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Objetivos: Meu objetivo com este trabalho foi de apresentar algumas contribuições de diversos autores acerca da concepção de sintoma e diagnóstico, tanto em psicanálise como em psiquiatria, discutindo as implicações de cada perspectiva. Apresentei algumas definições de sintoma em medicina e psicanálise, retomando o caminho percorrido pela psiquiatria até ser tragada pelo ideal científico da sociedade moderna, e discutindo suas implicações no campo da subjetividade.

Podemos notar uma grande diferença em ser atendido por um psicanalista em um consultório, e ser atendido por um psiquiatra. Tal diferença está subordinada às implicações de diferentes concepções de sujeito e de sintoma entre as duas perspectivas. Para começarmos o presente trabalho, iremos nos deter um momento em algumas definições de sintoma e diagnóstico, para analisarmos as consequências de tais concepções, e discuti-las posteriormente.

Podemos considerar que, na medicina, o sintoma é dotado de sentido, como na psicanálise. A diferença é que compete ao médico dar a sua significação. Assim, o sintoma pode ser referido a algo detectável no organismo, permitindo que o médico o decifre com seu suposto saber e represente ou não o sujeito com a doença em questão. Na medicina, portanto, o sintoma diz que algo não vai bem, diz que há uma alteração de função ou índice de uma doença, e compete ao médico decifrar se o sintoma indica a presença de uma doença, se o sintoma é objetivo ou se é uma fantasia, e em qual diagnóstico ele pode se encaixar (Pimenta e Ferreira, 2003).

Na psiquiatria moderna, portanto, o diagnóstico não é nada mais que uma “agregação de sintomas” que representa o sujeito diagnosticado; é uma clínica do olhar, mais do que da escuta. Sua prática diagnóstica visa apreender o sintoma numa objetividade fenomenológica, puramente descritiva, isolando-o em categorias prévias que visam eliminar a implicação do sujeito em seu próprio sintoma. Por mais que se busque preservar a singularidade, atenta-nos Vieira (2001), o diagnóstico é necessariamente a atribuição de um juízo de valor, que incorpora o sujeito a uma classe, fixando-o sob um nome e o esvaziando de seu caráter evanescente e fugidio. É interessante notar que o diagnóstico não é a representação de uma categorização natural, fundada na descrição de eventos naturais que podem ser repetidamente observados. O diagnóstico é, ele próprio, a nomeação que faz existir realidades, comportando efeitos subjetivos incontornáveis (Vieira, 2001). Isso significa que o diagnóstico realiza a doença que ele supostamente representa, encaixando o sujeito em uma verdade que lhe é exterior.

Já na psicanálise, o sintoma não é entendido necessariamente como sinal de doença, mas como a marca do sujeito do inconsciente, podendo ser apreendido apenas dentro da história de cada indivíduo. Assim, o sintoma não nos remete a uma classificação de diagnósticos, mas ao próprio sujeito.

O sintoma, para a psicanálise, não é o simples elemento de uma categoria que representa um transtorno no DSM-IV, não é o simples índice de uma doença, nem um signo cujo médico veio para traduzir. O sintoma, para psicanálise, é gozo, é um modo de gozar pelo sofrimento, é aquilo que se satisfaz e do qual não se sabe (Gomes e Neme, 2010). O sintoma, assim, deve ser compreendido como o lugar de um sofrimento que proporciona satisfação sexual para o indivíduo sem que ele o saiba. Assim, a tarefa de uma análise não consiste em eliminar o sintoma, em calar o grito do sujeito, mas fazer com que o sujeito conheça os significantes que o determinaram em sua história para que, destes, ele possa se desalienar, escapando de seu poder de comando (Quinet, 2003).

Podemos observar, portanto, como a contribuição freudiana acerca da importância da escuta do sujeito vem sendo descartada e reduzida aos ditos do sujeito passíveis de serem inscritos em manuais (Bursztyn, 2008).

Foucault nos mostra em “O nascimento da Clínica” como a medicina anatomoclínica, que se afirmou no século XIX, introduziu a medicina no campo da ciência e da racionalidade moderna. Esta racionalidade permite a reificação do homem, tornando seu próprio corpo um objeto de investigação e conhecimento científico.

Na medicina que precedeu o modelo anatomoclínico, chamada de pré-científica, o sintoma era considerado a própria expressão da doença, a própria forma como a doença se apresentava, definindo sua essência (Pimenta e Ferreira, 2003). Com isso, os quadros nosológicos eram construídos com base no modelo classificatório da botânica, tendo os sintomas como elementos primordiais. A partir de Bichat (1771-1802), no momento em que a medicina se afirmou como ciência, o seu elemento ordenador passou a ser a lesão tecidual. Assim, a doença se deslocou do quadro para o corpo, sendo neste que ela deverá ser investigada (Pimenta e Ferreira, 2003). A partir de então, o sintoma é visto como signo, como significante para o médico, passando a existir uma grande apreciação por demonstrações estatísticas de índices sintomáticos. Além disso, o sintoma deixa de se caracterizar como a essência de uma doença, e passa a precedê-la como seu índice. À medida que a medicina vai absorvendo técnicas laboratoriais e instrumentais, permite ter acesso precoce aos processos orgânicos, antecipando-se aos fenômenos clínicos e à manifestação dos sintomas. Com isso, a função do médico passa a ser a de um técnico; técnico que observa o sintoma, encaixa-o em determinadas categorias diagnósticas, e identifica a doença a ser eliminada.

Com o avanço no desenvolvimento dos psicofármacos, o sintoma psíquico é tido como equivalente ao sintoma médico comum. A psiquiatria, subordinada agora ao discurso capitalista, toma o tratamento medicamentoso como ponto de referência para a conceituação de transtornos. Ao mesmo tempo em que promove o mal-estar, oferece a resposta a ele com diversos medicamentos. Vemos, assim, as neurociências não só produzindo novas drogas, mas produzindo também novas categorias diagnósticas que justificariam, assim, a utilização de psicofármacos. Poderíamos nos interrogar nesse ponto: será que não está havendo um problema de ordem ética, em que os medicamentos estão determinando os diagnósticos? A psiquiatria, vendendo sua alma ao diabo da ciência, como diria Göethe, se prestou ao discurso capitalista, suprimindo toda e qualquer manifestação do sujeito. E é a essa psiquiatria, subordinada ao discurso capitalista, que a psicanálise se contrapõe (Quinet, s/d).

A genialidade freudiana, que virá para subverter toda a relação tecnicista de médico e paciente, está em perceber a natureza radicalmente diversa do sintoma neurótico (Pimenta e Ferreira, 2003). Em suas investigações sobre a histeria, Freud se deparou com sintomas que ficavam à margem do discurso científico por não se enquadrarem em modelos e categorias pré-estabelecidas. Neste cenário, Freud passa a perseguir, como um cientista moderno, as pistas indicativas da causalidade inerente aos sintomas histéricos. Não encontrando tal visibilidade, Freud oferece sua escuta, passando a conferir o estatuto de verdade às falas das pacientes (Canavêz e Herzog, 2007). Vale ressaltar que a busca pela causalidade dos sintomas, por Freud, não visava demonstrar que os fatores etiológicos tinham na hereditariedade sua sustentação teórica. Após a postulação da pulsão de morte, por exemplo, todo o pensamento freudiano contaminado pelo projeto de uma terapêutica baseada na episteme determinista da ciência moderna se torna um obstáculo. Ao sujeito não é mais prometido algo da ordem de uma cura, mas da ordem de uma mudança no modo de existência, uma vez que o conceito de sintoma engloba, agora, a verdade do próprio sujeito, aquilo do qual não se pode escapar e que está atrelado ao próprio estilo de existência. Há algo não mais da ordem da causalidade orgânica, como na psiquiatria, mas algo da ordem de um sentido inerente ao sintoma, que diz respeito à história e à originalidade deste.

Assim, o sintoma passa a ser visto em outra dimensão, em outra cena, em que não há determinações orgânicas a serem localizadas, mas tido como o que há de mais singular no sujeito, como aquilo que deve ser acolhido e compreendido, e não eliminado. A histérica, com seus sintomas, produziu um discurso capaz de protestar um novo saber, um novo significado que venha fazer de seu caso uma exceção, revelando a importância de uma escuta não remetida apenas às categorias diagnósticas previamente construídas (Brusztyn, 2008). Diante do quadro da psiquiatria moderna, em que o médico se tornou um técnico, e em que a subjetividade e a causalidade psíquica foram subordinadas aos novos tratamentos medicamentosos, cabe à psicanálise marcar a especificidade da historicidade e da singularidade do sujeito.

Permitindo que o sujeito se aproprie do saber produzido no dizer dos sintomas, Freud se retirou da posição de mestre, deslocando-a para o lado do saber inconsciente, subvertendo, assim, o modo como o saber era produzido no cenário científico de sua época (Bursztyn, 2008). Assim, o analista não deveria encarnar a figura do mestre, mas apontar para o saber que não se sabe, enunciado pelo próprio sujeito.

Depois da teoria freudiana sobre o sintoma histérico, podemos conceber o sintoma como um tecido de linguagem, considerando o corpo como submetido ao universo simbólico. Todo sintoma, portanto, está sujeito ao campo da linguagem, deixando de lado a concepção positivista de determinação orgânica. Assim, quando algo “não anda” ao nível do inconsciente, o sujeito não consegue mais dar um passo com suas pernas (Bursztyn, 2008).

No pensamento lacaniano, o conceito de sujeito e de verdade aparecem intimamente ligados (Dews, 2003). A verdade do sujeito, neste sentido, aparece em momentos de lapso, de branco, de equivocação, e no sintoma. Na realidade, o sintoma não enuncia a verdade do sujeito, mas consiste num “semi-dizê-la”, uma vez que participa do enigma da verdade, mas mesmo quando supostamente desvelado contém ainda algo cifrado ao sujeito (Gomes e Neme, 2010). Podemos concordar, então, com Lacan (1998a), quando este diz que a linguagem é um instrumento da mentira humana atravessada inteiramente pelo problema de sua verdade.

Na psicanálise, portanto, o sintoma constitui o sujeito, ou melhor, é a origem do sujeito (Canavêz e Herzog, 2007). Eliminar o sintoma significaria eliminar aquilo que há de mais singular e original no indivíduo, eliminar sua própria verdade. O que a psicanálise propõe, portanto, é a passagem de um semi-dizer o sintoma para um bem-dizer, para um consentimento da castração. Isso, por sua vez, implica em um efeito na enunciação do sujeito, implica em uma mudança no estilo de pensamento, em uma mudança na economia do gozo. A psicanálise, portanto, convida os analisandos a um trabalho que os coloca numa posição contrária à posição habitual, contrária ao processo de normalização da individualidade (Birman, 1989). Espera-se, com isso, positivar o que há de mais singular em cada discurso, em cada subjetividade, promovendo a manifestação da originalidade de cada sintoma, extravasando as categorias diagnósticas e mesmo todo o conhecimento prévio que um analista poderia supor possuir (Canavêz e Herzog, 2007).

Não compete ao analista silenciar o sintoma, eliminando-o como um corpo estranho que invade o psiquismo, mas dar-lhe voz para sua manifestação. Por isso, à psicanálise não cabe buscar a origem do sintoma, característica da ciência moderna que se preocupava com relações causais e lesões visíveis ao olhar científico, mas passar à dimensão inventiva do sintoma, ao que se revela como um vazio original no sujeito, atribuindo ao sintoma uma função que ordena a vida e contribui para estruturar também as relações humanas (Canavêz e Herzog, 2007).

Sobre o Autor:

Oliver Schmidt Silva é graduando de Psicologia pela Universidade Federal do Paraná.

Referências:

Birman, J. (1989). Freud e a experiência psicanalítica. Rio de Janeiro: Taurus-Timbre.

Bursztyn, D. C. (2008). O tratamento da histeria nas instituições psiquiátricas: um desafio para a psicanálise. Estudos e pesquisas em psicologia, 8(1), 126-135.

Canavêz, F. & Herzog, R. (2007). A singularidade do sintoma: por uma crítica psicanalítica à ideia de origem. Psic. Clin., 19(1), 109-124.

Dews, P. (2003). O psicanalista aplicado. In: Matet, J. D. & Miller, J. (Eds.), Pertinências da psicanálise aplicada: trabalhos da Escola da Causa Freudiana reunidos pela Associação do Campo Freudiano. Rio de Janeiro, Forense Universitária, 27-31.

Figueiredo, A. C. & Tenório, F. (2002). O diagnóstico em psiquiatria e psicanálise. Rev. Latinoam. Psicopat. Fund., 1, 29-43.

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Pimenta, A. C. & Ferreira, R. A. (2003). O sintoma na medicina e na psicanálise – notas preliminares. Rev. Med. Minas Gerais, 13(3), 221-228.

Quinet, A. (s/d). A ciência psiquiátrica nos discursos da contemporaneidade. In: Estados gerais da psicanálise [online]. Recuperado em 17 de junho de 2011, http://www.oocities.org/hotsprings/villa/3170/AntonioQuinet3.htm

Quinet, A. (2003). A descoberta do inconsciente: do desejo ao sintoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

Vieira, M. A. (2001). Dando nomes aos bois: sobre o diagnóstico na psicanálise. In: Figueiredo, A. C. (Org.). Psicanálise: Pesquisa e Clínica. Rio de Janeiro: IPUB/CUCA.