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Resumo: As discussões acerca dos trabalhos realizados em Comunidades têm se expandido e novas demandas tem sido apresentadas a esses profissionais de Psicologia de tal maneira que o habilitem a dar conta das questões tanto de ordem coletiva quanto social. Diante dessas demandas essas questões tem se revelado cada vez mais freqüentes. Durante o início das décadas de 40 e 50 os primeiros trabalhos comunitários foram realizados no Brasil com um forte cunho assistencialista oriundo de práticas norte- americanas. O Psicólogo nesse período realizava trabalhos em projetos educacionais com a finalidade de auxiliar a população a um novo modelo econômico que emergia no Brasil. Com o passar dos anos, essas práticas assistencialistas foram modificadas a partir de reflexões feitas pelos psicólogos relacionadas à metodologia aplicada na época. Este artigo traz algumas considerações sobre as formas de atuação do psicólogo comunitário, bem como uma proposta de reflexão e as possibilidades e desafios encontrados por este profissional na atualidade. Por esta razão, utilizamos a pesquisa bibliográfica a partir de outros artigos, textos e periódicos. Autores com pensamento teórico que forneça auxílios relacionados ao tema proposto. Foram estudados os escritos posteriores ao período da consolidação da Psicologia Social Comunitária no decorrer desses anos.
Palavras-chave: psicologia social comunitária, psicologia social, comunidade.

Introdução

Falar de Comunidade é falar sobre vida cotidiana, vida em comum, coletividade. Segundo Campos, (1994, p. 9) “é na Comunidade que grande parte da vida do sujeito é vivida”. Durante muito tempo desde o golpe militar no Brasil, o conceito de Comunidade esteve distante do discurso psicológico, mas por volta dos anos 70, surge um interesse sobre essa temática dentro da Psicologia Social, é neste momento que ela denomina-se Comunitária (SAWAIA, 1994, p 35).

A Profissão de Psicólogo foi reconhecida no Brasil em 1962, dois anos antes do golpe militar que impôs ao país um regime ditatorial. A prática psicológica neste período baseava-se em intervenções desenvolvimentistas oriundas de uma repressão política, o que resultou em um modelo individualizado de atuação. O pensamento ideológico desenvolvimentista causava na população brasileira, mais especificamente na classe média, um comportamento consumista e um posicionamento conformista frente ao sistema político. Predominava-se o individualismo que afetava as práticas psicológicas e a produção de novos conhecimentos.

Nessa época, os movimentos sociais eram impedidos pelo controle e repressão da ditadura, e isto fazia com que os cidadãos não tomassem um “posicionamento crítico em relação à realidade vivida” (SCARPARO, GUARESCHI, 2007, p.8).

Durante a ditadura, os trabalhos dos psicólogos eram direcionados pelo modelo clinico, intervenções aconteciam em escolas e trabalhos eram feitos na área de recrutamento e seleção. Nesse período ditatorial a psicologia estava sendo refém de necessidades políticas e econômicas geradas pelo governo militar. O Brasil estava sujeito a um modelo de governo que privava o indivíduo dos seus direitos básicos, tais como: moradia, educação, emprego. A partir desse processo social, vários profissionais começaram a atuar junto à população (CRUZ; FREITAS; AMORETTI, 2010).

Os primeiros cursos de psicologia aqui no Brasil sofreram grande influência norte-americana, professores e alunos de graduação desejavam desenvolver trabalhos junto aos setores desfavorecidos, com o propósito de construir um saber ligado com as necessidades socais,tornando a psicologia mais próxima do povo (CRUZ, 2010).

Sendo assim, é neste cenário de deselitização da Psicologia, da preocupação com as questões sociais, com as formas de relações de desigualdades que conseqüentemente dava margem ao autoritarismo, que surgem base para a consolidação e fundamentação da Psicologia Social Comunitária (AMORETTI; CRUZ; FREITAS, 2010).

Dessa forma, ia se criando uma nova forma de pensar sobre a prática psicológica, isso acontecia em um contexto de repressão que a sociedade estava vivenciando. As intervenções de forma individualizantes não conseguiam da conta  de questões que eram de ordem macro social. Essa mudança de enfoque que ocorreu na America Latina em relação aos modelos tradicionais de formação acadêmica na área possibilitou uma postura diferenciada dos profissionais que “maximizava a saúde dos cidadãos e que essa saúde só poderia ser alcançada com a educação, a cultura, a habitação, ao lazer” (CRUZ; FREITAS; AMORETTI, 2010, p. 78). O propósito disso era atingir relações mais justas e igualitárias. Como sinalizam as autoras citadas acima:

[...] Podemos dizer que o período histórico que viveu a America Latina reuniu condições de possibilidades para que emergisse um novo olhar psicológico, comprometida com a realidade do cotidiano dessas populações, maximizando á saúde dos cidadãos [...] CRUZ, FREITAS, AMORETTI, 2010, p.77

Um dos primeiros passos para a mudança das práticas psicológicas era pensar sobre elas, o outro era fundamentar esse novo olhar fora do pensamento original. No entanto, nos Estados Unidos que surge a nomenclatura “Psicologia Comunitária”, referindo-se a profissionais que trabalhavam com populações desfavorecidas, esses trabalhos possuíam um forte caráter assistencialista, contudo sem uma análise crítica, o que gerou poucos resultados (LANE, 1996, p. 18).

Breve Histórico da Psicologia em Comunidades (Anos 60, 70, 80 e 90)

a) Anos 60 – Regularização da Profissão e a Inserção do Psicólogo

Durante as décadas de 40 e 50 um novo modelo de produção foi ingressado no Brasil do agropecuário ao agroindustrial, o que demandou uma nova preparação para a população trabalhadora, o Estado desenvolveu projetos na área educacional para essas populações, com o intuito de prepará-los para esse novo modelo econômico. Esses trabalhos realizados junto à classe trabalhadora eram chamados de “trabalhos comunitários.”

Esse projeto de educação era realizado por um interesse econômico do Estado, e os profissionais que estavam integrados neste projeto de educação eram “provenientes das ciências humanas e sociais” (FREITAS, 1996, p. 57). Diante desse desenvolvimento econômico, o país passa para a década de 50 com projetos Comunitários realizados em vários lugares, no entanto, esses trabalhos ainda tinham um foco paternalista.

Nos anos 60 surgem movimentos de resistência frente ao modelo capitalista que não davam conta das necessidades primárias dos populares. Dessa maneira, tanto a população urbana como a população rural reivindicavam melhores condições relacionadas às suas necessidades básicas. Neste período, “o custo de vida torna-se insuportável para a classe trabalhadora” como sinaliza FREITAS (apud FREIRE, 1979, p 57) “[...] as greves espalham-se em vários setores da população e dos serviços, o desemprego atinge números assustadores, e a inflação e o custo de vida torna-se insuportáveis para as classes trabalhadoras e para população em geral”.

Com essa crise, o Brasil, nos primeiros anos da década de 60, procura intervenções na área educacional, com o objetivo de desenvolver na população uma consciência crítica, a fim de que a mesma pudesse tomar o seu lugar de sujeito ativo. Conforme Freitas (1996, p. 57), trabalhos de educação popular foram realizados utilizando método de Paulo Freire, esses trabalhos tinham um compromisso de fazer com que o individuo resgatasse seu papel como agente histórico e social. (FREITAS apud FREIRE, 1979, p. 57).

O Pensamento Freiriano é o de conscientizar a comunidade para que esta possa conhecer seus direitos e deveres. Segundo o mesmo autor, uma comunidade desconscientizada “prefere viver como Deus quiser a reivindicar seus direitos” (FREIRE, 1980, p. 59). Os trabalhos desenvolvidos no nordeste por profissionais duraram pouco tempo, esses trabalhos começou a gerar na população uma vontade lutar por seus direitos, lutar por melhores condições de vida, no entanto, o Estado impedia o fortalecimento da população.

Sendo assim, algumas reivindicações populares acontecem neste período, como a caminhada dos camponeses por condições melhores no plantio; os operários por melhores condições salariais dentre outros. Em Março de 1964, instaura-se a ditadura no país, que obriga a população a viver no regime ainda pior, a miséria e a pobreza eram assustadores (FREITAS, 1996, p.58).

Diante disso, perto das indústrias estavam as casas e casebres que iam crescendo de forma desajeitada, sem segurança alguma. Essas moradias eram construídas próximas dos locais onde as pessoas podiam trabalhar. “As pessoas que habitavam nessas casas, vilas, bairros eram trabalhadores destas fábricas, hospitais, indústrias e mansões” (FREITAS, 1996, p.59).

Oficialmente o reconhecimento da profissão de Psicólogo no Brasil foi em 27 de agosto de 1962, os primeiros cursos tinham o seu arcabouço teórico oriundo dos Estados Unidos. A Psicologia baseou a sua prática a partir de trabalhos realizados em consultórios, ambientes escolares e nas organizações, essas práticas eram especialmente na década de 60.

Em meados dos anos 60, em alguns lugares dá-se a entrada do profissional de psicologia nos setores desfavorecidos com a preocupação de tornar essa prática próxima do povo, com o intuito de deselitizar a profissão. Essas práticas ganharam forças. Nesse período, surge a primeira turma de psicologia no Brasil. Em um contexto de desespero da população com o descuido do Estado e diante de vários conflitos sociais que o psicólogo é desafiado a atuar.

O termo psicologia na comunidade é utilizado quando alguns estudantes, psicólogos e professores de graduação começam a desenvolver trabalhos em comunidade de baixa renda no estado de São Paulo. Na década de 70, no estado de Belo Horizonte na Universidade Federal de Minas (UFMG), a disciplina Psicologia Comunitária começa a fazer parte do currículo acadêmico. O psicólogo trabalhava de maneira voluntária, convicto do seu compromisso político e social junto a essas populações carentes (FREITAS, 1996, p.60).

Os Psicólogos utilizaram referencias da Sociologia, Antropologia, entre outras áreas das Ciências Humanas para o desenvolvimento de seus trabalhos em comunidades (FREITAS, 1996, p.62) A preocupação desses profissionais eram desenvolver atividades que permitissem à Psicologia estar mais próxima do povo, auxiliando práticas para que a população pudesse se organizar de forma política e reivindicasse por melhores condições de vida.

Devido ao contexto histórico que o Brasil estava vivendo, quaisquer práticas eram bem recebidas na Comunidade, contando que fossem com o objetivo de prestar algum tipo de assistência. As reflexões levantadas em relação aos instrumentos utilizados nesse período eram pouco discutidas, haja vista que existiam pouco psicólogos disponíveis para atuar neste campo (CRUZ; AMORETTI, 2010, p. 72).

b) Anos 70 – Psicólogo junto a Movimentos Populares

O Brasil ainda estava sob o regime militar, a população criava meios de mobilização, através de movimentos sociais. Geralmente, essas mobilizações ocorriam em associações de moradores, nas comunidades eclesiais de base, nos órgãos de defesa do cidadão. Profissionais de vários saberes se uniam a esses setores populares com o objetivo de contribuir com os movimentos populares que iam crescendo, embora timidamente (FREITAS, 1996, p. 63).

Foi junto a esses movimentos populares, que se iniciou a prática da Psicologia Social Comunitária, com características de se voltar para diferentes problemáticas, além daquelas com que se trabalhava anteriormente. Segundo Freitas (1996, p.64), o interesse desses intelectuais e profissionais nestas questões sociais era devido a uma extrema miséria que essa população estava vivendo, por isso tamanho envolvimento.

Os profissionais participavam dos movimentos populares com a crença de colaborar para uma sociedade mais justa e igualitária.  Para tanto, os profissionais de psicologia começaram a marcar espaço, saindo das escolas, consultórios e, indo para os bairros, favelas, associações de moradores.

O modelo clínico se mostrava, portanto, inadequado, visto que não se tratava apenas de uma mudança geográfica da prática clínica. As atividades que eram realizadas pelos profissionais de Psicologia junto com outras Ciências Sociais e Humanas aconteciam a partir de reuniões para discutir as questões que a população estava vivenciando, fazia-se um levantamento de necessidades; descrições das condições de vida; do modelo educacional e suas deficiências; discutiam sobre a saúde da população e, a partir disso, ofereciam serviço psicológico gratuito. A ação conjunta acontecia em passeatas, abaixo-assinado ou qualquer forma de resistência frente a precariedade das condições de vida da população (FREITAS, 1996, p.65).

Como os trabalhos em comunidade, a princípio, eram voluntários, os profissionais como forma de sobrevivência investiram na docência. Questões em relação à inserção do psicólogo na comunidade foram discutidas nas universidades, iniciaram-se debates acerca da postura deste profissional nas comunidades. Existiam trabalhos já publicados por professores e alunos que desenvolveram trabalhos na Zona Leste de São Paulo em uma comunidade de baixa renda e na UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais já existia a disciplina que discutia questões ligadas à ecologia humana e movimentos populares (AMORETTI; CRUZ; FREITAS, 2010, p. 78).

c) Anos 80 – Criação da Associação Brasileira de Psicologia (ABRAPSO)

Nos anos 80, a denominação da palavra psicologia comunitária passa a ser mais freqüente, profissionais se apropriam desse termo em debates e discussões. Em fins dos anos 70 e começo dos anos 80, reflexões são feitas em relação aos trabalhos desenvolvidos em comunidade, questiona-se o seu caráter voluntário e os modelos de intervenções utilizados pelos psicólogos que atuam neste campo. Trabalhos em Psicologia Social Comunitária são publicados, neste período pessoas como Sílvia Lane, a pioneira em psicologia social no Brasil e outros autores trazem em suas publicações questões referentes ao desenvolvimento do trabalho do psicólogo em comunidades (FREITAS, 1996, p.65).

Em meados dos anos 80, surge a necessidade de se criar um espaço de discussões e debates para delimitar a atuação do profissional de psicologia que atua nas comunidades. Esse espaço é criado em julho de 1980 e é chamado de ABRAPSO (Associação Brasileira de Psicologia Social)

Através da ABRAPSO, uma Psicologia Social crítica foi construída, comprometida com a realidade obscura da população. Em cada região do país, são criados núcleos, para se realizar encontros regionais em torno das problemáticas desenvolvidas pela Psicologia Social.

Em São Paulo em um dos primeiros encontros regionais, aborda-se o tema Psicologia na Comunidade, onde os profissionais discursam sobre as suas práticas comunitárias com mulheres nas periferias, em centros de educação popular, e em creches (FREITAS, 1996, p.68). Encontros e mais encontros regionais são realizados com a intenção de se pensar sobre novas práticas, discutir as temáticas relativas ao bem-estar da população.

d) Anos 90 – Expansão do trabalho do Psicólogo Comunitário

No início da década de 90, expandiram-se os trabalhos dos psicólogos com os populares. Estes trabalhos baseavam-se em variadas práticas, com diferentes referenciais teóricos, é freqüente neste período ouvir a denominação psicologia da comunidade (FREITAS, 1996, p.69).

As práticas desenvolvidas pelos psicólogos estavam ligadas basicamente aos postos de saúde, órgãos ligados às questões familiares, instituições penais. Em se tratando de instituições, sabe-se que a atuação do psicólogo se desenvolve a partir da demanda solicitada pela própria instituição.

Com o envolvimento dos profissionais de psicologia nas questões ligadas á saúde coletiva, a sua postura, portanto, é de um trabalhador social dentro desse movimento de saúde. A Psicologia passa a ser vista como uma profissão da área de saúde. Esses primeiros anos da década de 90 foram marcados por uma diversidade teórica e metodológica no desenvolvimento desses trabalhos em comunidades.

Após a saída dos militares do governo, o país passou por uma série de dificuldades, muitas mudanças e transformações ocorreram na administração pública. Abriram-se oportunidades para os profissionais da área de humanas, com o objetivo de prestar serviços à população. A psicologia começa a ser reconhecida como profissão que presta serviços aos setores desfavorecidos, vários profissionais começam a trabalhar em bairros, postos de saúde, agora de uma maneira não mais clandestina.

Distinções Práticas e Nominativas de Psicologia na Comunidade, Psicologia da Comunidade e Psicologia Social Comunitária

Escutamos as expressões “Psicologia na Comunidade, Psicologia da Comunidade e Psicologia Social Comunitária, que aparentemente parecem que são símiles, contudo não são só meras distinções nominativas é também uma questão de prática. A expressão “Psicologia na Comunidade” (FREITAS, 1996, p.62) surgiu durante um período onde o objetivo era tornar a prática da psicologia acessível ao povo.

A postura dos profissionais de psicologia era deselitizar a profissão e, para isso, ser possível, era importantíssimo desenvolver a sua prática na Comunidade, fora das escolas e consultórios. Durante as décadas de 60 e 70 confundiam-se as expressões “Psicologia na Comunidade” com “Psicologia da Comunidade”.

A partir dos anos 90, torna-se freqüente o termo “Psicologia da Comunidade” que refere-se às práticas da Psicologia ligadas as questões da Saúde, e atividades ligadas a uma instituição, ou órgãos públicos que prestavam serviços à população onde o psicólogo trabalhava. O intuito disso tudo era defender uma psicologia menos academicista, menos intelectual e mais ligada às questões do povo (FREITAS, 1996, p.72).

Por último, surge a expressão Psicologia Social Comunitária que carrega sua prática de maneira não paternalista, presente nos modelos trazidos dos Estados Unidos. O seu arcabouço teórico é oriundo da Psicologia Social, tendo como foco o trabalho grupal, como o objetivo de desenvolver uma consciência crítica na população e “uma construção de uma identidade social e individual orientadas por preceitos eticamente humanos”(FREITAS, 1996, p.73).

[...] A Psicologia (social) Comunitária utiliza-se do enquadre teórico da psicologia social, privilegiando o trabalho em grupo, colaborando para a formação da consciência crítica e para a construção de uma identidade social e individual orientadas por preceitos eticamente humanos [...] (FREITAS, 1996, p.73).

Comunidade: Mito ou Realidade?

Quando ouvimos a palavra Comunidade surge um pensamento de um lugar harmonioso, aconchegante ou até mesmo um lugar difícil de encontrar. Um lugar onde os relacionamentos duram, todos são solidários uns com os outros, lugar onde não existem invejas, que todos dividem o pão, praticamente um “Éden”. (BAUMAN, 2003, p.12)

Durante certo período, o termo Comunidade não era um assunto tão interessante de ser analisado, esse interesse surgiu nos anos 70 quando a Psicologia Social se autodeclara Comunitária. A Psicologia Social não é a única ciência que se debruça a analisar questões referentes a essa temática, as ciências humanas e sociais nos anos 70 e 80 também se despertaram em relação a esse tema, a partir de uma avaliação crítica dos modelos empregados pela ciência em questões referentes à população.

Nas ciências humanas, especificamente na Psicologia Social, o conceito de Comunidade, tornou-se sinônimo de qualquer atividade de cunho profissional realizada fora de instituições, fora de escolas e consultórios, com a perspectiva de uma prática comprometida com o povo. Comunidade para alguns aparece como mito, oriundo de um processo globalizado que impede a vida em comum e harmoniosa, um mito que remete-se ao passado, como se algo fosse perdido pelo homem e o que ele vivesse agora não seria de fato uma Comunidade.

Criam-se modelos de Comunidade como um lugar ideal, um local onde as pessoas são inclinadas à prática do bem. Existem diversos significados e interpretações em relação à palavra Comunidade, e cada pessoa possui o direto de empregar o termo no sentido que queira. Guareschi (2009), afirma que parte-se de um pressuposto que cada pessoa percebe o mundo de uma forma, que cada pessoa possui uma história de vida e, por isso, a importância de perguntá-las o que elas querem dizer mesmo quando falam sobre Comunidade.

Comunidade “aparece e desaparece” nas reflexões sobre questões ligadas ao homem e sociedade. Os iluministas associavam comunidade ao regime feudal, por essa razão ocorreu um movimento anticomunitário com objetivo de destruir a opressão causada pelo sistema feudal. Para eles, comunidade impedia o progresso, pelas inúmeras tradições que carregavam. Os iluministas acreditavam que o homem só poderia ser livre e progredir através da razão, do conhecimento.

Eles valorizavam o individualismo, acreditavam no ser humano como único e suficiente em si, que não tinham nada a ver com os outros e não necessitavam do outro para se constituir. Essa concepção adotada pela modernidade sufocou a idéia de Comunidade.

No entanto, nesse mesmo período houve uma recuperação do conceito de comunidade como “modelo de boa sociedade, ameaçado pelo individualismo e racionalismo” (SAWAIA, 1996, p.38). A partir desse renascimento do conceito de comunidade começam a surgir os debates, de um lado, punida como tradicional e conservadora que impedia o progresso e, de outro, protótipo de coisas boas que a modernização destruiu.

As expressões de comunidade podem ser encontradas na família, religião, raça, nação, sua delimitação pode ser local ou global, o que importa mesmo é comunhão de objetivos.

O Conceito de Comunidade sempre esteve no pensamento político, filosófico e teológico, entretanto a sociologia -ciência que surge no século XIX- torna comunidade uma categoria analítica e isso se estabelece a partir da análise das diferenças entre comunidade e sociedade.

Comunidade e Sociedade

Esse debate sobre Comunidade e Sociedade partiu da sociologia alemã. Segundo Sawaia (1996), a Comunidade é diferente da sociedade por três aspectos: o sangue, o lugar, o espírito, o sangue como símbolo de vínculo e crença comuns. Na Comunidade são encontrados sentimentos nobres como a honra, amizade e o amor, a relação em Comunidade é baseada no sentimento do pertencer, estar ligado e implicado com o outro.

Já na Sociedade do ponto de vista moral não há nada positivo, os homens não estão vinculados, estão divididos. A sua base é troca e o dinheiro, não existe cumplicidade.

No século XX, Comunidade tornou-se referencial de análise que permite olhar a sociedade do ponto de vista do vivido, “sem cair no psicologismo reducionista” (SAWAIA, 1996, p.41). Neste período há uma explosão de estudos pela sociologia em relação à Comunidade. O pensamento Marxista em relação a sociedade e Comunidade,influenciou várias áreas das Ciências Humanas, uma delas foi a  Sociologia. Marx acreditava que a sociedade não tinha harmonia, e sim, conflitos, enquanto que Comunidade deveria ser várias pessoas, de vários lugares lutando por ideal. (SAWAIA, 1996).

Comunidade e Psicologia Social

Antes da década de 70 não se encontraram nos referenciais teóricos de Psicologia Social o conceito de Comunidade. O conceito de Comunidade só aparecia para explicar questões referentes aos homens em sociedade, comunidade era sinônimo de sociedade. Nas pesquisas de Wundt em 1904, o conceito de Comunidade aparece como interação coletiva, e essa interação que mantém a unidade de seus participantes. Alguns autores, inclusive Freud em 1976, consideravam a Comunidade injusta e negativa, por considerar todos os homens com as mesmas necessidades e desejos, negando a sua individualidade.

A Psicologia Social dedica-se a analisar e investigar, grupos e interação social, nem mesmo na Psicologia Social, comunidade aparece como centro de investigação. Esse interesse por grupos e questões grupais foi oriundo dos modelos de uma psicologia norte americana, onde o profissional de psicologia deveria ajustar a integração de grupos e indivíduos a uma sociedade que fora vitima de guerras (SAWAIA, 1996, p. 44).

É a partir desse arcabouço teórico que o conceito de Comunidade torna-se um referencial analítico para Psicologia Social. Comunidade penetrou na Psicologia no seio de um corpo teórico pelo método experimental, com objetivo de transformar atitudes de indivíduos e grupos pela integração. A princípio Comunidade foi introduzida na área clínica, com o intuito de humanizar o atendimento ao que sofria mentalmente, trabalhava-se em Comunidades com o objetivo de desenvolver habilidades individuais, coletivas e grupais, para integrar a população aos programas de modernização e para prevenir doenças.

As primeiras experiências estiveram associadas à educação popular, à medicina psiquiátrica social sob orientação do Estado. Comunidade era compreendida como unidade de consenso, ou seja,quando as pessoas que nelas estão envolvidas aceitam todas as condições, havendo um consenso (SAWAIA, 1996).

Os psicólogos que trabalhavam em Comunidades se inspiravam em teorias psicológicas que mais se aproximavam do social e das questões sobre subjetividade. Na década de 70 começou a pensar nos destinatários, e nas intencionalidades dessa prática na Comunidade, a intenção era a mesma: tornar a Psicologia próxima do povo (SAWAIA, 1996).

Antes, o psicólogo era confundido como um educador popular, com o assistente social, ou como um clinico fora dos consultórios devido ás práticas primárias nas Comunidades.  Agora ele é considerado um militante com o objetivo de promover e desenvolver uma consciência critica na população, para que estes possam batalhar por suas causas. Neste contexto Comunidade é entendida com um lugar que reúne a classe trabalhadora (SAWAIA, 1996).

Na visão da Psicologia Comunitária norte americana o entendimento de mudança estava ligado com a adaptação dos setores pobres e atrasados ao capitalismo avançado, já na Psicologia Comunitária latino-americana a transformação é compreendida como a mudança de uma sociedade explorada, pela revolução socialista (SAWAIA, 1996).

 Psicólogo e Comunidade: Possibilidades e Desafios

A Psicologia Comunitária opera com a base teórica em Psicologia Social, e seu estudo baseia-se em entender a constituição da subjetividade dos seres humanos numa Comunidade (NEVES; BERNARDES, 1993). O foco da Psicologia Comunitária baseia-se em práticas grupais, a intervenção grupal torna-se necessária em Comunidades para o desenvolvimento da consciência, no qual um componente do grupo se descobre no outro, percebendo-se conjuntamente (LANE, 1996).

Para se atuar numa realidade social, é importante conhecer o contexto histórico em que essa realidade se desenvolve, diante disso, surge um desafio de intervenção social, visto que vivemos em uma sociedade em transformações constantes, as coisas vão mudando e mudam cada vez mais rápido. Como diz Casas (2005,p.8), “[...] A complexidade das dinâmicas sociais dificulta tentativas de previsão [...] tais mudanças penetram mais do que nunca em nossos lares, e exercem influências extraordinárias em nossas vidas cotidianas”.

É fundamental, para os psicólogos, levar em conta as questões psicossociais do contexto, sobretudo do ponto de vista macrossocial. Na maioria das vezes, alguns psicólogos se definem como atuantes de uma esfera microssocial, fazendo uma delimitação de sua atuação. É como se as relações existentes nos níveis micro não fizessem parte da ordem macro. Os níveis micro e macrossocial estão interligados, e o profissional necessita ter uma compreensão em relação a essa questão.

O trabalho em Comunidades não é um trabalho que dicotomiza esses níveis, as questões referentes ao nível micro estão inseridas no nível macro, é necessário compreender o sujeito integralmente. Sabemos que existem questões individuais que se manifestam durante uma intervenção na Comunidade, entretanto, é a partir de uma relação conjunta que o sujeito poderá transpor as suas questões individuais. Mesmo em grupo, o sujeito poderá preservar sua singularidade, mas necessitando do outro para sua plena realização (GUARESCHI, 1996).

A questão referente à entrada do psicólogo na Comunidade pressupõe necessariamente uma relação que se estabelece entre o psicólogo e a Comunidade, essa relação é essencial para se pensar em um modelo de intervenção.

De um lado existe o psicólogo que possui sua formação, seus conhecimentos, e sua metodologia de trabalho, sua percepção sobre o mundo e homem. Do outro lado, existe a Comunidade com suas características próprias, com o seu modo de funcionamento, vivendo um momento histórico determinado. Os profissionais e a Comunidade possuem modos de ações diferentes, manifestados através das visões de mundo que, muitas vezes, não são conciliáveis (FREITAS, 1986).

Modos de Inserção do Psicólogo nas Comunidades

Os trabalhos realizados nessas últimas décadas em Comunidades têm revelado diferentes modos de inserção do psicólogo, essa inserção também tem gerado preocupações, principalmente devido ao fato de se trabalhar com metodologias e instrumentos poucos utilizados por outras áreas da Psicologia. Há que se ressaltar, contudo, que a metodologia da pesquisa participante – tão comum em trabalhos de Psicologia Comunitária – é ilustrativa desse modelo em que sujeito e objeto são ativos na pesquisa.

O interesse da inserção do Psicólogo em Comunidades na década de 70 foi devido à repressão política que o país estava vivendo: a intervenção era caracterizada pela militância e pela participação política. Nas décadas de 80 e 90, houve um reconhecimento maior acerca da participação do Psicólogo nas Comunidades, trabalhos em Psicologia Social Comunitária começaram a ser reconhecido academicamente. (FREITAS, 1996, p.65)

Houve e existem atualmente profissionais que oferecem atendimento psicológico gratuito em Comunidades como forma de conhecer e se aproximar mais daquela população. Entretanto, tal como citado na introdução deste trabalho, esta modalidade de intervenção ainda repete um modelo desigual em que, de um lado tem a Comunidade que “precisa” de um atendimento psicológico e, de outro, está o psicólogo oferecendo ajuda, interessado em criar intervenções, para adequar a população ao um sistema, achando que, com isso, minimizará seus desesperos. A sua inserção baseia-se em atendimento psicológico aos desfavorecidos (FREITAS, 1996).

Existem também outras formas do profissional de Psicologia entrar numa Comunidade como, por exemplo, quando motivados pelo simples fato de querer conhecer esse campo que para ele é desconhecido ou então, por simples curiosidade, alguns estudantes, profissionais se inserem em um ambiente comunitário com intuito de estudá-los. Essa inserção baseia-se em curiosidade cientifica (SAWAIA, 1995).

Existe, por fim, outro tipo de inserção que é baseada na proposta de intervenção da Psicologia Social Comunitária, essa inserção é orientada pela responsabilidade de que o trabalho realizado pelos psicólogos deve promover uma mudança das condições vividas pela população, sendo que esta que estabelece os caminhos a serem percorridos para mudança. Acredita-se no homem protagonista da sua história, no homem em movimento. Essa inserção baseia-se na possibilidade de uma mudança social e na construção do conhecimento da área (FREITAS, 1996).

Os trabalhos baseados na perspectiva social comunitária partem de um levantamento de necessidades, e situações enfrentadas pela população investigada, principalmente as situações que dizem respeito à saúde e à educação. Após essas investigações, procura-se trabalhar com grupos, utilizando métodos e processos de conscientização, para que eles, progressivamente, assumam seu papel de sujeitos (CAMPOS, 1996). Em Comunidade busca desenvolver condições para o exercício pleno da cidadania, da igualdade.

O Psicólogo que deseja trabalhar em Comunidades necessita de um conhecimento da teoria da Psicologia Social e, mais, especificamente da área comunitária. Faz-se necessário, sobretudo, ter um embasamento teórico nos pressupostos da Psicologia Social Comunitária. Os psicólogos que realizam trabalhos em Comunidades fazem “uso de uma técnica que permite compreender as interações dos indivíduos em grupo” (GUARESCHI; ROCHA; MOREIRA, 2010, p.188)

A técnica de intervenção por meio de Grupos Focais se utiliza da “interação focalizada” para pesquisa qualitativa de um grupo (GUARESCHI, 2010, p.189). A técnica objetiva buscar uma pluridade de ideias e não apenas uma única idéia no grupo. Por meio desta técnica, pode-se observar uma quantidade maior de interações, em um tempo limitado, pode-se também perceber as prioridades nos temas suscitados que partem da interação grupal. (GUARESCHI; BOECKEL; ROCHA, 2010, p.189).

O grupo Focal, segundo os autores Guareschi, Rocha, Moreira e Boeckel (2010, p.190) “[...] É caracterizado por ser um espaço acessível, os assuntos discutidos são de interesse comum, as diferenças de status entre os participantes não é considerada e a discussão é fundamentada em um debate racional [...]”.

Uma das abordagens teóricas da Psicologia que vem oferecendo possibilidades de trabalho nas Comunidades é o Psicodrama (NEVES; BERNADES, 1998), que foi criado por Moreno e é definida como uma ciência que explora a verdade por meios dramáticos. Drama é uma palavra de origem grega e significa ação ou algo que acontece, o berço do psicodrama é o teatro (NEVES, 1998).

A medotologia do Psicodrama leva em conta três realidades: grupal, social, dramático. O contexto da realidade social impõe ao sujeito os papéis que ele deve desempenhar, o contexto grupal é formado pelos integrantes do grupo, o vínculo formado significa mútua percepção íntima dos indivíduos (NEVES; BERNADES, 1998).

Ainda segundo as mesmas autoras (1998), ”o contexto dramático é formado pelo produto do ator principal, esse protagonista é o paciente /grupo, egos auxiliares são aqueles que contracenam com o protagonista e fazem parte da equipe terapêutica”. O diretor/terapeuta é o responsável pelo Psicodrama, e o auditório é o conjunto de pessoas que estão no contexto grupal. O tema da cena quem traz é o protagonista.

Em uma Comunidade, o drama do protagonista é da vontade do grupo, ele é o porta-voz do sofrimento coletivo ao criar conjuntamente cenas psicodramáticas, o protagonista está sendo influenciado por uma espécie de inconsciente social (NEVES, 1998). O Psicodrama acredita que a inversão de papéis, possibilite ao individuo assumir o papel de outro, e recompor o sentido da identidade e do pertencimento ao grupo (BERNARDES; NEVES, 1998).

O Psicodrama começou nas Comunidades, a partir de 1993, em serviços da rede municipal do Estado de Porto Alegre, em um projeto de Educação Social e Escola Aberta (BERNARDES, 1998) O propósito desse projeto originou-se devido às situações de risco enfrentadas pelas crianças e adolescentes, e o nome do projeto pedagógico é “Jovem Cidadão”, e foi desenvolvido em nove Comunidades (NEVES, 1998). Com a finalidade de assistir á população de baixa renda, com base no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente).

O Conselho Tutelar encaminhava jovens envolvidos em situação de roubo, violência, drogadição aos Centros para que recebessem atendimento socioeducativo (NEVES; BERNARDES, 1998). A participação da Psicologia acontecia nas oficinas de Psicodrama, o trabalho que era feito pelos psicólogos era a socialização de crianças e adolescentes em situação de risco a partir da visão dos integrantes quanto ao seu mundo de relações interpessoais, e aprendizado e desempenho de papéis sociais frente a sua realidade (NEVES, 1998).

Essa proposta de intervenção psicossocial tinha por objetivo, auxiliar essas crianças a tomarem uma nova posição, de sujeitos mais autônomos e menos submissos, o modelo de intervenção proposto era trabalhar com a matriz de identidade, que segundo Neves (apud MORENO, 1978) é um dos primeiros processos de aprendizagem da criança, no qual ela se relaciona com pessoas e objetos, sendo a família a base principal para a constituição de papéis.

A conscientização dos papéis desempenhados psicodramaticamente , seja na fantasia ou no contexto grupal, desenvolveria nas crianças uma nova postura, uma nova posição e uma mudança na qualidade das relações, dentro e fora do contexto grupal (BERNARDES, NEVES, 1998).

Outra abordagem da Psicologia que tem se feito presente nas Comunidades, é abordagem psicanalítica. O referencial psicanalítico tem como técnica a escuta, e essa escuta faz o profissional assumir uma postura de “não saber” para não criar na Comunidade uma expectativa achando que o profissional de psicologia seja “aquele que tem para dar” figura de um modelo assistencialista (JÚNIOR; RIBEIRO, 2009, p.91).

No trabalho com Comunidades se o psicólogo se mantiver em uma posição de mestre, irá interromper o desenvolvimento de um processo onde a Comunidade possa identificar quais sejam verdadeiramente as suas necessidades, e não esperar ações do profissional, que “certamente efeitos alienantes sobre a Comunidade” (JÚNIOR; RIBEIRO, 2009, p.92). Sabemos que para se realizar uma intervenção na Comunidade, é fundamental conhecê-la antes de intervir, levando em conta os conhecimentos adquiridos ao longo da vida das pessoas, suas subjetividades. Segundo Júnior, Ribeiro (2009, p.93), “[...] É de suma importância que o profissional consiga distinguir entre aquilo que a Comunidade está solicitando diretamente daquilo que, de fato, constitui o desejo que a move [...]”.

Diante disso “é essencial trazer o conceito de demanda e desejo, entende-se por demanda um apelo que o sujeito faz em busca de um complemento” (JÚNIOR, RIBEIRO 2009 apud QUINET, 2000,). Já o desejo é a busca por aquilo que nunca se viu, ou existiu e por o sujeito nunca encontrar aquilo que ele deseja verdadeiramente, ele fica em constante movimento (JÚNIOR; RIBEIRO, 2009).

Alguns trabalhos foram realizados na capital Paulista e um dentre eles foi um trabalho realizado junto a técnicos do governo que trabalhavam com pessoas que moravam em barracos, áreas consideradas de risco pela Defesa Civil, essa Comunidade era assistida por um projeto de moradia do Estado (JÚNIOR; RIBEIRO, 2009). Os técnicos contaram aos psicólogos que não compreendiam os moradores que recebiam as casas novas pelo Estado e ao invés de morar, alugavam, vendiam ou devolviam. Segundo os técnicos eram poucas as pessoas que chegavam a morar nas casas, e perguntavam-se aos psicólogos o porquê dessas atitudes.

Durante as conversas, os técnicos chegavam a dizer que a Comunidade é “mal agradecida” e que “continuariam na pobreza” (JÚNIOR; RIBEIRO, 2009, p.94). Os profissionais perceberam que essa tentativa de ajuda foi pensada para a Comunidade e não com a Comunidade, o que resulta em uma ação assistencialista, colocando os membros da Comunidade em uma posição vitimizada, o fato de estarem sem casa.

A partir desse exemplo percebemos que não é levada em consideração a questão do desejo/demanda, cabe ao profissional instruído pela teoria psicanalista estar atento às questões relacionadas entre o que é de ordem do desejo e da demanda, necessariamente não precisa responder à demanda, visto que ela é insatisfeita por “natureza” o profissional necessita escutar a demanda, trabalhá-la e perceber o que está além dela – o desejo (JÚNIOR; RIBEIRO, 2009). Diante do exemplo citado acima em relação as casas para a Comunidade, era fundamental questionar a Comunidade em relação a essa própria ação. Segundo Júnior, Ribeiro, (2009, p.92) seria mais ou menos assim: “[...] O que vocês imaginam que vai acontecer se vocês tiverem uma casa? [...] A que essas casas vão servir? [...] Como vocês imaginam que essas casas poderão mudar a vida de vocês? [...]”.

Por mais que pareça óbvio, essas indagações são essenciais, pois através dessas indagações muitas questões poderão vir à tona. Ninguém procurou interrogar a Comunidade, questioná-la, pelo contrário, levou em consideração algo externo – a moradia precária, no entanto a Comunidade mesmo com essa necessidade externa, mostrou-se contrária. Se o profissional que atua em Comunidades levar em consideração o que a Comunidade solicita e o que ela realmente deseja, ele terá grandes chances de viabilizar uma mudança de posição dessa Comunidade (JÚNIOR; RIBEIRO, 2009).

Alguns desafios são encontrados pelos psicólogos comunitários que surgem como um ponto de reflexão que são as diferenças socioeconômicas entre o psicólogo e a Comunidade, problemas referentes à resistência da Comunidade diante de uma intervenção externa (BONFIM; FREITAS, 1989). Definição da especificidade do papel do psicólogo nas Comunidades (BONFIM; 1989). Dificuldades em relação aos modelos institucionais paternalistas que desafiam os trabalhos realizados pelos psicólogos comunitários, pois impedem que os sujeitos possam tomar uma postura de autores da sua história.

Por parte da Comunidade, existe uma expectativa de que o psicólogo resolva suas questões pessoais ou questões relacionadas à saúde, educação, moradia (ANSARA; DANTAS, 2010). E essa expectativa da Comunidade continua obscurecendo a proposta do trabalho comunitário, pois, na maioria das vezes as pessoas não entendem como funciona o trabalho do psicólogo nas Comunidades. O trabalho realizado pelos psicólogos Comunitários não é: Um trabalho clínico individualizado; não se configura de forma assistencial – paternalista; não se mantém em uma relação de dominação, pelo contrário promove uma relação de igualdade.

Considerações Finais

Ao analisar e compreender o desenvolvimento da Psicologia Social Comunitária no Brasil percebeu-se uma mudança dos enfoques metodológicos da práxis do psicólogo comunitário no decorrer desses anos. Visto que no início de sua profissão o psicólogo atuava de forma individualizada e assistencialista, sem se preocupar com a questão da autonomia do sujeito. Considerando essa análise entendeu-se o amadurecimento da Psicologia (Social) Comunitária no decorrer de toda a sua história, esse amadurecimento pode ser percebido a partir da criação da ABRAPSO (Associação Brasileira de Psicologia Social) das pesquisas e trabalhos divulgados da prática do psicólogo em Comunidades. Das reuniões anuais da ABRAPSO, com o intuito de refletir sobre as práticas da psicologia social no contexto social, inclusive o Comunitário.

O trabalho em Comunidades é bastante complexo, o profissional que deseja trabalhar nesse campo necessita se “despir” do pensamento que já sabe tudo, sendo esse um dos desafios enfrentados pelos profissionais de psicologia. A Comunidade já possui um saber próprio, que não é necessariamente um saber científico, contudo não deixa de ser um saber. E é a partir desse “saber comunitário” que as intervenções se iniciam. O psicólogo não fica em uma posição de ajudador da Comunidade, pelo contrário, ele auxilia a Comunidade a identificar seus problemas e solucioná-los, por isso o trabalho em grupo.

O trabalho grupal permite aos integrantes da Comunidade perceber uns aos outros, e a se identificar cada um com a história de vida do outro, o psicólogo nesse momento pode se apresentar como aquele que facilita a comunicação entre a Comunidade.

Apesar dos repletos desafios enfrentados no trabalho em Comunidades, a experiência, contudo, é rica, permitindo ao profissional repensar e refletir sobre a sua prática. Como já citamos anteriormente ao longo do artigo, se a Comunidade não fizer parte do processo de intervenção, os resultados serão pouquíssimos. As intervenções, por sua vez, devem ser com a Comunidade e não para a Comunidade modelo de uma prática assistencialista.

Descobrimos também a importância da devolutiva, após o trabalho nas Comunidades, levando em consideração que a opinião da Comunidade é necessária para percebemos como se configurou as intervenções e quais foram os resultados obtidos. Essa devolutiva não é só por parte da Comunidade, o psicólogo por questões éticas necessita esclarecer algumas informações colhidas durante os trabalhos realizados para que a Comunidade não se sinta um objeto “usado”.

Sobre o Artigo:

Trabalho de conclusão de curso apresentado ao curso de Psicologia do Centro Universitário Jorge Amado como pré-requisito parcial para a obtenção do grau de Psicólogo sob a orientação da Profa. Rosana Allatta.

Referências:

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