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Os mecanismos de defesa constituem operações de proteção postas em jogo pelo Ego ou pelo Si-mesmo para assegurar sua própria segurança. Os mecanismos de defesa não representam apenas o conflito e a patologia, eles são também uma forma de adaptação. O que torna “as defesas” um aspecto doentio é sua utilização ineficaz ou então sua não adaptação às realidades internas ou externas. (Bergeret, 2006).

Os mecanismos de defesa fazem parte dos procedimentos utilizados pelo Eu (Ego) para desempenhar suas tarefas, que em termos gerais consiste em evitar o perigo, a ansiedade e o desprazer.

Entre os mecanismos de defesa é preciso considerar, por um lado, os mecanismos bastante elaborados para defender o Eu (ego), e por outro lado, os que estão simplesmente encarregados de defender a existência do narcisismo. Freud (1937) diz que mecanismos defensivos falsificam a percepção interna do sujeito fornecendo somente uma representação imperfeita e deformada.

Os mecanismos de defesa constituem operações de proteção postas em jogo pelo Ego ou pelo Si-mesmo para assegurar sua própria segurança. Os mecanismos de defesa não representam apenas o conflito e a patologia, eles são também uma forma de adaptação. O que torna “as defesas” um aspecto doentio é sua utilização ineficaz ou então sua não adaptação às realidades internas ou externas. (Bergeret, 2006).

Fenichel (2005) diz que as defesas patogênicas, nas quais se radicam as neuroses, são defesas ineficazes, que exigem repetição ou perpetuação do processo de rejeição, a fim de impedir a irrupção de impulsos indesejados; produz-se um estado de tensão com possibilidade de irrupção.

Foi a partir de um desses mecanismos, o recalque, que o estudo dos processos neuróticos se iniciou. Não obstante, o recalque é algo bastante peculiar, sendo mais nitidamente diferenciada dos outros mecanismos do que estes o são entre si.

Os primeiros tradutores de Freud utilizaram o termo “Ego” para dar conta do Ich alemão. Em alemão Ich é um pronome pessoal da primeira pessoa do singular empregado no nominativo, ou seja, sujeito individual ativo da ação. Ich não corresponde portanto, ao ego, que traduziria o Mich alemão, ou seja, um acusativo utilizado para designar o objeto referido pelo verbo, isto é, aqui, o sujeito tomado a ele mesmo (quer dizer, Si-mesmo), ou seja, seu Si-mesmo como objeto. Esse processo concerne à relação narcisista e não a relação de ordem genital, em que o sujeito Eu visa, justamente, a um outro objeto. (Bergeret, 2006). 

Existem mecanismos de defesa encarregados de defender as diferentes instâncias da personalidade (id, Ideal de Si-mesmo, Ideal do Ego, Superego) de um conflito que pode nascer entre elas, assim como conflitos que podem opor o conjunto de todas as instâncias (inclusive o Eu e o Si-mesmo) contra algumas provenientes da realidade exterior; ou ainda exclusiva e excessivamente de um mesmo tipo, o que faz com que o funcionamento mental perca a sua flexibilidade, harmonia e adaptação.

Os mecanismos de defesa mais elaborados concernem ao Eu (ego), enquanto que de natureza mais primitiva se refeririam antes ao Si-mesmo. (Bergeret, 2006) 

Os mecanismos de defesa não se reduzem apenas ao clássico conflito neurótico. Quando se trata de uma organização de modo neurótico, genital e edipiano, o conflito se situa entre as pulsões sexuais e suas proibições (introjetadas no superego). A angústia, é então, a angústia de castração, e as defesas operam no sentido de diminuir essa angústia, seja facilitando a regressão em relação à libido, sendo organizando saídas regressivas, por exemplo auto e alo-agressivas, retomando e erotizando a violência instintual primitiva. (Bergeret, 2006) 

Nas organizações psicóticas toda uma parte predominante do conflito profundo dá-se com a realidade. A angústia é uma angústia de fragmentação, seja por medo de um impacto violento demais por parte da realidade, seja por temor por perda de contato com essa realidade. As defesas contra a angústia de fragmentação podem operar de modo neurótico. Mas, como lembra Bergeret (2006), esse tipo de defesa muitas vezes não basta, e, é quando surgem as defesas próprias ao sistema psicótico: autismo (tentativa de reconstituição do narcisismo primitivo, com seu circuito fechado); recusa da realidade (em todo ou em parte), necessitando às vezes de uma reconstrução de uma neo-realidade, o conjunto desses processos conduzindo à clássica posição delirante. 

No grupo dos estados limítrofes o conflito se situa entre a pressão das pulsões pré-genitais sádicas orais e anais, dirigidas contra o objeto frustrante e a imensa necessidade de que o objeto ideal repare essa ferida narcísica por uma ação exterior gratificante. A angústia que disso decorre é a angústia de perda de objeto, a angústia de depressão. As defesas, nesse caso serão essencialmente centradas nos meios de evitar essa perda e devem conduzir a um duplo maniqueísmo: clivagem interna entre o que é bom (ideal do self) e mau (imediatamente projetado para o exterior), e clivagem externa (entre bons e malvados: não Si-mesmo). Há uma tentativa de aliviar a ferida narcísica arcaica por um narcisismo secundário em circuito aberto, árido, mas impotente para preencher a falta narcísica fundamental. (Bergeret, 2006).

Habitualmente em psicopatologia agrupam-se entre as defesas ditas “neuróticas” o recalque, o deslocamento, a condensação, a simbolização, etc. e entre as defesas ditas “psicóticas”, a projeção, a recusa da realidade, a duplicação do ego, a identificação projetiva, etc.

Entretanto encontra-se estruturas autenticamente psicóticas que se defendem contra a decomposição graças à defesas de modalidade neurótica, mais particularmente obsessiva, por exemplo. Há casos de estruturas autenticamente neuróticas que utilizam abundantemente a projeção ou a identificação projetiva em virtude do fracasso parcial do recalque e diante do retorno de fragmentos demasiado importantes ou inquietantes de antigos elementos recalcados, cujos efeitos ansiogênicos devem ser apagados, de modo certamente mais arcaico e mais custoso, e igualmente mais eficaz. É possível também encontrar angústias de despersonalização em uma desestruturação mínima, de origem traumática (por exemplo), sem que tais fenômenos possam ser atribuídos a qualquer estrutura específica. 

Bergeret (1998) alerta em ter-se a prudência de falar apenas em defesas de modalidade “neurótica” ou “psicótica”, sem fazer previsões acerca da autenticidade da estrutura subjacente.

Freud (1937) lembra que as defesas servem ao propósito de manter afastados os perigos. Em parte, são bem-sucedidos nessa tarefa, e é de duvidar que o ego pudesse passar inteiramente sem esses mecanismos durante seu desenvolvimento. Mas esses próprios mecanismos, que a priori, são defensivos podem transformar-se em perigos. O ego pode começar a pagar um preço alto demais pelos serviços que eles lhe prestam. O dispêndio dinâmico necessário para mantê-los, e as restrições do ego que quase invariavelmente acarretam, mostram ser um pesado ônus sobre a economia psíquica. Tais mecanismos não são abandonados após terem assistido o ego durante os anos difíceis de seu desenvolvimento.

Nenhum indivíduo, naturalmente, faz uso de todos os mecanismos de defesa possíveis. Cada pessoa utiliza uma seleção deles, mas estes se fixam em seu ego. Tornam-se modalidades regulares de reação de seu caráter, as quais são repetidas durante toda a vida, sempre que ocorre uma situação semelhante à original. Concedendo-lhes um teor de infantilismos. O ego do adulto, com sua força aumentada, continua a se defender contra perigos que não mais existem na realidade; na verdade, vê-se compelido a buscar na realidade as situações que possam servir como substituto aproximado ao perigo original, de modo a poder justificar, em relação àquelas, o fato de ele manter suas modalidades habituais de reação. Os mecanismos defensivos, por ocasionarem uma alienação cada vez mais ampla quanto ao mundo externo e um permanente enfraquecimento do ego, preparam o caminho para o desencadeamento da neurose e o incentivam. (Freud, 1937)

Mecanismos de defesa e Resistências

É comum a confusão entre mecanismos de defesa do Eu (Ego) (utilizados patologicamente ou não) com as resistências.

As resistências são noções que concernem apenas às defesas empregadas na transferência (e no tratamento psicanalítico, em particular) por um sujeito que se defende especificamente do contato terapêutico e das tomadas de consciência dos diferentes aspectos desse contato, em particular da associação livre de idéias.

O paciente repete suas modalidades de reação defensiva também durante o trabalho de análise. Isso não significa que tornem impossível a análise. Constituem a metade da tarefa analítica. (Freud, 1937). A dificuldade da questão é que os mecanismos defensivos dirigidos contra um perigo anterior reaparecem no tratamento como resistências contra o restabelecimento. Disso decorre que o ego trata o próprio restabelecimento como um novo perigo.

Contra-investimento

É sobre os representantes ideativos das pulsões que incidem muitos dos mecanismos de defesa.

Quando o superego e as instâncias ideais se opõem ao investimento pelo consciente de representantes pulsionais indesejáveis, há, inicialmente um desinvestimento da representação pulsional ansiogênica. Mas uma certa quantidade de energia psíquica vai se tornando disponível. Não podendo essa energia permanecer assim, ela deverá ser reutilizada em um contra-investimento incidindo sobre outras representações pulsionais, de aspectos diferentes. (Bergeret, 2006)

Formação reativa

É um contra-investimento da energia pulsional retirada das representações proibidas. Por exemplo, a solicitude pode ser uma formação reativa contra as representações violentas ou agressivas; ou as exigências de limpeza e asseio uma reação reativa contra o desejo de sujar.

Fenichel (2005) define as reações reativas como tentativas evidentes de negar ou suprimir alguns impulsos, ou de defender a pessoa contra um perigo pulsional. São atitudes opostas secundárias. 

Bergeret (2006) fala que a formação reativa tem um aspecto funcional e utilitário, contribuindo para a adaptação do sujeito à realidade ambiente. Pois a formação reativa se forma em proveito de valores postos em destaque pelos contextos históricos, sociais e culturais, e em detrimento das necessidades pulsionais frustradas, agressivas ou sexuais diretas, ao mesmo tempo que procura direciona-las de maneira indireta. 

Existem mecanismos de defesa que são intermediários entre o recalque e a formação reativa. Por exemplo a mãe histérica que odeia o seu filho é capaz de desenvolver uma afeição aparentemente extrema por ele, a fim de assegurar a repressão de seu ódio, essa solicitude ou beatude permanece limitada a um determinado objeto.

As formações reativas são capazes de usar impulsos cujos objetivos se opõem aos objetivos do impulso original. Podem aumentar os impulsos de ordem reativa para conter o impulso original. De tal forma que um conflito entre em impulso pulsional e uma ansiedade ou sentimento de culpa dele decorrentes podem tomar, por vezes, a aparência de um conflito entre pulsões opostas.

O individuo pode então intensificar sua formação reativa, na luta com contra-investimento do impulso indesejável. Pode tornar-se reativamente heterossexual para rejeitar a homossexualidade; reativamente passivo-receptivo para rejeitar a agressividade.

Formação Substitutiva 

A representação do desejo inaceitável é recalcado no inconsciente. Fica então uma falta que o ego vai tentar preencher de forma sutil e compensatória. Tentará obter uma satisfação que substitua aquela que foi recalcada e que obtenha o mesmo efeito de prazer e satisfação que aquela traria, mas sem que essa associação apareça claramente à consciência. 

Bergeret (2006) dá como exemplo o transe mítico, que pode constituir somente um substituto do orgasmo sexual: aparentemente não há nada de sexual, na realidade, porém, o laço com o êxtase amoroso e físico se acha conservado, o afeto permanece idêntico. A formação substitutiva vem então constituir um dos modos de retorno do recalcado. 

A formação substitutiva pode da-se no sentido inverso. O sujeito pode tentar mascarar por meio de uma pseudo-sexualidade substitutiva de superfície, suas carências objetais e sexuais, ao mesmo tempo que tenta se assegurar contra a carência de suas realidades narcísicas. O sujeito opera no registro das defesas do Si-mesmo.

Formação de compromisso

É um modo de retorno do recalcado, de tal forma a não ser reconhecido, por um processo de deformação. É um processo que procura aliar em um processo de compromisso, os desejos inconsciente proibidos e as exigências dos proibidores.  

Formação de sintomas

Para a psicanálise os sintomas têm um sentido e se relacionam com as experiências do sujeito. 

Os sintomas são atos prejudiciais, ou pelo menos, inúteis à vida da pessoa, que por sua vez, deles se queixa como sendo indesejados e causadores de desprazer ou sofrimento. O principal dano que causam reside no dispêndio mental que acarretam, e no dispêndio adicional que se torna necessário para se lutar contra eles. Onde existe extensa formação de sintomas, esses dois tipos de dispêndio podem resultar em extraordinário empobrecimento da pessoa no que se refere à energia mental que lhe permanece disponível e, com isso, na paralisação da pessoa para todas as tarefas importantes da vida. (Freud, 1916-1917).

A formação de sintomas é uma forma de retorno do recalcado. “Quer seja de um modo físico, psíquico ou misto, o sintoma não é causado pelo sintoma em si mesmo. Ele assinala apenas o fracasso do recalcamento; não constitui senão o resultado desse fracasso.” (Bergeret, 2006, pág. 98)

O sintoma resulta de três mecanismos precedentes: a formação reativa, a formação substitutiva e a formação de compromisso. Mas é mais complexa do que cada um deles isoladamente. O sintoma assume, graças ao jogo da formação de compromisso e da formação substitutiva, um sentido particular em cada entidade psicopatológica. Bergeret (2006) aponta que a defesa constituída pelo sintoma vai no sentido da luta contra a angústia específica: evitar a castração, na neurose, evitar a fragmentação, na psicose, evitar a perda do objeto, no estado limítrofe. 

Bergeret (1998) lembra que é um pouco equivocado qualificar de saída, demasiado nitidamente, um sintoma como “neurótico” ou “psicótico” sintomas aparentemente neuróticos, por exemplo, podem esconder uma estrutura psicótica ou vice-versa; seria mais prudente falar em sintomas de linhagem neurótica ou psicótica. O autor diz que convém ocupar-se com o sintoma único apenas no uso limitado, para o qual o sintoma foi construído, isto é, “uma manifestação de superfície destinada a expressar a presença de um conflito, o retorno de uma parte do recalque pelos desvios das formações substitutivas ou das realizações de compromisso.” (Bergeret, 1998, pág.48).

Identificação 

A identificação é uma atividade afetiva e relacional indispensável ao desenvolvimento da personalidade. “Como todas as outras atividades psíquicas, a identificação pode, por certo, ser utilizada igualmente para fins defensivos.” (Bergeret, 2006, pág. 101)

De acordo com Laplanche e Pontalis, “um processo psicológico pelo qual um sujeito assimila um aspecto, uma propriedade ou um atributo do outro e se transforma, total ou parcialmente, a partir do modelo deste. A personalidade se constitui e se diferencia por uma série de identificações.”

Existem dois grandes movimentos identificatórios, constitutivos da personalidade: a identificação primária e a identificação secundária. 

Identificação primária: “é o modo primitivo de constituição do sujeito sobre o modelo do outro, correlativo da relação de incorporação oral, visando, antes de mais nada, a assegurar a identidade do sujeito, a constituição do Si-mesmo e do Eu.” (Houser, 2006, pág. 43)

Identificação secundária: é contemporânea do movimento edipiano, se fazendo sucessivamente em relação aos dois pais, em suas características sexuadas, e constitutiva da identidade sexuada e da diferenciação sexual. (Houser, 2006)

Bergeret (2006) diz que na identificação primária o objeto deve ser devorado sem distinção prévia entre ternura e hostilidade, nem entre Si-mesmo e não-Si-mesmo, em um movimento que visa precisar a identidade narcisista de base do sujeito.

A identificação secundária, segundo Bergeret (2006), é destinada a afirmar a identidade sexual do sujeito, com todos os seus avatares possíveis em psicopatologia. A criança, primeiro renunciando a incorporar o genitor amado, depois renunciando à idéia de um comércio sexual com ele, vai se consolar absorvendo as qualidades representadas por ele, por meio desse objeto. Esse movimento pode ir até uma regressão defensiva, com todas as perturbações dialéticas possíveis. Mas as identificações ligadas ao genitor do mesmo sexo vêm normalmente completar e organizar genitalmente as identificações primárias, e abrir caminho para as relações posteriores do tipo verdadeiramente objetal e genital. 

A partir da psicologia coletiva, Freud descreveu um terceiro tipo de identificação: onde o sujeito identifica seus próprios objetos aos objetos de um outro sujeito, e principalmente aos objetos de um grupo por inteiro. Isso se produz por imitação e contágio, fora do laço libidinal direto. (Bergeret, 2006)

Identificação com o agressor

O indivíduo se torna aquele de quem havia tido medo, ao mesmo tempo, o suprime, o que tranqüiliza. Esse mecanismo, descrito por Ferenczi e Ana Freud, pode ir de simples inversão dos papéis (brincar de doutor , de lobo, de fantasma) a uma verdadeira introjeção do objeto perigoso. 

Bergeret (2006) lembra que essa defesa pressupõe uma onipotência mágica do outro e se encontra relacionada com distorções das instâncias ideais, preparando secundariamente para as condutas masoquistas e para as instâncias proibidoras severas.

Identificação projetiva

É um mecanismo descrito por Melanie Klein e faz parte da posição esquizo-paranóide.  É um conceito fundamental para a teoria e clínica, e foi o instrumento teórico com que os kleinianos abordaram a análise dos pacientes psicóticos e limítrofes.

Para Klein a mente tem a capacidade onipotente de se liberar de uma parte do self, colocando-a em um outro objeto; o resultado é uma confusão da identidade, uma perda da diferença real entre sujeito e objeto. (Bleichmar e Bleichmar, 1992).

Através desse mecanismo o sujeito expulsa uma parte de si mesmo, identificando-se com o não projetado; e ao objeto são atribuídos os aspectos projetados, dos quais o sujeito se desprendeu, o que constituiria para Klein uma das bases principais dos processos de confusão. 

Esse mecanismo é produzido por uma motivação pessoal que procura se livrar de certas partes de si mesmo (para Klein os processos de desenvolvimento obedecem sempre a uma intenção inconsciente do sujeito). O bebê pode precisar, para aliviar sua angústia, desprender-se de aspectos dolorosos do seu próprio self, usando a identificação projetiva, colocando-os em sua mãe; mas esta mãe, adquirirá um aspecto persecutório.

Na clínica, quando a identificação projetiva é muito intensa o paciente percebe o terapeuta a partir de suas próprias projeções e sua subjetividade. Esse mecanismo permite desprender-se tanto dos aspectos maus, como dos bons de alguém. O individuo pode situar os aspectos bons fora do self para preservá-los dos aspectos maus internos. 

Uma das consequências da identificação projetiva excessiva é que o ego se debilita, ficando submetido a uma dependência extrema das pessoas nas quais se projetam os aspectos bons, para voltar a recebê-los delas, ou aspectos maus, para controlá-los e assim poder se proteger da ameaça da introjeção. 

Para Klein o equilíbrio entre os processos de identificação projetiva e introjetiva é estruturante do mundo externo e interno. A identificação projetiva constitui-se como um fenômeno normal, base da empatia e da possibilidade de comunicação entre as pessoas. É a intensidade e qualidade que determina se o mecanismo é patológico ou normal. 

Bleichmar e Bleichmar (1992) relatam que a identificação projetiva é base de muitas situações patológicas. Se o sujeito tem a fantasia de se meter violentamente dentro do objeto e controlá-lo, sofrerá um temor pela reintrojeção violenta , tanto no corpo quanto na mente. Isto provoca dificuldades na reintrojeção, que levam a alterações no ego e no desenvolvimento sexual; pode levar o indivíduo a se isolar em seu mundo interior, refugiando-se em um objeto interno idealizado.

Projeção 

Para Freud, existem nesse mecanismo três tempos consecutivos. Primeiro a representação incômoda de uma pulsão interna é suprimida, depois esse conteúdo é deformado, enfim, ele retorna para o consciente sob a forma de uma representação ligada ao objeto externo. 

A projeção ocorre em todos os momentos da vida. Ela é essencial no estágio precoce de desenvolvimento, contribuindo para a distinção entre Si-mesmo e não-Si-mesmo, onde tudo o que é prazeroso é experimentado como pertencente ao Si-mesmo; e tudo o que é penoso e doloroso se experimenta como sendo não-Si-mesmo. Esse é um processo normal que ajuda a fortificar o Si-mesmo e a estabelecer o esquema corporal. 

Fenichel (2005) diz que a projeção é uma reação arcaica que nas fases iniciais do desenvolvimento ocorrem de forma automática e ulteriormente é amansada pelo ego e usada para fins defensivos. O autor destaca que esse mecanismo defensivo só pode ser amplamente utilizado se a função que tem o ego de ajuizar a realidade estiver severamente lesada por uma regressa narcísica. Servindo para toldar mais uma vez os limites entre Si-mesmo e não-Si-mesmo.

Bergeret (2006) assinala que a projeção assinala praticamente um fracasso do recalcamento. Com efeito, com as defesas mais elaboradas, como o recalcamento, principalmente, o ego se defende contra os perigos interiores por meios que utilizam diretamente o inconsciente de maneira imediata e automática. “Se esses procedimentos não bastam mais, torna-se então necessário transformar, pela projeção, o perigo interior em perigo exterior, contra o qual se aplicam os meios de proteção mais arcaicos, mais elementares do Si-mesmo, utilizando e enganando o consciente, tais como a projeção, o deslocamento e a evitação.” (Bergeret, 2006, pág. 103)

Bergeret (2006) destaca que é preciso distinguir na projeção não uma forma de retorno do recalcado, mas um retorno do que, após o recalcamento normal, deveria ter sido recalcado, mas não o pôde ser. A projeção é uma maneira de tratar esse não-recalcado, que, tornando-se incômodo, deve ser eliminado por procedimentos menos eficazes que o recalcamento, mas também menos custosos em contra-investimento. 

Na teoria de Melanie Klein a projeção aparece, primeiramente, ligada à pulsão de morte, cuja ameaça de destruição interna é neutralizada, ao ser expulsa para fora do sujeito. Esta projeção de agressão e de libido permite que se constituam os objetos parciais seio bom e seio mau. 

Introjeção

Nos estágios iniciais do desenvolvimento tudo o que agrada é introjetado. A introjeção é um mecanismo que repete, com objetivo defensivo e regressivo no adulto, esse movimento que consistia em fazer entrar no aparelho psíquico uma quantidade cada vez maior do mundo exterior. Mas como destaca Bergeret (2006), enquanto na criança o ego se encontra enriquecido com isso, no adulto cria-se assim toda uma série de fantasias interiores inconscientes, organizando uma imagem mental íntima que o sujeito vai terminar por considerar como se ela fosse um objeto real exterior. 

A introjeção seria uma defesa contra a insatisfação causada pela ausência exterior do objeto. A incorporação é o objetivo mais arcaico dentre os que se dirigem para um objeto. A identificação, realizada através da introjeção, é o tipo mais primitivo de relação com os objetos. Fenichel (2005) destaca que daí por que todo tipo de relação objetal que depare com dificuldades é capaz de regredir à identificação; e todo objetivo pulsional ulterior é capaz de regredir à introjeção. 

Para os autores kleinianos, há um jogo de interações constantes entre os movimentos projetivos e introjetivos, do mesmo modo que entre os mundos objetais interno e externo, o que contribui para a manutenção de boas relações objetais, vitais para o sujeito. 

Na teoria de Melanie Klein a introjeção é essencial para o psiquismo, pois é através dela que se constroem os objetos internos, o que permite a formação do ego e do superego. Mas para Klein, os objetos que se introjetam nunca são uma cópia fiel dos objetos externos, mas que estes se encontram deformados por uma projeção das pulsões e sentimentos do sujeito.

Há no nível da introversão, um certo número de confusões, principalmente no que tange as diferenças entre introversão, incorporação, identificação, introversão e internalização. 

A incorporação oral descrita por Melanie Klein é essencialmente uma fantasia ligada a representações psíquicas mais corporais do que psíquicas, e não como um mecanismo psíquico propriamente dito.

A identificação secundária incide sobre as qualidades do sujeito e não sobre as recriminações a seu respeito. 

A internalização (ou interiorização) concerne ao modo de relação com outrem, por exemplo, rivalidade edipiana com o pai, enquanto que a introjeção comporta o estabelecimento, no interior de si, de uma imagem paterna substitutiva do pai faltante. (Bergeret, 2006)

A introversão, descrita por Jung e retomada por Freud, incide sobre os fenômenos de retirada da libido em relação aos objetos reais. Essa retirada pode se efetuar de duas maneiras: para o ego (narcisismo secundário) ou para os objetos imaginários internos, as fantasias. 

Na conferência XXIII – O Caminho da Formação de Sintomas – Freud (1916 – 1917) diz que a retração da libido para a fantasia é um estagio intermediário no caminho de formação dos sintomas e merece ser denominada de introversão. Freud considera que a introversão denota desvio da libido das possibilidades de satisfação real e a hipercatexia das fantasias que até então foram toleradas como inocentes. 

Freud diz que um introvertido não é um neurótico, porém se encontra em situação instável, desenvolverá sintomas na próxima modificação da relação de força, a menos que encontre algumas outras saídas para sua libido represada.

Bergeret (2006) aponta que o neurótico busca um ser exterior, objeto edipiano deformado pelos conflitos; o psicótico procura voltar seu amor sobre si mesmo, mas sem sucesso; nos estados-limítrofes o individuo ama um ser imaginário, que se assemelha a seu Ideal de Si-mesmo e ao mesmo tempo um ser real, mas escolhido porque justamente afastado e inacessível. “Esse parece ser o verdadeiro domínio da defesa por introversão, ou seja, uma retirada não estritamente autística, mas constituída por fantasias interiores.” (Bergeret, 2006, pág. 104)

Anulação 

Freud diz que é um processo ativo consiste em desfazer o que se fez. O sujeito faz uma coisa que, real ou magicamente, é o contrario daquilo que, na realidade ou na imaginação se fez antes.

Bergeret (2006) lembra que é conveniente que as representações incômodas, evocadas em atos, pensamentos ou comportamentos do sujeito sejam considerados como não tendo existido. Para isso, o sujeito coloca em jogo outros atos, pensamentos ou comportamentos destinados a apagar magicamente tudo o que estava ligado às representações incômodas.

A anulação ocorre nos atos expiatórios no animismo, em certas necessidades de verificação e, em geral, em todo mecanismo obsessivo, onde uma atitude é anulada por uma segunda atitude, destinada, segundo Bergeret (2006), não somente às consequências da primeira atitude, mas essa atitude em si, pelo próprio fato de que ela constitui um suporte para a representação proibida. Fenichel (2005) diz que a própria idéia de expiação nada mais é do que a expressão da crença na possibilidade de anulação mágica. 

Há vezes em que a anulação não consiste em compulsão em fazer o contrário do que se fez antes, mas em compulsão em repetir o mesmíssimo ato. Fenichel (2005) destaca que o objetivo de repetir (que tem a compulsão) consiste em praticar o mesmo ato liberto do seu significado inconsciente, ou com o significado inconsciente contrário. E se ocorre de o material reprimido se insinuar outra vez na repetição, a qual visa a expiação, uma terceira, quarta, quinta repetição talvez se faça necessária. 

A anulação constitui um mecanismo narcisicamente muito regressivo. Ela deve operar quando os processos mentais mais clássicos, à base de desinvestimento e de contra-investimento não sejam mais suficientes. A anulação irá incidir sobre a própria realidade, pois é a temporalidade, elemento importante do real, que se acha negada, alterada.    

Denegação 

É um mecanismo mais arcaico que o recalcamento. Na denegação o representante pulsional incômodo não é recalcado, mas o indivíduo depende dele, recusando-se a admitir que possa se tratar de uma pulsão que o atinja pessoalmente.

Segundo Bergeret (2006) com esse mecanismo defensivo uma representação pode, tornar-se assim consciente, sob a condição de que sua origem seja negada.

Recusa 

A recusa trata-se de eliminar uma representação incômoda, não a apagando (anulação) ou recusando (denegação), mas negando a própria realidade da percepção ligada a essa representação. (Bergeret, 2006).

Não há necessidade de recalcamento, a recusa incide sobre a própria realidade, que se tornou consciente e não é levada em conta como tal. 

A recusa é essencialmente um mecanismo que se dá nas psicoses e perversões. Na psicose há a recusa de toda a realidade incômoda, sem especificidade, e o delírio vem, se necessário, sobre-investir em uma neo-relaidade compensadora. No perverso a recusa incide sobre uma parte muito focalizada da realidade, ficando o resto do campo perceptivo intacto.

Isolamento

Esse mecanismo é descrito por Freud desde 1894, e consiste em separar a representação incômoda do seu afeto. No isolamento o paciente não esquece os traumas patogênicos, mas perde o rastro das conexões e o significado emocional. Os fatos importantes de sua vida (e que podem ter forte teor patogênico) perdem o significado afetivo, são isolados de sua carga emotiva. 

Bergeret (2006) diz que o isolamento constitui uma forma de resistência freqüente no tratamento analítico, por interrupção defensiva do processo associativo, quando ele põe em evidência elementos angustiantes. 

Fenichel (2005) relata que há casos em que o paciente tenta impedir todo efeito terapêutico de sua análise, realizando-a, toda ela, “isolada”. O paciente aceita a análise enquanto está no consultório, mas ela permanece isolada do resto da sua vida. Há sujeitos que começam e terminam a entrevista com rituais que se destinam a isolá-la daquilo que ocorre antes e depois. 

Fenichel (2005) relata que um tipo de isolamento que ocorre com muita frequência em nossa cultura é aquele dos componentes sensuais e amorosos da sexualidade. Muitas pessoas não conseguem obter satisfação sexual plena porque só são capazes de gozar a sensualidade por pessoas pelas quais não sentem amor ou até com pessoas que desprezam.

Deslocamento

Nesse mecanismo a representação incômoda de uma pulsão proibida é separada de seu afeto e este é passado para uma outra representação, menos incômoda, mas ligada à primeira por um elemento associativo (Bergeret, 2006). O afeto contido em relação a um certo objeto explode contra outro objeto. 

Bergeret (2006) diz que o deslocamento trata-se de um mecanismo muito primitivo e bastante simples, ligado aos processos primários. O deslocamento opera habitualmente nas fobias, diante do fracasso do recalcamento. O isolamento, nos obsessivos, e o deslocamento nas fobias, são complementados pela evitação, destinada a poupar o sujeito a encontrar mesmo a representação isolada ou deslocada. 

Sublimação

Na sublimação o alvo é abandonado em proveito de um novo alvo, valorizado pelo superego e ideal de Si-mesmo. A sublimação não necessita de nenhum recalcamento.

Bergeret (2006) diz que a sublimação constitui um processo normal, e não patológico, à condição de que ela não suprima por si só, toda atividade sexual ou violenta propriamente dita. 

Veja mais em Desenvolvimento psicossexual

Veja mais em Introdução ao Conceito de Pulsão

Veja mais em O recalcamento(repressão)

 

Referências 

Freud, Sigmund (1916-1917). Conferências Introdutórias de Psicanálise, Conferência XXIII  - Os Caminhos da Formação dos Sintomas. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Vol.XVI. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Freud, Sigmund (1916-1917). Conferências Introdutórias de Psicanálise, Conferência XVII - O Sentido dos Sintomas. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Vol.XVI. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Freud, Sigmund (1937). Análise Terminável e Interminável. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Bergeret, J. O problema das defesas. In: Bergeret, J. ...[et al.]. Psicopatologia: teoria e clínica. Porto Alegre: Artmed, 2006.

Fenichel, Otto. Teoria Psicanalítica das Neuroses. São Paulo: Editora Atheneu, 2005

Bergeret, J. A personalidade Normal e Patológica. Porto Alegre: Artmed, 1998.

Laplanche, J. e Pontalis, J. B. Vocabulaire de Psychanalyse. Paris: PUF, 1967. 520 páginas.