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O mundo que habitamos não é somente o mundo da natureza, ele foi transformado pela cultura e tudo o que foi construído pelo homem tem o seu valor. Quando a criança nasce, ela se encontra na condição psíquica de infans, que se caracteriza inicialmente como um estado de fetalização. Denomina-se tal condição psíquica, pois ainda é um estado onde a criança ainda não passou pelas crises subjetivantes como o estádio do espelho e complexo de Édipo.

Segundo Lacan ( 1998,p. 100)  a função do estádio do espelho é estabelecer uma relação do organismo com a realidade. O estádio do espelho é um drama cujo impulso interno precipita-se da insuficiência para a antecipação e que fabrica as fantasias que se sucedem desde uma imagem despedaçada do corpo até uma forma de sua totalidade. O eu constrói-se à imagem do semelhante e primeiramente da imagem que me é devolvida pelo espelho - este sou eu. O bebê olha para a mãe buscando a aprovação do Outro simbólico. Lacan também enfatizou que o investimento da mãe, o olhar relacionado à imagem do filho que gostaria de ter, antecipa um sujeito que está por se constituir.

O sujeito que irá advir é algo formulado anteriormente, o bebê não nasce como eu, se desconhece, ele assume esta imagem antecipada, se identificando a ela, esse movimento se chama suposição de sujeito. Assim, Lacan atribuiu muita importância à presença do outro, que participa por meio do investimento nessa imagem da criança como eu ideal das expectativas e perspectivas dos sonhos mais antigos de seus pais. A imagem, inicialmente, responde as leis do Outro, que introduz o princípio de alteridade, pois o semelhante é ao mesmo tempo outro, assim como o ego também é outro. (Lacan, 1976) diz que por meio desse investimento externo sobre o psiquismo vai ocorrer  um estado em que a criança investe toda sua libido em si mesma. A criança vai poder reconhecer-se. Quando se constrói essa imagem de si mesmo, vai ser defendida como uma necessidade de satisfação narcísica, que se transformará na demanda de ser objeto do amor de um outro. O falo da mãe é completado com o nascimento do filho, pois ela deseja ter um filho, reconhece que seu filho é um ser humano e este chora porque está com fome e lhe dá o seio para a satisfação do bebê . A mãe supõe que o filho precisa dela e supõe que ela tem o que o filho precisa. O bebê antes do Estádio do Espelho se sente como um corpo fragmentado. Sua mãe faz parte dele e ela sente como se ele fosse parte dela. O bebê busca o prazer através do seio materno, porém só quando o bebê perde o objeto do seu desejo é que ele percebe que sua mãe não faz parte do seu corpo e não é completa. Esta perda vem através do significante do pai que são as leis e limitações naturais da vida.

No jogo do fort-da, onde uma criança constrói as primeiras simbolizações, a criança cria um objeto que permite simbolizar a ausência da mãe tornar presente a primeira experiência de brincar. Este objeto passa a ser construído no campo do Outro, visto que ele representa a emergência do desejo e este sempre ocorre no campo do Outro. Para Freud, a criança brinca porque deseja.

Em Lacan, o brincar é um ato, surgido como efeito da estruturação significante do Sujeito. O que importa é o brincar e não o brinquedo, pois o brincar faz a criança querer conhecer o outro.

O vínculo que estabelece a criança é a parentalidade, que está estruturada a partir de 3 eixos, que é o exercício (contexto jurídico), experiência (experiência subjetiva de tornar-se pai ou mãe) e a prática (cuidados, ocupações cotidianas físicas e psíquicas). Cada um deles legitima o outro mas são diferentes.

A criança é marcada desde o nascimento, pelos afetos, carinho e olhar materno, que possibilita a inscrição do desejo daquele que ocupa esta função tão fundamental. O simbólico antecede o imaginário. A escolha do berço contém o desejo dos pais, a forma como é pensado o quarto, o nome, entre outras, acontecendo esse processo simbólico. Para a mãe, a criança é parte e extensão desta, que se apropria dela até que aconteça o corte. Nascem imersas num campo recheado de desejos e fantasias inconscientes dos pais, assim como suas renuncias e traumas que são carregados de imagens, símbolos e emoções. Quando a criança nasce,  ela se depara com a cultura e o encontro da cultura com sua aparelhagem biológica e seu sistema nervoso central vai surgir o psiquismo. A criança é introduzida ao mundo simbólico por quem irá cumprir para ela as funções essenciais de humanização: a função materna e a função paterna. A função materna é constituída pelos cuidados básicos que vão permitir que o bebê sobreviva, pois o bebê precisa que alguém exerça para ele a função materna. Ele precisa mais do que só satisfazer suas necessidades biológicas.

A mãe satisfaz a criança primeiro com a amamentação e também pelos seus afetos, seus desejos, seus sintomas, que se estendem ao filho para serem simbolizados. Nesta simbolização a criança pode apreender o fato crucial para sua existência: a ter sido ou não uma criança desejada. Tudo isso que a mãe está dando a mais, vai permitir sua sobrevivência psíquica. A mãe passa a lhe oferecer um olhar, palavras, toques carinhosos e isso vai construindo no bebê uma vida mental. Segundo Leda Bernardino (2008, p.60) “ele vai estar vivendo experiências que tem significação, a partir do que o outro materno vai passando para ele como experiências boas ou ruins”. Para que uma mãe possa fazer essa função com o bebê, é necessário que ela esteja presente com a sua vida mental, com seu desejo. Um exemplo é quando a mãe está amamentando o bebê, onde deve olhar para a criança, sentir-se mãe dela. Não se trata só de alimentar o filho, mas de viver com ele uma experiência prazerosa, que também é simbólica, de reconhecimento onde ao mesmo tempo que ela está reconhecendo-o como o filho, está sendo reconhecida nessa nova função. A presença materna é o que permite o encontro entre mãe e bebê, no qual se estabeleça um diálogo, um reconhecimento entre eles. O pai exerce a função de corte da simbiose mãe-bebê para retirada da criança do assujeitamento materno e assim possibilitar a organização dos elementos que vão marcando e formando um novo sujeito.

O pai, enquanto função, deve sustentar os atributos a ele conferidos pela mãe e se presentificar perante o filho para garantir a este a saída da totalidade materna. A função paterna possibilita a inserção do sujeito na cultura. Na ligação primeira com a mãe, o sujeito não se move para além daquele mundo mãe-bebê, onde o acolhimento e o vínculo instaura esta posição de um ser do outro. Um como extensão do outro. (Bernardino, 2008).

O pai priva alguém daquilo que, afinal de contas, ele não  tem, isto é, de algo que só tem existência na medida em  que se faz com que surja na existência como símbolo. O pai não castra a mãe de uma coisa que ela não tem. Para que fique postulado que ela não o tem, é preciso que isso de que se trata já esteja projetado no plano simbólico como símbolo. Mas há de fato uma privação, uma vez que toda privação real exige simbolização. Assim é o plano da privação da mãe que, num dado momento da evolução do Édipo, coloca-se para o sujeito a questão de aceitar, de registrar, de simbolizar, ele mesmo, de dar valor  designificação a essa privação da qual a mãe  -se objeto. “Essa privação, o sujeito infantil a assume ou não, aceita ou recusa”. ( Lacan,1999 p. 191).

O pai reestabelece para a mãe a posição de mulher, pois o filho não completa inteiramente a falta da mãe enquanto mulher então se desprende do filho para que este possa ser um na cultura. A ruptura materna atesta a criança como um ser não completo e por não ser completo existe algo que lhe falta. Nesta falta manifesta, se funda o desejo. Só existe desejo, se existir a falta.

As experiências fundamentais se estabelecem pela ruptura e pela falta, como a separação ao nascer, o momento do desmame, o afastamento materno pelo corte paterno, que possibilita ao sujeito a elaboração de sua subjetividade. É a esse conjunto de fatores da posição da mulher enquanto mãe e do homem enquanto pai, que existe para a criança a possibilidade de se tornar um sujeito desejante ou pairar na posição de objeto ou sujeito sem desejo – um nada. Lacan (1995) nos diz que no Completo de Édipo o pai é uma metáfora, ele usa como metáfora porque o pai é um significante que substitui outro significante, ou seja, o pai é um significante que substitui, para o sujeito (criança), o significante da mãe. A primeira relação é entre mãe e filho e é aí que a criança experimenta as primeiras realidades de seu contato com o meio vivo.

O falo, citado por Lacan no complexo de édipo é todo o significante do desejo. O sujeito busca o falo no outro, pois ele é incapaz de ser o próprio falo, e também é incapaz de ser o falo de outro sujeito. No primeiro momento do Complexo de Édipo, a criança busca identificar-se com o que ela supõe ser o objeto de desejo da mãe, ou seja, a criança quer ser o falo.

A partir daí inicia-se um deslocamento, onde o filho imagina que o falo da mãe é o pai (imaginário) e não mais ele. Nesse sentido, pai e falo se confundem: trata-se aí de um falo imaginário, que não circula e que “marca” o pai como onipotente e privador.

Lacan diz que o pai pode dar à mãe o que ela deseja porque ele o tem. A questão da criança está centrada em “ter ou não ter” o falo e não mais em ser ou não ser o falo. No terceiro tempo, há a instalação da função simbólica paterna em que o pai é investido como ideal de eu. É a função paterna que permite que a criança se coloque num lugar ativo, de sujeito desejante, ou seja, é porque me falta algo que eu desejo, que vou constantemente à procura de algo.

Lacan (1984) utiliza-se do espelho como artifício para entender a relação eu/outro. A criança se reconhece ao se olhar no espelho, mas ao mesmo tempo se estranha.

O estádio do espelho pode ser uma passagem do especular para o social. É na adolescência que as referências do sujeito se deslocam do familiar para o social, onde os pais deixam de ser referências para os filhos e surgem novas referências, os ídolos. Embora seja momento de conquistas, os pais não tratam mais os filhos como antes, e isso os machuca. O corpo do adolescente transborda, tempo de reapropriação egóiga. Na passagem adolescente o corpo muda e não temos controle, um imaginário sustentando por uma imagem que o outro especular inicialmente sustenta e a necessidade de uma ordem simbólica, da inserção numa via discursiva (Souza, 1994).

É o momento da reiteração da função paterna que forma a passagem adolescente. No adolescente, é como se ele reconstituísse o corpo que no corpo infantil estava despedaçado, surgindo um novo corpo adulto, com todas as transformações. Assim como no estádio do espelho, o jovem se estranha com o corpo de agora, muitas vezes querendo fazer coisas de adulto e não se reconhecendo. Além de mudar suas referências, ele precisa abandonar o corpo infantil e agora ele reconhece as leis sozinho.

O estádio do espelho abre um caminho de identificações e na adolescência tudo isso volta, tendo a tarefa de validar ou não o que o espelho lhe ofereceu.

Referências:

Bernardino, Leda Mariza Fischer Bernardino. Aspectos psíquicos do desenvolvimento infantil. Ágalma, 2008.

Costa. A. Adolescência e Experiências de borda. POA: UFRGS, 2004.

Lacan, J.- "O estádio do espelho como formador da função do eu." in Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor,1998.

Lacan, J. Escritos. RJ. Jorge Lahar, 1998

Lacan, J. O seminário. Livro: 5: as formações do inconsciente. RJ: Zahar,1999.