as manifestações latentes que emergem da significação das representações inconscientes da criança em situação de vulnerabilidade. Como nos aponta Ferro (2007), é através do brincar que a criança externaliza seus medos, angústias, tristezas e ansiedades.

Diante disso, implementou-se a lei nº11.104/05 em que os hospitais que oferecem atendimento pediátrico deverão disponibilizar obrigatóriamente brinquedotecas em suas dependências.

Através de ambientes que proporcionem a criança o brincar e a interação espontânea com as demais crianças de sua idade ela irá compreendendo as fases de tratamento em que é submetida.Transformando assim, uma simples brincadeira em um instrumento terapêutico, capaz de potencializar e auxiliar na adaptação emocional da criança no contexto hospitalar, promovendo a qualidade de vida e reduzindo os aspectos que norteiam as variáveis negativas presentes no hospital.

Segundo Santos (1999) e Altamira (2010), é na infância que se estabelece e inicia todo o processo de sustentação de uma saúde mental satisfatória, sendo extremamente necessário ter um olhar especial a essa fase, pelo fato da criança estar vivenciando um momento de grande desenvolvimento, devendo ser bem orientado para que não lhe traga conseqüências negativas.

Considerações Finais

A criança quando está em sofrimento físico e consequentemente necessita ser hospitalizada, se vê diante de uma nova situação em que além do sofrimento causado pela doença, sofre também devido o afastamento familiar e social. Assim, a criança passa a experenciar sensações e sentimentos novos como o medo, stress e comportamentos regressivos.

Além do tratamento médico a criança e seus familiares necessitam também de atendimento psicológico, para que dessa forma possam ter uma melhor compreensão e adaptação da situação dolorosa que vivenciam.

O psicólogo como agente da promoção a saúde trabalha não só com a prevenção mas durante todo o tratamento da criança no hospital, no intuito de amenizar os estímulos estressores e também para que a permanência no hospital tenha além dos procedimentos médicos comuns, momentos que propiciem a criança lazer, distração e oportunidades de brincar favorecendo assim, a melhora no tratamento.

Sobre o Autor:

SILVA, E. A. - Departamento de Psicologia – Faculdades Integradas de Ourinhos - FIO/FEMM.

Referências:

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