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O momento fundamental é o da reflexão crítica sobre a prática. É pensando criticamente a prática de hoje ou de ontem que se pode melhorar a próxima prática. (Paulo Freire, 2001)

Pensar a formação do psicólogo escolar é antes de tudo rever contextos e cenários que levaram ao desenvolvimento dessa área no âmbito brasileiro.

Sabemos que a Psicologia no Brasil desenvolveu-se estreitamente ligada à Educação – primeiro campo ao qual se deu a aplicação desta ciência em nosso país, surgindo assim a disciplina Psicologia da Educação que trata-se de uma “ciência aplicada à educação, cujo objetivo é, numa relação permeável com as demais ciências pedagógicas, buscar oferecer subsídios para que o ato educativo alcance, plenamente, seu objetivo” (GOULART, 2001, p. 08).

Por sua vez, a Psicologia Escolar, sendo um dos campos da Psicologia Educacional, surgiu a partir do interesse de aplicar fundamentos desta, com o intuito de melhorar o ensino e a aprendizagem no contexto escolar, que teve um impulso compulsório de ampliação, sobretudo na grande oferta de matrículas desencadeado ainda na segunda metade do século XX.

A primeira função desempenhada pelos psicólogos nas instituições de ensino foi a de medir habilidades e classificar crianças quanto à capacidade de aprender e de progredir pelos vários graus escolares. Essa era uma maneira de “adaptar” os indivíduos à nova ordem social – industrial capitalista que requeria mão-de-obra com certas aptidões e traços como condição de sua eficácia (PATTO, 1989).

De fato, até a década de 1960 a psicologia da educação estava fundamentada em atividades científicas e profissionalizantes voltadas especificamente para o trabalho de formação dos professores, para a pesquisa psicológica aplicada à educação e a intervenção psicológica sobre problemas e dificuldades do desenvolvimento, da aprendizagem e da conduta de crianças e adolescentes.

Não obstante, surge no final do século XX a necessidade de definir parâmetros para atuação do psicólogo escolar, para isso o Conselho Federal de Psicologia (1999), define como atribuições deste profissional:

Atua no âmbito da educação, nas instituições formais ou informais. Colabora para a compreensão e para a mudança do comportamento de educadores e educandos, no processo de ensino-aprendizagem, nas relações interpessoais e nos processos intrapessoais, referindo-se sempre às dimensões política, econômicas, social e cultural. Realiza pesquisa, diagnóstico e intervenção psicopedagógica, individual ou em grupo. Participa também da elaboração de planos e políticas referentes ao Sistema Educacional, visando promover a qualidade, a valorização e a democratização do ensino (s/n).

Imerso em um contexto de mudanças sociais, políticas e econômicas, a atuação do psicólogo escolar exige dele o que Novaes (2001a) chama de visão transdisciplinar, que “deverá prepará-lo para um trabalho consistente de análise das situações socioeducativas [...] utilizando modelos de inteligibilidade das práticas educativas que distinguem os olhares centrados no indivíduo, nas interações grupais [...]”(p. 128). Ou seja, permeando uma formação que contemple aspectos multireferenciais, atendendo a um contexto de complexidade, de exaltação do subjetivo e que admita a “dialetização entre o pólo individual (auto) e o coletivo (hetero)”.(id ibid, p.128).

Essa perspectiva atende ao século que se consolida- o século XXI , já que novas conjunturas se fortalecem, enaltecendo, por exemplo, o virtual, a competição desenfreada, o pluralismo cultural e são essas questões que adentram o cenário de atuação do psicólogo escolar- o espaço escolar.

Portanto, diante dessa contextualização, alguns questionamentos são necessários: que tipo de formação deve receber o estudante de psicologia que pretende atuar na escola? Qual o peso dos estágios curriculares na formação do psicólogo escolar? Essas questões são desafiadoras e ao mesmo tempo instigantes e o que se pretende é revisar a literatura para traçar o perfil ideal dessa formação.

1. Dando forma ao que se busca formar-se: o perfil ideal de formação.

Compreende-se o sujeito como um devir, que está em constante processo de formação, de crescimento, de amadurecimento. Ao falar de formação, ressalta-se a polissemia do termo, visto que esse indica preparo técnico, intelectual, habilidades e/ou competências, na maioria das vezes, relacionados ao conhecimento adquirido em instituições de ensino superior ou instituições técnicas profissionalizantes, que forma o estudante para atuar no mercado de trabalho.

A formação deve qualificar o sujeito a agir em um contexto específico e que garanta uma postura ética e competente. É isso que se espera de todo e qualquer profissional e com o psicólogo escolar não poderia ser diferente.

Alguns teóricos (GUZZO, 2001; WECHESLER, 2001, NOVAES, 2001b) destacam que a formação em psicologia exige uma interlocução entre agências formadoras, instituições sociais, associações e sociedades científicas, já que não há uma unicidade no currículo dos cursos que se destinam a formação do psicólogo, com ênfase na área escolar. Como também dificuldades na realização do estágio realizado no final do curso sem comprometimento com a realidade do campo e com uma reflexão sobre as práticas desenvolvidas o que possibilitaria uma visão mais crítica e social. Pois, a qualidade do conhecimento adquirido na graduação é primordial para que a futura atuação do psicólogo atenda às demandas sociais.

Percebe-se assim, que muitas vezes a ineficiência da psicologia no âmbito escolar é conseqüência da inconsistência dos conhecimentos recebidos e construídos nos meios acadêmicos.

Admite-se, por sua vez, que os cursos de formação devem abranger alguns conhecimentos necessários para atuação no contexto educacional, como os processos de ensino-aprendizagem, saúde mental, cognição, relações interpessoais, análise crítica das estruturas sócio-econômicas do país. (GUZZO, 2002). Assim como uma reestruturação epistemológica contemplando a relação professor-aluno, influência da afetividade na aprendizagem, representações sociais sobre fracasso escolar, articulação entre família-escola-comunidade, práticas pedagógicas, atendimento psicopedagógico, atitude interdisciplinar, comunicação e criatividade. (ALMEIDA, 2005).

Contudo, os diferentes conhecimentos que subsidiam a compreensão da complexa natureza humana e das relações grupais são indispensáveis a essa formação. Todavia, as disciplinas específicas do curso como psicologia social, organizacional, comunitária, desenvolvimento, sexualidade, reprodução humana, entre outras, acrescentam esse conhecimento.

Dentre a gama de saberes específicos do curso de Psicologia, é necessário destacar os outros conhecimentos provenientes da Filosofia, Sociologia, Antropologia, Didática, Lingüística, além de outras, que possibilitarão uma amplitude do saber- fazer do profissional psicólogo que escolhe a área escolar.

De certa forma, o estudante de psicologia deverá ser um exímio pesquisador e conhecedor de diferentes áreas de conhecimento, visto que

além de ser bem formado em Psicologia, deve ser muito bem formado para atuar em contextos educacionais, o que pressupõe um domínio de toda a dinâmica do sistema educacional, principalmente do acompanhamento, avaliação e intervenção em situação de grupos. (GUZZO, 2001, p.78, grifo nosso).

Para que essa formação seja bem feita deve-se priorizar uma organização curricular com bases sólidas e estruturadas com uma diversidade de conhecimentos na própria área do saber como em áreas afins.

Diante desse desafio, além da reformulação curricular, Almeida (2005) sinaliza um perfil do psicólogo escolar que contemple a conscientização das possibilidades, capacidade de autonomia diante de situações conflitantes, capacidade de análise, aplicação, reelaboração e síntese de conhecimentos psicológicos, postura crítica e social, estratégias interdisciplinares e consciência da função política de sua profissão, com enfoque nas demandas sociais e na ética, objetivando o estreitamento da articulação entre teoria e realidade social.

A articulação entre a teoria e a prática é outro ponto que deve ser revisto quando se prima por uma formação de qualidade. Sem dúvida, é a partir dessa articulação que a teoria passa a ter um significado para o aluno, possibilitando uma imersão no contexto que seguramente irá atuar, tendo aproximação das condições reais de sua atuação como profissional e isso deve ser consolidado nos estágios supervisionados.

Nessa perspectiva, de acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais (2004, p. 10) para os cursos de graduação de psicologia, “os estágios supervisionados são conjuntos de formação, programados e supervisionados por membros do corpo docente da instituição formadora e devem envolver práticas efetivas de campo”.

Este, portanto, favorece um aprendizado social, profissional e cultural proporcionadas ao estudante pela participação em situações reais de vida e trabalho de seu meio, sendo realizada na comunidade em geral ou junto a pessoas jurídicas de direito público ou privado, sob responsabilidade e coordenação de instituição de ensino.

Assim, compreende-se que a finalidade do estágio é proporcionar ao estudante experiência prática na sua linha de formação, concedendo-lhe complementação do ensino e da aprendizagem, devendo proporcionar uma vivência da realidade da instituição de ensino de campo, em que a partir dessa leitura, haja um planejamento de intervenção.

Segundo Gomes e Vieira (1999),

O estágio supervisionado de psicologia escolar [...] permite que o futuro profissional identifique necessidades e possibilidades de aperfeiçoamento das relações interpessoais e multiprofissionais e desenvolva capacidade instrumental (técnica e interpessoal) para participar de interações construtivas com todos os agentes. Além de analisar o tipo e grau de dinâmica da instituição escolar, o estagiário deve criar condições de interação com e entre esses agentes, no sentido de (re)definir o projeto pedagógico da escola e o papel de cada um deles na consecução desse projeto. Deve-se promover ao estudante estagiário reflexão crítica do papel do psicólogo na educação para que assim ele possa promover a capacidade crítica e criativa da própria instituição (p. 2).

Deve-se considerar que a prática exercida pelo estagiário de psicologia escolar é que vai proporcionar o reconhecimento e a valorização do profissional. É preciso, pois, pensar na atuação do psicólogo escolar; discutir um novo paradigma para a formação desse profissional no Brasil.(GUZZO, 2002).

2. A desconstrução do real: resignificando a postura clínica.

Quando se fala em papel de um profissional, Nascimento (2003) propõe que se deve questionar e observar aspectos referentes ao tipo de formação durante a graduação. “Na profissão de psicólogo por volta de 10 anos atrás, a área mais valorizada pelas próprias faculdades e universidades era a clínica, seguida da industrial e escolar. Esta realidade leva o psicólogo muitas vezes a introduzir procedimentos clínicos na escola” (ibid, p. 03).

Portanto, a grande crítica quanto à formação do profissional de psicologia escolar vem dos currículos e programas voltados para práticas clínicas, através de orientações. De acordo com Almeida (2002), o psicólogo deve buscar sua identidade dentro do ambiente escolar, pois só assim vai poder atuar numa equipe com suas especificidades, demarcando bem qual sua função dentro da instituição escolar. A autora afirma que:

A identidade profissional do psicólogo, para se legitimar no cotidiano da escola, exige, portanto, um duplo movimento: a re-significação da atuação profissional a partir das especificidades teórico-metodológicas próprias da ciência psicológica e o reconhecimento, por parte da pedagogia. (ALMEIDA, 2002, p.89).

Por outro lado, reconhecendo que o psicólogo escolar não é o clínico, algumas características deste são presentes na postura daquele, por exemplo, deve-se desenvolver o que Almeida (2006, p. 189) chama de “atitude e sensibilidade clínica de escuta dos discursos institucionais e das vozes da escola”, possibilitando uma conscientização que leve a ressignificações das práticas pedagógicas e de uma auto-criação desse profissional.

Assim, a psicologia escolar deve se constituir como uma possibilidade de transformação do ambiente escolar. É preciso agregar às disciplinas acadêmicas um campo de questionamento acerca da realidade da educação no Brasil. Dessa forma, há de se propor uma atuação do profissional de psicologia que seja coerente com essa realidade e que possa envolver todos os membros escolares, incluindo a família.

Considerações Finais

Traçar um perfil ideal de formação para o psicólogo escolar exige uma reflexão sobre o quanto ainda temos que melhorar, tanto no que consiste aos currículos das instituições formadoras e a forma como são supervisionados os estágios curriculares, quanto na postura ética de alguns profissionais que já estão no contexto escolar, exercendo a função, muitas vezes, de clínico.

É necessário pensar que mesmo longínqua, a mudança é possível, e nesse emaranhado de idealizações o que deve prevalecer é a postura crítica e desalienada, que promova nas instituições formadoras discussões e encontros científicos que possibilitem aos estudantes e aos profissionais uma resignificação do papel desse agente de mudança.

Portanto, o psicólogo escolar e educacional é um agente vivificante de transformação, sobretudo no que diz respeito ao que se espera da sua formação, carente ainda de uma identidade e de qualidade. Deve-se fazer acontecer aquilo que faz parte da principal importância do seu papel, que corresponde ao caráter habitual de revisão sistemática, de objetivar mudanças, avaliar contextos e reconhecer que a participação de todos que trabalham em educação é imprescindível para o processo de transformação social. (NOVAES, 2001).

Assim, espera-se que o psicólogo escolar ganhe credibilidade no campo educacional e na sociedade como um todo, mostrando preparo profissional e ganhando o espaço ainda pouco ocupado por este - a escola.

Sobre os Autores

Luciana de Sousa Lima Soares - Acadêmica do VII período do curso de Psicologia da Faculdade de Ciências Médicas/UESPI. O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. Psicóloga.

Rayka Veloso Mendonça - Psicoterapeuta na Abordagem Cognitiva-Comportamental. O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Referências

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BRASIL. Diretrizes Curriculares para o Curso de Graduação de Psicologia, 2004. Disponível em: . Acesso em: 20 out. 2008.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Atribuições do psicólogo no Brasil. 1999. Disponível em . Acesso em 22 out. 2008.

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GOMES, Leda e VIEIRA, Jumara Silvia Van de Velde. Psicologia da educação: descrição das intervenções em estágio acadêmico. Psicologia: teoria e prática, São Paulo, v. 1, n. 2, p. 64 – 70, 1999.

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GUZZO, Raquel Souza Lobo. Formando psicólogos escolares no Brasil: dificuldades e perspectivas. In: WECHSLER, Solange Múglia (org.). Psicologia Escolar: Pesquisa, formação e prática. 2ª ed. Campinas, SP: Alínea, 2001, p. 75-92.

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