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Resumo: o aconselhamento surgiu com a Fundação de Centros de Orientação Infantil e Juvenil, com o aparecimento da orientação profissional a criação de Serviços de Higiene Mental e nas instituições de Assistência Social e serviços de assistência psicológica nas empresas. O aconselhamento psicológico visa facilitar uma adaptação mais satisfatória do sujeito à situação em que se encontra e aperfeiçoar os seus recursos pessoais em termos de auto-conhecimento, auto-ajuda e autonomia. A finalidade principal do aconselhamento em saúde é a redução de riscos para a saúde, obtida através de mudanças concretas do comportamento do sujeito e constitui-se como parte integrante dos processos de melhoria da qualidade em saúde e da humanização dos serviços.

Palavras-chave: psicologia; aconselhamento psicológico; saúde.

Historicamente o aconselhamento surgiu com os seguintes movimentos psicológicos: Fundação de Centros de Orientação Infantil e Juvenil (para pais e filhos) na primeira década do século XX; aparecimento da orientação profissional; a criação de Serviços de Higiene Mental para adultos; as instituições de Assistência Social que necessitavam dar a seus clientes além de assistência médica e financeira, oportunidades de expressão e alívio de suas cargas emocionais; o desenvolvimento dos serviços de assistência psicológica nas empresas também ofereceu um novo campo de aplicação do aconselhamento (Scheeffer, 1977).

De acordo com a Associação Européia para o Aconselhamento (1996) o aconselhamento psicológico está relacionado à resolução de problemas, o processo de tomada de decisões, o confronto com crises pessoais, a melhoria das relações interpessoais, a promoção do auto-conhecimento e da autonomia pessoal, o caráter psicológico da intervenção é centrada em sentimentos, pensamentos, percepções e conflitos e a facilitação da mudança de comportamentos.

Em geral, o aconselhamento psicológico (counselling) visa facilitar uma adaptação mais satisfatória do sujeito à situação em que se encontra e aperfeiçoar os seus recursos pessoais em termos de auto-conhecimento, auto-ajuda e autonomia. A finalidade principal é promover o bem-estar psicológico e a autonomia pessoal no confronto com as dificuldades e os problemas (Trindade e Teixeira, 2000).

Aconselhar não é dar conselhos, fazer exortações nem encorajar disciplina ou prescrever condutas que deveriam ser seguidas. Pelo contrário, trata-se de ajudar o sujeito a compreender-se a si próprio e à situação em que se encontra e ajuda-lo a melhorar a sua capacidade de tomar decisões que lhe sejam benéficas (Rowland, 1992). O aconselhamento psicológico é diferente de psicoterapia. Tais diferenças referem-se ao caráter situacional, o aconselhamento está centrado na resolução de problemas do sujeito, focalizado no presente, com uma duração mais curta, mais orientado para a ação do que para a reflexão, predominantemente está mais centrado na prevenção do que no tratamento.

Aconselhamento em Saúde

A finalidade principal do aconselhamento em saúde é a redução de riscos para a saúde, obtida através de mudanças concretas do comportamento do sujeito.

Segundo Trindade e Teixeira (2000) o aconselhamento psicológico em saúde é uma intervenção que consiste em ajudar o sujeito a manter ou a melhorar a sua saúde, nomeadamente na adoção dum estilo de vida saudável e comportamentos de saúde (ao nível da alimentação, exercício físico, uso de substâncias, gestão do stress, etc.) e na adaptação psicológica a alterações do estado de saúde (confronto com a doença e a incapacidade), em tudo o que isto possa envolver de mudança pessoal, ajustamento a uma nova situação, interação com técnicos de saúde, adesão a tratamentos e medidas de reabilitação.

O aconselhamento psicológico em saúde pode desenvolver-se em diferentes locais: no sistema de saúde (Centros de Saúde, hospitais, maternidades), em empresas (serviços de saúde ocupacional), serviços e centros de reabilitação e em organizações comunitárias.

Trindade e Teixeira (2000) dizem que a grande finalidade é ajudar o sujeito a mudar comportamentos relacionados com a saúde e/ou a lidar com as ameaças à sua saúde, o que quer dizer que a utilidade do aconselhamento está associado a duas grandes áreas da intervenção do psicólogo na saúde: a área da prevenção e a área da adaptação à doença. Os objetivos principais do aconselhamento psicológico em saúde são:

  • Disponibilizar ajuda para dar resposta às necessidades psicológicas dos sujeitos saudáveis e doentes
  • Facilitar a mudança de comportamentos relacionados com a saúde
  • Escutar e acolher as preocupações e o sofrimento, e promover o bem- estar psicológico;
  • Identificar as preocupações fundamentais que o sujeito tem em relação à saúde e ajudá-lo a lidar eficazmente com elas
  • Detectar dificuldades comunicacionais e/ou relacionais com a família ou com os técnicos de saúde e ajudar o sujeito a desenvolver estratégias que permitam superar essas dificuldades
  • Ajudar a tomar decisões informadas, no quadro das circunstâncias concretas de saúde/doença em que se encontra;
  • Transmitir informação personalizada; - Promover o desenvolvimento de competências Sociais;
  • Aumentar o autoconhecimento e a autonomia, contribuindo para o desenvolvimento pessoal;
  • Orientar para outros apoios especializados.

A relação clínica no aconselhamento envolve três componentes diferentes, cujo peso específico pode variar em cada intervenção ou em cada entrevista em função das necessidades específicas do sujeito: (1) de ajuda, para lidar com as dificuldades, identificar as soluções, tomar decisões e mudar comportamentos; (2) pedagógica, relacionada com a transmissão de informação e (3) de apoio, relacionado com a transmissão de segurança emocional, facilitação do controle interno e promoção da autonomia pessoal.

O aconselhamento pode ser definido como um processo de

(...) escuta ativa, individualizado e centrado no cliente. Pressupõe a capacidade de estabelecer uma relação de confiança entre os interlocutores, visando o resgate dos recursos internos da pessoa atendida para que ela mesma tenha possibilidade de reconhecer- se como sujeito de sua própria saúde e transformação (MS, 1997, p.11).

O Ministério da Saúde pressupõe como práticas do aconselhamento: exercício de acolhimento; escuta ativa; comunicação competente; avaliação de riscos e reflexão conjunta sobre alternativas para novos hábitos de prevenção; orientação sobre os aspectos clínicos e do tratamento (com vistas à adesão e melhoria da qualidade de vida).

A atitude de escuta pressupõe a capacidade do profissional em proporcionar um espaço onde o usuário possa expressar aquilo que sabe, pensa e sente em relação a sua situação de saúde, responder às reais expectativas, dúvidas e necessidades deste e prestar-lhe apoio emocional.

A comunicação competente diz respeito a informações apropriadas às necessidades do usuário e adequadas do ponto de vista técnico científico e com clareza da linguagem empregada.

No processo de aconselhamento deve ser buscada a adequação da linguagem, na busca de favorecer a compreensão do conteúdo a ser comunicado, pode-se lançar mão de analogias, metáforas, gírias, expressões populares e sinônimos para que os termos e conhecimentos científicos não sejam obstáculos à compreensão da informação.

Há ainda que se ressaltar que o processo comunicacional não é uma linha contínua, de mão única, restrita à relação entre emissor - mensagem - receptor, mas um processo complexo (Araújo & Jordão, 1995). O receptor é sujeito ativo de reconstrução interpretativa do conteúdo informacional.

Problemas de recepção não se limitam à falta de clareza da linguagem, podem estar relacionadas à não-partilha dos significados culturais vinculados às vivências do receptor. O processo de comunicação não se baseia numa relação estanque entre emissor e receptor, mas numa troca (que pode ser conflitiva) entre ambos, em que emissor se torna receptor e vice-versa. O conteúdo a ser comunicado precisa ser competente, do ponto de vista de uma compreensão mediada pelos valores e vivências do grupo a que se destina.

Trindade e Teixeira (2000) apontam três motivos principais para o aconselhamento psicológico em saúde: existem relações significativas entre o comportamento, a saúde e a doença; a mudança de comportamentos relacionados com a saúde é difícil e complexa, não sendo em geral obtida por intervenções orientadas pelo modelo biomédico; é importante dar resposta às necessidades psicológicas dos usuários dos serviços de saúde.

A saúde e a doença dependem significativamente dos comportamentos individuais. As pesquisas em psicologia da saúde demonstram que a relação do sujeito com a sua saúde é complexa e mediada por variáveis muito diversas, entre as quais se referem vários atributos psicológicos, estilos de confronto com o stress, crenças de saúde, estados emocionais, crenças e atitudes etc.

A informação e a educação para a saúde são necessárias para que os sujeitos estejam informados e tenham conhecimento de quais os riscos para a saúde que decorrem deste ou daquele comportamento, mas é importante lembrar que outros fatores psicológicos podem influenciar decisivamente o seu comportamento. De tal maneira que um sujeito bem informado sobre o que pode fazer bem ou mal à saúde se envolve, apesar disto, em comportamentos de risco para a saúde. Existem variáveis individuais, relacionais e sociais que determinam comportamentos relacionados com a saúde e que são relativamente independentes do grau de informação/conhecimento que o sujeito tem sobre saúde, doença, comportamentos saudáveis e comportamentos de risco para a saúde.

Considerações finais

O aconselhamento é uma intervenção clínica que permite influenciar algumas dessas variáveis, facilitando a mudança comportamental necessária para a prevenção, o que vem ao encontro da importância que esta assume atualmente em saúde. Por outro lado, o aumento da prevalência das doenças crônicas cujo controle está muito dependente do comportamento do sujeito, é mais um aspecto que torna o aconselhamento necessário.

Trindade e Teixeira (2000) lembram que a mudança de comportamentos relacionados com a saúde é geralmente um processo difícil e complexo, que implica que o sujeito tome a decisão de mudar, opere uma mudança efetiva de comportamento e mantenha o novo comportamento a longo prazo. Estes objetivos não são geralmente obtidos pelas intervenções médicas. Aquelas etapas do processo de mudança de comportamentos relacionados com a saúde exigem uma estratégia global que envolve diferentes tipos e diferentes focos de intervenção.

O aconselhamento psicológico em saúde permitirá incluir um conjunto diverso de aspectos psicológicos (emoções, sentimentos, crenças, representações, interações, etc.) na intervenção em processos de saúde e doença, quer nos cuidados de saúde primários quer nos cuidados diferenciados. Ao permitir dar resposta a necessidades psicológicas dos usuários dos serviços de saúde, o aconselhamento constitui-se como parte integrante dos processos de melhoria da qualidade em saúde e da humanização dos serviços.

Referências:

ARAÚJO, I. e JORDÃO, E. Velhos dilemas, novos enfoques: uma contribuição para o debate sobre estudos de recepção. In: Pitta, A. M. R. (org.). Saúde & Comunicação. Visibilidades e Silêncios. São Paulo: Editora Hucitec/Rio de Janeiro: Abrasco, 1995.

MS (Ministério da Saúde), 1997. Manual de Controle das Doenças Sexualmente Transmissíveis. Brasília: Coordenação Nacional de DST/Aids.

Rowland, N. (1992). Counselling and counselling skills. In Mike Sheldon (Ed.), Counselling in general practice (pp. 1-7). London: Royal College of General Practitioners, Clinical Series.

Scheeffer, Ruth. Aconselhamento psicológico: teoria e prática. São Paulo: Atlas, 1977.

TRINDADE, Isabel e TEIXEIRA, JOSÉ A. CARVALHO. Aconselhamento psicológico em contextos de saúde e doença – Intervenção privilegiada em psicologia da saúde. Análise Psicológica (2000), 1 (XVIII): disponível em: www.scielo.oces.mctes.pt/pdf/aps/v18n1/v18n1a01.pdf