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Resumo: O presente trabalho objetivou refletir e analisar algumas questões que perpassam a atuação do psicólogo hospitalar no tratamento do sujeito portador de doença crônica, bem como o aspecto psicossocio-afetivo do paciente, os mecanismos de defesa que se manifestam na pessoa portadora de doença crônica, os estágios emocionais no paciente após o diagnóstico de tal doença e o processo de humanizar a equipe multidisciplinar no manejo dessa prática. Pontua-se a necessidade de compreensão dos aspectos emocionais implicados no processo de adoecimento. Nesta perspectiva, busca-se uma integração de toda equipe de saúde a fim de reduzir o sofrimento psíquico do paciente, encorajá-lo a criar novas possibilidades de enfrentamento e possibilitar um alívio emocional para o sujeito e sua família.

Palavras-chave: psicologia Hospitalar, doença crônica, humanização

Considerações Iniciais

Nos últimos anos, a doença crônica tem ganhado notável atenção por parte de toda equipe de saúde e das instituições que se dedicam ao tratamento e à pesquisa dessa condição humana. Muitos profissionais uniram-se em suas diferentes especialidades a fim de promover novas formas de cuidado e assistência à pessoa com doença crônica e possibilitar melhor qualidade de vida, principalmente para os indivíduos que avançam para um estado terminal de adoecimento.

A doença crônica se caracteriza como um estado patológico permanente, que produz alterações psicológicas irreversíveis e requer um processo longo de reabilitação, observação, controle e cuidados. Entende-se que a doença causa desarmonia e conflitos na vida do indivíduo. Portanto, a psicologia e toda equipe multidisciplinar contribuirá para ajudar o sujeito a manter o equilíbrio e entender o funcionamento de tal condição.

A Psicologia objetiva dar novos sentidos à pessoa com doença crônica por meio de uma abordagem humanizada com o paciente e seus familiares. O psicólogo hospitalar deve fornecer ao sujeito instrumentos terapêuticos para ajudá-lo a diminuir seu sofrimento e ter uma compreensão mais ampla sobre sua desorganização psíquica, bem como encorajá-lo a criar novas possibilidades de enfrentamento.

Estima-se que existam no Brasil cerca de 25.000.000 milhões de pessoas portadores de algum tipo de doença crônica, entre diabéticos, aidéticos, portadores de insuficiência renal crônica, lúpus, dentre outras. Esse contingente obriga à saúde a repensar em novas estratégias de tratamento e assistência ao acesso à saúde de qualidade para toda essa população.

A Atuação do Psicólogo Hospitalar no Tratamento do Sujeito Portador de Doença Crônica

O psicólogo Hospitalar que trabalha com o paciente portador de doença crônica atuará junto ao Ser Doente no sentido de resgatar sua essência de vida que foi interrompida pela ocorrência do fenômeno doença. Além disso, ele se baseia numa visão humanística com especial atenção aos pacientes e familiares. A psicologia hospitalar considera o ser humano em sua globalidade e integridade, única em suas condições pessoais, com seus direitos humanamente definidos e respeitados. (SANTOS, 2003).

O profissional de Psicologia no Hospital deve encontrar-se com o sofrimento psíquico da pessoa enferma, escutar, compreender a partir do encontro sujeito-sujeito, isto é, aproximar-se do drama humano que é a doença, com a finalidade de propiciar ao paciente que reencontre o sentido que foi perdido e evitar possíveis recaídas.

Conforme TARDIVO (2006) O psicólogo, ao entrar em contato com o paciente, em especial o que precisa estar internado, em função de uma enfermidade, deve considerar que essa pessoa está vivendo um processo de perda. Pode ser transitória ou permanente.

Desse modo, o paciente enfermo naquele momento vivencia uma perda do corpo saudável, perda da capacidade de trabalho e muitas vezes perda de seus sonhos. Portanto, é necessário que o profissional de psicologia tenha um dinamismo que é peculiar a essa área, ou seja, proporcionar ao paciente, suporte para o seu sofrimento existencial e ajudá-lo no entendimento de sua condição e facilitar a adesão ao tratamento.

A adesão ao tratamento da doença crônica significa aceitar a terapêutica proposta e segui-la adequadamente. Vários fatores influenciam a adesão, tais como a característica da terapia, as peculiaridades do paciente, aspectos do relacionamento com a equipe multidisciplinar, variáveis socioeconômicas, entre outras (Rapley apud RESENDE 2007).

Além disso, o trabalho do psicólogo junto aos outros profissionais deve ocorrer no sentido de uma participação ativa na definição de procedimentos e tratamentos a serem realizados. Para que a prática profissional do psicólogo em ambientes complexos – como é o caso do hospital, onde atuam profissionais de diferentes formações e especialidades – seja bem-sucedida, é imprescindível que o relacionamento entre os membros da equipe seja caracterizado por um diálogo cooperativo e aberto, no qual haja objetividade e clareza na proposição e justificativas de procedimentos técnicos relativos a cada especialidade (Tonetto & Gomes, 2007).

O trabalho do psicólogo nesse campo deve ser juntamente com a equipe multidisciplinar, na relação com o paciente e seus familiares a fim de ajudar na manutenção do tratamento e reduzir o impacto da doença na vida da pessoa, possibilitando melhor qualidade de vida e abrindo horizontes para novas possibilidades.

O Aspecto Psico-Socio-Afetivo da Pessoa Portadora de Doença Crônica

Existem algumas características psicológicas comuns aos pacientes crônicos. Ao que parece, ser doente crônico implica em realizar uma elaboração psicológica de sua própria existência. Uma vez que o sujeito vai entrar em uma condição permanente, que acometerá a sua saúde e poderá acarretar algumas conseqüências em sua vida.

Contudo, o indivíduo será considerado paciente crônico se for portador de doença incurável. Observa-se, porém, que muitos pacientes que têm um longo período de internação procuram manter a cronicidade da doença, muitas vezes, a fim de obter cuidados que fora do ambiente hospitalar não teriam, ou mesmo por sentirem necessidade psicológica imensa de viver dramaticamente um estado crônico, que parece ser indispensável ao seu funcionamento existencial. (SANTOS, 2003).

A maneira como uma pessoa assume o seu destino e com ele o sofrimento que lhe foi reservado é uma das muitas possibilidades de dar sentido à vida. A forma como experienciamos o sofrimento é pessoal e há distintas possibilidades para lidar com esta experiência, seja retirando do sofrimento lições que poderão levar ao crescimento pessoal e a repensar os valores principais da vida, seja se revoltando e caindo em desespero (Freire, Resende & Sommerhalder, apud RESENDE 2007).

A situação de crise poderá ser um pilar fundamental para a ressignificação e aceitação da doença, em seus aspectos sociais, afetivos e psicológicos. Desde que haja um amparo integral desse paciente, as chances para a compressão e equilíbrio da doença se tornam mais abrangentes.

Mecanismos de Defesa no Paciente Crônico 

Os mecanismos de defesa servem para aliviar a angústia e diminuir a tensão, haja vista que se instala na vida do sujeito que se depara na condição de doente crônico. O diagnóstico de algum tipo de enfermidade crônica emerge a questão da morte e inevitavelmente os pacientes e os profissionais de saúde têm a consciência de que estão lidando com um terreno árido que dificilmente terá como fim a cura.

Segundo Zosaya (1985), a doença crônica produz uma série de conflitos emocionais, ansiedade, angústia, que vão desencadear no paciente uma série de mecanismos defensivos múltiplos; entre os mais freqüentes e interessantes de comentar se encontram:

  • Regressão: o paciente assume uma postura infantil frente a sua enfermidade, e põe em jogo um mecanismo regressivo. Esse comportamento é observado em pacientes com características dependentes, acabam por demandar uma necessidade de atenção maior, de serem apreciados. Podendo provocar uma desorganização no seio familiar.
  • Negação: nesse mecanismo, o sujeito não reconhece sua enfermidade e engana-se a si mesmo e seus familiares. São pouco colaborativos e se negam em receber ajuda médica.
  • Intelectualização: o paciente visa investigar os vários aspectos de sua doença e pretende que, ao conhecê-la de modo mais abrangente, ela deixe de existir. Esse mecanismo pode ser positivo, se o paciente for bem orientado pela equipe médica.

No ambiente hospitalar, em situações de terminalidade e morte, o processo psicoterápico deve enfatizar a expressão dos sentimentos, a melhora da qualidade de vida e a facilitação da comunicação (Kovács apud SCHMIDT 2011)

Estágios Emocionais no Paciente e da Família após o Diagnóstico

A reação dos pacientes que recebem um diagnóstico de doença crônica é de acentuada tristeza e dor, pois ameaça a sua trajetória no mundo e emerge a questão da morte, que é um fenômeno temido e provocador de ansiedade e angústia na vida do sujeito.

Segundo kubler Ross (apud Santos 2003) o paciente e família ao tomarem conhecimento da gravidade da doença podem passar por cinco estágios emocionais, notória e geralmente ocorrendo nesta ordem: 01 negação, revolta, barganha, depressão e aceitação.

  • Negação: esse estágio funciona como uma defesa temporária, em que o sujeito não aceita seu diagnóstico e acredita que seus exames foram trocados e geralmente procurará outro serviço médico para realizar novos exames com a expectativa de que o diagnóstico inicial esteja errado.
  • Revolta: nesse estágio o paciente tem um comportamento de pergunta: Porque eu? É difícil lidar com o indivíduo nesse estágio, visto que o paciente projeta toda sua raiva à equipe de saúde e aos familiares.
  • Barganha: esse estágio acontece em um período de tempo muito curto e há uma tentativa de adiamento, em que muitos pacientes decidem barganhar através de uma meta auto-imposta.
  • Depressão: existem dois tipos de depressão: depressão reativa que é uma aflição no que diz respeito a enfrentar a idéia da morte e a depressão preparatória que aparece no doente crônico com a morte simbólica, isto é, as perdas impostas pelo próprio processo de adoecimento.
  • Aceitação: nesse estágio o indivíduo está cansado, a luta e a dor cessam, dando lugar a um sentimento de desejo de permanecer sozinho. No caso da doença crônica a aceitação se relaciona com a permanência da doença.

A morte de pessoas gravemente enfermas, no contexto hospitalar, pode ser considerada previsível, de forma que o próprio paciente “prepara-se” psicologicamente para esse evento, assim como seus familiares (Brown apud SCHMIDT 2011).

Percorrendo um Caminho de Humanização

Humanização é uma expressão de difícil conceituação, tendo em vista seu caráter subjetivo, complexo e multidimensional. Inserida no contexto da saúde, a humanização, muito mais que qualidade clínica dos profissionais, exige qualidade de comportamento. Dicionários da língua portuguesa definem a palavra humanizar como: tornar humano, civilizar, dar condição humana. Portanto, é possível dizer que humanização é um processo que se encontra em constante transformação e que sofre influências do contexto em que ocorre, só sendo promovida e submetida pelo próprio homem. (SIMÕES, 2007).

Nesse sentido, percorrendo um caminho para a humanização da saúde é necessário reconhecer e respeitar à vida humana, em todas as esferas sociais, éticas, psíquicas e emocionais. Ademais, é imprescindível que a ciência psicológica juntamente com a equipe multidisciplinar reflita e discuta acerca do tratamento à pessoa crônica, que deve ser feito em sua integridade considerando a condição de fragilidade em que o paciente se encontra, para assim, possibilitar a oportunidade de resgatar o verdadeiro sentido de sua existência.

O grande desafio é encontrar formas de pactuação com os profissionais, a partir da ótica solidária e de co-responsabilidade sobre os processos de produção de saúde, favorecendo atitudes e olhares mais humanizadores, lidando com o fato de que estes mesmos profissionais, habitualmente, não estão preparados para essa perspectiva, adotando, geralmente, o modelo biomédico tanto em sua abordagem ao paciente quanto em sua relação com a equipe de saúde. (KNOBEL, 2008).

A Psicologia deve, portanto, contribuir para que haja humanização no ambiente hospitalar, bem como no tratamento de pacientes crônicos, com um olhar diferenciado, sensível e acolhedor. Contribuindo para a adesão ao tratamento, uma boa comunicação entre paciente e profissional e uma diminuição da visão estigmatizada o doente crônico.

Considerações Finais

A despeito da atuação do psicólogo hospitalar no tratamento de pacientes crônicos, é importante considerar que a psicologia tem a finalidade de vivenciar juntamente com o paciente as inquietações e conflitos que envolvem a condição do adoecimento, bem como os estágios emocionais frente a um diagnóstico de doença crônica. Desse modo, essa atuação visa proporcionar alívio à situação de dor e sofrimento que acometem tais sujeitos. Desse modo, faz-se necessário um atendimento humanizado e atento às necessidades do paciente, suas peculiaridades e vontades. Para assim, desenvolver um trabalho com a equipe multidisciplinar a fim de minimizar o impacto da doença no paciente e em seus familiares e promover uma compreensão do ser humano em sua integralidade e globalidade.

Sobre o Autor:

Alex Barbosa Sobreira de MirandaI - Departamento de Psicologia. Faculdade de Ciências Médicas. Universidade Estadual do Piauí (UESPI). Teresina, PI, Brasil. e-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Referências:

1. ANGERAMI-CAMON, Valdemar A. et al. O imaginário e o adoecer: um esboço de pequenas grandes dúvidas. In: ______. E a psicologia entrou no hospital. São Paulo: Pioneira, 2003

2. RESENDE, Marineia Crosara de et al . Atendimento psicológico a pacientes com insuficência renal crônica: em busca de ajustamento psicológico. Psicol. clin.,  Rio de Janeiro,  v. 19,  n. 2, Dec.  2007 . Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-5665007000200007&lng=en&nrm=iso.

3. TARDIVO, Leila Cury. O encontro com o sofrimento psíquico da pessoa enferma: O psicólogo clínico no hospital. In: LANGE.  Contribuições à psicologia Hospitalar: desafios e paradigmas.  Cap2.

4. Tonetto, A. M.& Gomes, W. B. (2007). A prática do psicólogo hospitalar em equipe multidisciplinar. Estudos de Psicologia, 24(1), 89-98.         .

5.SCHMIDT, Beatriz; GABARRA, Letícia Macedo; GONCALVES, Jadete Rodrigues. Intervenções psicológicas em terminalidade e morte: relato de experiência. Paidéia (Ribeirão Preto),  Ribeirão Preto, v. 21,  n. 50, Dec. 2011 . Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-863X2011000300015&lng=en&nrm=iso.

6.SIMOES, Ana Lúcia de Assis et al . Humanização na saúde: enfoque na atenção primária. Texto contexto - enferm.,  Florianópolis,  v. 16,  n. 3, Sept.  2007 .   Available from http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-07072007000300009&lng=en&nrm=iso.

7.KNOBEL, Elias. Psicologia e Humanizaçao: Assistência aos pacientes graves. São Paulo. Atheneu, 2008.