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Resumo: O propósito deste trabalho é definir o que é a agressividade no ambiente do trânsito, partindo dos condutores, em centros urbanos, bem como as causas deste repertório de comportamento e apresentar algumas alternativas possíveis para a inserção do psicólogo no contexto do trânsito.

Introdução

A agressividade no trânsito é um tema que exige atenção da população e das autoridades, visto que suas reflexões são  amplamente visíveis e, a despeito da vontade dos engenheiros do tráfego, aumenta a sua freqüência. Quando se trata de países com uma cultura do carro muito forte, a problematização teórica da questão do automóvel tende a ser maior, entretanto, no que tange a prática, ainda apresenta falhas. O estudo da violência do trânsito é um dos mecanismos legítimos de tentar diminuir a quantidade de vítimas anuais e, também, agressores. Este trabalho está dividido em duas partes: a primeira, apresentando os dados sobre o problema e uma segunda, uma discussão sobre as possíveis resoluções. O propósito deste trabalho é apresentar uma idéia geral, do ponto de vista do comportamento, do que é o fenômeno conhecido no ocidente (e em alguns países do oriente) como road rage, que é a violência no trânsito por si, fornecendo uma pequena revisão de websites de profissionais envolvidos, bem como artigos sobre agressividade e etologia, para denotar a questão biológica.

1. Agressividade e Violência

A violência, no contexto da seleção natural proposta por Darwin e minuciosamente estudada por etólogos e analistas do comportamento, o repertório de violência é necessário à sobrevivência do organismo em seu ambiente para a perpetuação de seus genes e preservação da espécie. Em sua vida, o sujeito ressignifica a sua experiência associando estímulos herdados, isto é, inatos – como medo, fuga, esquiva, prazer - com estímulos de sua época, aumentando suas chances de sobrevivência.

Para a Psicologia, a agressividade se define como um comportamento diferente da violência em si, por ser uma construção social: é aprendido. Apesar de relacionado com o repertório inato de violência, os ato de agressão só se mantém se forem devidamente reforçados. A agressividade tem como objetivo causar danos ao outro que é, de maneira geral, motivado a evitar tal comportamento. Crianças em meados da segunda infância, que é um período em que elas estão se apropriando das leis de convivência e socialização, tendem a demonstrar comportamento violento ao ver adultos (sobretudo pais e familiares) se comportando de maneira hostil e tendem a aprender este comportamento – e associar a violência a resolução de problemas, surgindo o aspecto da agressividade em sua personalidade, que poderá se manter por anos: uma criança violenta pode, então, se tornar um adulto agressivo. A educação, aqui, tem um grande poder de coibir uma possível manutenção do comportamento, sob o risco de gerar um sujeito que não dissocia agressividade de viver em sociedade – inclusive no trânsito.

O sujeito agressivo tende a agir com a finalidade de menosprezar o comportamento alheio e as outras pessoas para realizar os seus próprios objetivos. Esse padrão costuma se manifestar em pessoas com baixa auto-estima, sentimento de culpa e ansiedade, relações interpessoais frágeis, complexos de superioridade e que apresentam dificuldade em lidar com o poder. Tendem a ser controladores, vulneráveis ao isolamento e podem, em algum nível, elaborar fantasias para sustentar sua necessidade para a agressividade. Almeida (2011) diz que a maioria dos traços e sintomas que precedem ou estão em paralelo com a agressividade no trânsito podem ser tratados com psicoterapia.

1.1 Agressividade No Trânsito

Os estudos apontam que é comum, em algum momento da vida do condutor, cometer deslizes. Quando se torna freqüente, é uma questão de saúde pública e tem o nome, em diversas literaturas, de Road Rage. O Dr. Leon James separa em três níveis: impaciência, luta de forças e negligência. Os motoristas agressivos tendem a acreditar que sua perícia em condução está num nível superior às dos demais e acreditam não estar contribuindo para o caos do trânsito.

  1. Impaciência: não parar diante de placas ou sinais vermelhos, andar com velocidade acima do permitido, bloquear cruzamentos. São comportamentos que servem de estímulo aversivo para os outros condutores, e oferecem os menores riscos entre os três grupos.
  2. Luta de forças: impedir outros condutores de realizar conversões e mudança de faixa, bem como sair de outras vias, usar de gestos obscenos ou xingamentos para ameaçar outros condutores, ignorar a distância de segurança do condutor à frente e laterais. Estes sujeitos como “psicologicamente instáveis que acreditam estar fazendo um bem à sociedade, achando que os outros cometeram erros e precisam ser punidos, desejando punir aqueles que não têm uma conduta semelhante ao do condutor agressivo”. (JAMES)
  3. Negligência: duelos, velocidades muito altas, fechadas, andar em “zig-zag” sem sinalização, dirigir entorpecido ou alcoolizado, bem como os crimes que se utilizam do trânsito como atropelos e assaltos. É o último nível de agressividade.

1.2. Por Que Ocorre

O comportamento agressivo no trânsito surge do histórico de comportamento agressivos em outras instâncias da vida do sujeito. As causas mais comuns da ocorrência são um ambiente físico que estimule a raiva e o estresse (como muito barulho, calor, engarrafamentos e a sensação de anonimato), baixa fiscalização (sentimento de impunidade) e um ambiente social que permite e até incentiva esse comportamento, como é o caso dos outros condutores, amigos e familiares do agressor. Segundo WAGNER & BIAGGIO (1996), a raiva é uma condição necessária para a agressividade em casos de luta de forças ou superior, mas não a determina – serve de sinalização. É comum achar em pesquisas correlações que implicam que sujeitos agressivos tendem a ser condutores agressivos (GUNTHER & MONTEIRO, 2006).

 À partir dos anos 60, uma parcela dos psicólogos constata que as situações se chocam e até se sobrepõem a hereditariedade e o empirismo quando se fala em resposta de organismos, isto é: a personalidade de uma pessoa é relativamente constante, mas dinâmica, pois os ambientes exercem tanta influência no comportamento quanto os hábitos. Parece claro que esta afirmação se aplica ao caso do trânsito.

É importante salientar que, apesar da atual constituição brasileira prever punição significativa aos condutores alcoolizados, existe uma questão cultural muito forte no sentido de ir contra esta lei – inclusive websites divulgando trechos onde a blitzes estão ocorrendo, numa tentativa de burlar a lei. É importante salientar aqui que, assim como os condutores agressivos de maneira geral, os motoristas alcoolizados também não acreditam estar contribuindo para um ambiente caótico.

É evidente a deficiência de educação humanitária nas escolas e educação para o trânsito, bem como a falta de acompanhamento psicológico nos centros de formação de condutores. Apesar do código de trânsito brasileiro prever educação para o trânsito, na prática ela não ocorre de forma eficiente.

2. Alternativas Possíveis

2.1 A Psicologia do Trânsito

A psicologia do trânsito é uma área relativamente nova, visto que o road rage, é, em si, um fenômeno novo. Estuda o comportamento de pedestres, condutores, ciclistas e todos os participantes dos sistemas de transportes e todas as suas determinações. Está, portanto, relacionada a todas as áreas da Psicologia e contribui para diminuir os acidentes, dar diretrizes educacionais e diminuir possíveis conseqüências da vida moderna, com o foco na preservação da vida. O psicólogo do trânsito estuda a vida urbana e rural, bem como os mecanismos de apropriação da dinâmica do transporte e oferece modelos de inserção do sujeito na realidade dos meios de transporte, bem como práticas psicoterapicas relacionadas ao trânsito, como tratamento de fobias.

2.2 A Educação para o Trânsito

Uma reversão do quadro atual, que é de aumento do número de condutores agressivos, é uma política que vise a valorização da vida cotidiana e que forneça diretrizes eficazes para a promoção do bem estar social. A escola, nesse sentido, pode auxiliar, com o investimento de projetos que ensinem as crianças, desde cedo – quando os traços agressivos costumam surgir – a uma conduta ética e pacífica. Quando não há instruções claras, prevalece a relação de poder em que o forte domina o fraco. A criação de programas sistemáticos e eficazes pode diminuir a cultura da agressividade, com propostas pedagógicas para refletir sobre a cultura automobilística – e a influência midiática sobre o poder que um carro exerce e sua real necessidade -, uma análise do próprio transitar nas imediações da escola, problematizando a relação interpessoal como um todo; educar para os sinais desde cedo e não somente na época da habilitação veicular – humanizar o automóvel, para que se perceba, não somente de maneira teórica, que máquina está a serviço do homem e não contra ele.

2.3 O Centro de Formação de Condutores

A aprendizagem da condução veicular, no Brasil, consiste em um leve exame psicológico para atestar se o indivíduo é mentalmente apto a dirigir um veículo, testando a memorização, tempo de reação, coordenação motora e agressividade. Após êxito, matricula-se nas aulas teóricas que vão ensinar leis e condutas de trânsito para um posterior exame e, enfim, as aulas práticas. Após isso, o condutor recebe uma habilitação provisória que, ao menor deslize, é requerido que o sujeito repita o processo. Se o aluno não apresentar vontade ou nenhum desvio aparente de conduta, ele não receberá acompanhamento psicológico em nenhum momento durante a aprendizagem veicular nem será atestado, após esse um ano de testes, se ele ainda é psicologicamente estável para a condução. Esta é uma falha grave: um ano de direção é tempo suficiente para que este tenha contato com um ambiente que possa estimular a raiva e o estresse se já houver este repertório de comportamento e a falta de fiscalização adequada pode reforçar comportamentos transgressores e possivelmente danosos para o trânsito.

O que se pode fazer é modificar o modo como o CFC deve lidar com o aluno, bem como um diálogo possível com uma, também possível, educação para o trânsito na escola.

Conclusão

É possível observar, através deste trabalho, que o road rage, como qualquer problema que acomete a humanidade, não é tão simples de se resolver e sempre parece que algo ainda precisa ser feito. E foi justamente buscando compreender este processo que esta pesquisa foi feita. Paz no trânsito é uma meta a ser seguida por muitos países.

Sobre o Trabalho:

Trabalho apresentado ao Centro Universitário Estácio – FIB da Bahia para a avaliação da disciplina Metodologia Científica para o curso de Psicologia – º semestre sob orientação da Profª Andréa Beatriz Hack de Góes.

Referências:

ALMEIDA, Elidio. Falo o que penso e não levo desaforo pra casa. Elidio Almeida: psicólogo. Disponível em <http://elidioalmeida.wordpress.com/2011/05/02/comportamento-agressivo-falo-o-que-penso-e-nao-levo-desaforo-pra-casa/>. Acesso em 25 outubro 2011.

Educação para o Trânsito. TRÂNSITOBR: o portal do trânsito brasileiro. Disponível em <http://www.transitobr.com.br/index2.php?id_conteudo=17>. Acesso em 26 outubro 2011.

EQUIPE DE ACESSORIA DE EDUCAÇÃO PARA O TRÂNSITO – DETRAN/RS. Educação para o trânsito nas escolas ainda caminha a pé. Portal do Trânsito. Disponível em <http://www.portaldotransito.com.br/reportagens-especiais/educacao-para-o-transito-nas-escolas-ainda-caminha-a-pe.html>. Acesso em 27 outubro 2011.

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FAVARO, Thomaz. Dr. Jekyll e Mr. Hyde: Como o trânsito transforma as pessoas. Revista Decifra-me. Disponível em <http://revistadeciframe.com/2009/04/28/dr-jekyll-mr-hyde-o-transito-transforma-as-pessoas/>. Acesso em 26 outubro 2011.

GÜNTHER, Hartmut; MONTEIRO, Cláudia A. Soares. Agressividade, raiva e comportamento de motorista. Psicol. pesqui. transito, Belo Horizonte, v.2, n.1, jun., 2006. Disponível em < http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1808-91002006000100003>. Acesso em 06 novembro 2011.

MOREIRA, Ângelo A.. Psicologia do Trânsito. Disponível em <http:// http://www.angelopsi.com.br/psicologia_transito.asp>. Acesso em 06 novembro 2011.

ROZESTRATEN, Reinier J. A..PSICOLOGIA DO TRÂNSITO: o que é e para que serve. PSICOLOGIA: CIÊNCIA E PROFISSÃO. São Paulo, v.1, n.1, jan. 1981. Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/pdf/pcp/v1n1/06.pdf>. Acesso em 03 novembro 2011.

STRICKLAND, Jonathan. Como funciona a agressividade no trânsito. HowStuffWorks: como tudo funciona. Disponível em: <http://carros.hsw.uol.com.br/furia-no-transito.htm>. Acesso em 26 outubro 2011.