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Resumo: Neste artigo visa-se pesquisar os conhecimentos de estudos empíricos e teóricos dentro da psicanálise voltada para psicopedagogia, para a intervenção infanto- juvenil, que sustentam a práxis psicopedagógica clínica. A educação e a psicanálise se correlacionam quando tratamos da relação da aprendizagem e seu aprendiz, uma vez que analisamos o desejo do sujeito que a psicanálise aporta. Nesta pesquisa, algumas obras dos principais psicanalistas do século XX serão utilizadas como base teórica para a sustentação do presente estudo, como Sigmund Freud explicando o início da psicanálise como conhecimento empírico através do método de associação livre sem o uso da hipnose; Anna Freud como percursora da psicanálise infantil, utilizando-se da interpretação de sonhos e brincadeiras para o tratamento das neuroses infanto-juvenil; Donald Winnicott com sua teoria de que a criança é fruto da relação com a mãe quando bebê, usando-se também de brincadeiras e jogos para melhor analisar e suprir as necessidades do paciente durante o tratamento; Jacques Lacan defendendo o fracasso escolar como uma negligência ao prazer do saber por parte do professor, e Pichon-Rivière com a teoria do vínculo e do processo grupal, entre outros, assim como artigos e obras que citam os mesmos.

Palavras-chaves: psicanálise, educação, psicopedagogia clínica, intervenção infanto-juvenil.

1. Introdução

“Existem momentos na vida onde a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar ou a refletir.” (Michel Foucault)

Dentro do sistema educacional, depara-se com crianças e adolescentes que tem dificuldades de aprendizagem não patológicas, ou seja, não orgânicas, causadas por medos, traumas, baixa autoestima, relação do eu com o ambiente externo, a relação da sociedade com o sujeito e vice-versa. Pais e professores vêm- se por vezes sem meios para lidar com tais conflitos, buscando a ajuda de psicopedagogos para a intervenção terapêutica do jovem ou da criança. Os psicopedagogos clínicos por sua vez, buscam no embasamento teórico de várias literaturas de distintos autores, ferramentas que podem ajudar no tratamento do aluno, dentre eles, obras da psicanálise.

Dentro da literatura da psicologia e da psicanálise se pode encontrar as vertentes da psicopedagogia que trata dos conhecimentos relevantes sobre o aprendiz e o ambiente que o cerca. Organizando o contexto teórico em ordem cronológica, tem-se como um dos objetivos a ascensão da importância da psicanálise nos estudos da psicopedagogia, partindo dos estudos sobre os textos de Sigmund Freud, passando pela leitura das obras de Anna Freud, revisando os conhecimentos e estudos de Donald Winnicott e completando com as contribuições de Jacques Lacan e Pichon-Rivière e assim, levantando as dificuldades afetivas que interferem no desenvolvimento cognitivo e no processo de aprendizagem do aluno. Dessa maneira, sugestões serão propostas, inerentes às questões interrelacionais afetivas aos psicopedagogos clínicos, que possam trazer benefícios aos seus alunos durante as intervenções.

Visando aprofundar os estudos sobre as possíveis causas psicológicas que expressam o sofrimento psíquico com relação às ansiedades e sentimentos através da psicanálise, os psicopedagogos clínicos buscam compreender a psique do aluno e ajudá-lo a desenvolver, fortalecer e conhecer suas habilidades e assim melhorar o desempenho dentro da comunidade escolar.

Primeiramente serão trabalhadas as teorias que envolvem a psicanálise, tendo como início os estudos de Sigmund Freud, considerado o pai da psicanálise.

Em seguida, a literatura de Donald Winicott será trabalhada. Donald Woods Winnicott desenvolveu jogos para que fossem utilizados dentro do espaço terapêutico com crianças e adolescentes, esforçando-se para que a consulta se tornasse algo significativo para a criança. Atualmente, a caixa lúdica utilizada pelos psicopedagogos transparece essa preocupação do ‘brincar para tratar’.

Depois, serão introduzidos os conceitos de Jacques Lacan para mostrar que dentro de seu esquema mental, o bebê introjeta de sua progenitora as experiências subjetivas e cognitivas, dando-lhe uma perspectiva privilegiada e individualizada pela qual apreende também os objetos do mundo. Influenciado pela teoria linguística de Saussure, Lacan defende que o significante é uma realidade psíquica produzida por uma imagem acústica, assim como a importância da função do pai no desenvolvimento da criança.

Então, têm-se os estudos psicanalíticos baseados nos textos de Anna Freud, filha de Sigmund Freud, percursora na psicanálise infantil e sua contribuição dentro da pedagogia. Anna deu muita ênfase ao ego na personalidade, não rejeitando o id nem o superego. Estudou principalmente os mecanismos de defesa do ser humano.

Finalmente, os conceitos de Pichon-Rivière serão utilizados, que sempre questionou a prática do ensinar e buscava entender através da psiquiatria o mistério da tristeza. Concluiu que nem sempre o paciente possui uma lesão orgânica, mas sim, uma condição negativa afetiva, tendo a doença como uma tentativa falha de se expressar em seu meio.

2. A Psicanálise e a Psicopedagogia

“A Psicanálise? Uma das mais fascinantes modalidades do gênero policial, em que o detetive procura desvendar um crime que o próprio criminoso ignora.” (Mario Quintana)

2.1. Sigmund Freud: Início da História da Psicanálise

Sigmund Freud nasceu em 1856 em Freiberg, atual Eslováquia. Em 1873 ingressa na faculdade de Medicina e em 1885, após obter seu doutorado em medicina, passa a trabalhar com Charcot, mas é somente em 1896 que o termo ‘psicanálise’ passa a ser usado por Freud. Em 1900 publica A Interpretação dos Sonhos que traz uma rigorosa análise das palavras pronunciadas pelo sujeito, de suas associações de ideias, de seus pensamentos e de seus sentimentos:

Mesmo quando toda a nossa mente está repleta de algo, quando estamos dilacerados por alguma tristeza profunda, ou quando todo o nosso poder intelectual se acha absorvido por algum problema, o sonho nada mais faz do que entrar em sintonia com nosso estado de espírito e representar a realidade em símbolos.

No final dos anos 1880, Freud é médico e professor especialista em neurologia e seus principais pacientes são os ‘doentes dos nervos’. Ao publicar Tratamento Psíquico em 1890, demonstra a ideia de tratamento da alma, em que o infantil e o passado reminiscente são vistos como causas de doenças psíquicas.

Bertha Pappenhein foi o caso que mais fascinou Freud no final de 1880, caso este mais conhecido como Anna O. Seu amigo Breuer era terapeuta de Bertha, que a abandonou após o caso da ‘gravidez fantasma’ que a paciente delirava e afirmava ser filho de Dr. Breuer. Freud então pegou o caso para si e após várias sessões terapêuticas, surgiu com sua primeira premissa de que a histeria é um assunto de sexo e libido. De acordo com Assis (p.25, 2007), através da expressão do paciente sobre suas lembranças e sentimentos que Freud percebeu a importância da fala, chamando-o de método catártico, criando-se então o método da associação livre.

A ‘teoria da libido’ foi gerada após estudos sobre a transformação do conceito de sexualidade, conferindo a todo prazer uma conotação sexual. Essa sexualidade é entendida como ‘pulsão sexual’ em relação ao ‘objeto’, e os investimentos da pessoa ao objeto são direcionados à satisfação dessa pulsão e apaziguamento de uma tensão. Exemplo disso seria quando uma pessoa investe sua libido em uma atividade intelectual ou artística como forma de reconhecimento social.

Assim, a ‘evolução libidinal’ foi dividida em quatro estágios: oral, anal, fálico e genital. O estágio oral, que ocorre entre o 0 e 2 anos, refere-se ao lábio e à boca como zona erógena, área corporal de prazer. No estágio anal, de 2 a 3 anos, tem-se o controle dos esfíncteres anal e uretral (fezes e urina), onde o controle esfincteriano proporciona à criança o prazer. No estágio fálico, entre 3 e 7 anos de idade, a importância de possuir ou não um pênis faz com que a libido se concentre na região genital. É neste estágio que o complexo de Édipo, o complexo de castração e o processo de identificação ocorrem. Por último, o estágio genital que ocorre entre os 7 anos de idade até a idade adulta, onde ocorre o amadurecimento biológico dos sistemas hormonais, a intensificação dos impulsos, o início da sexualidade genital com o parceiro apropriado e começa a estabelecer um estilo de vida independente, separando seu emocional dos próprios pais.

O complexo de Édipo trata da fantasia de incesto com o sexo oposto, no qual há uma associação a sentimentos de inveja e fúria assassina em direção ao progenitor do mesmo sexo. Para Freud, é no complexo de Édipo que se encontra o núcleo da neurose.

Com relação à educação, Freud sempre deu preferência a uma leitura mais abrangente quanto aos conceitos educativos como crítica ao sistema de educação “ao destacar que reduzia o sujeito a um simples apêndice da sociedade, ao se nortear por ideais sociais e culturais gerais” conforme explica Mrech (p.16,2005). A Educação atual não é uma preparação para a vida do sujeito, ela é a própria vida do aluno.

2.2. Donald Winnicott e a Função da Mãe

Winnicott parte do principio de que a mãe é o sujeito fundamental para o desenvolvimento mental da criança. Em sua visão, a criança não é objeto da natureza, mas uma pessoa que necessita de outra para existir, tendo em questão não sua sexualidade (vida erótica), mas sim a conquista de um lugar para viver. Assis (p.72, 2007) expõe que “dessa forma, as relações familiares são consideradas por ele o fundamento da constituição e do desenvolvimento do bebê e da criança.”.

Na abordagem winnicottiana, o ser humano apresenta potencial criativo que tem a mãe como principal base para a estabilidade mental, tendo a sustentação ou holding a constituição de uma forma de amar através do fator físico, levando em consideração a sensibilidade epidérmica da criança, carregando-a nos braços e cuidando-a ao longo do dia e da noite. A quebra dessa base é o que origina os problemas psicológicos, pois a mãe deve atuar como ‘ego-auxiliar’ da criança, que quando falha, o bebê tem experiência subjetiva de ameaça à sua continuidade existencial, causando na idade adulta a sensação de vazio, futilidade, irrealidade e até mesmo tendências antissociais, psicoses e psicopatia. Para Winnicott, as ‘aberrações’ são causas diretas do mau desenvolvimento emocional infantil.

Quando a mãe não fornece a proteção necessária ao frágil ego do recém- nascido, a criança perceberá tal falha ambiental como uma ameaça, obrigando-a a desenvolver uma ‘casca’ contra a onipotência infantil. A essa casca dá-se o nome de falso self. O verdadeiro self surge através da força que a mãe dá ao ego do bebê quando esta supre as necessidades de onipotência da criança.

Winnicott defende que o desenvolvimento psíquico, ou seja, a maturação emocional se dá em três etapas sucessivas: primeiro, na integração e personalização, onde as experiências iniciais do bebê estruturam o psiquismo, organizando a personalidade e os sintomas da criança. Nesta etapa, a presença de uma mãe confiável que se adapta às necessidades perfeitamente é primordial. A próxima etapa é a adaptação à realidade, na qual o sujeito começa a compreender e a compensar as falhas do ambiente, tornando o mundo externo uma realidade. A mãe tem o importante papel de prover ao filho tais elementos da realidade. Quando isso não ocorre, o pensamento do indivíduo começa a assumir o controle e através de uma hiperatividade mental começa a distanciar-se do verdadeiro self. A última etapa é chamada de crueldade primitiva que remete à relação de amor e ódio que o bebê experimenta com a mãe e objetos. A falta de suporte da mãe resultará em profundas marcas na personalidade, afetando a motivação, a criatividade, a sensação de segurança e confiança na realidade externa.

O brincar faz parte do crescimento, sendo a autêntica aprendizagem por ser espontâneo, criativo e cotidiano. Assis (p.75, 2007) diz que

É muito importante que os educadores notem que os fenômenos e objetos transicionais estabelecem a relação necessária entre o subjetivo e o objetivo, entre o interno ao indivíduo e o que lhe é externo, entre a fantasia e a realidade. Dessa forma, possibilitam o espaço o sonho, a esperança, a criatividade, as artes, a religião, a ciência e, ressaltemos, para a curiosidade e, consequentemente, para a aprendizagem.

Winnicott (p.47,1975) enxerga a psicoterapia como uma brincadeira entre o paciente e o psicoterapeuta, havendo uma comunicação no brincar: “No fantasiar, o que acontece, acontece imediatamente, exceto que não acontece.”. Nota-se como é importante a interação através de brincadeiras entre o terapeuta e o paciente, pois brincam juntos, criando um mundo externo entre o familiar e o não-familiar, onde imaginamos, fantasiamos e trazemos à tona nossas experiências de vida.

O natural é o brincar, e o fenômeno altamente aperfeiçoado do século XX é a psicanálise. Para o analista, não deixa de ser valioso que se lhe recorde constantemente não apenas aquilo que é devido a Freud, mas também o que devemos à coisa natural e universal que se chama brincar. Winnicott (p.63,1975)

Enquanto o professor visa o enriquecimento de conteúdos e conhecimentos, o psicoterapeuta tem como principal função entender os processos de crescimento da criança e eliminar os bloqueios que impendem o desenvolvimento do indivíduo, fazendo assim o uso terapêutico do brincar da criança. Dentro desse contexto, o psicopedagogo também faz uso do brincar para sua terapia com o aluno, que neste caso, utiliza-se, dentre outros recursos, da caixa lúdica. A caixa lúdica, também conhecida como caixa de areia, é composta de uma caixa de madeira, com ou sem areia fina, e componentes a serem inseridos como miniaturas, baralhos, livros, sucatas, etc., que o aprendiz escolhe de acordo com sua vontade de brincar ou contar história no momento. A caixa é utilizada na psicopedagogia para que o aluno possa organizar seu pensamento e emoções envolvidos no processo de aprendizagem. Küster (in Barbosa, p. 70, 2010) diz que “ao brincar com as miniaturas na composição de cenas na areia, o aprendiz exercita a experiência de tomar a realidade do objeto para transformá-la, aceitando os limites que ela impõe”.

2.3. Jacques Lacan e o Nome-do-Pai

“Se Deus está morto, então tudo é permitido” Diálogo do pai Karamazov, obra de Dostoiévski

Jacques Marie Émile Lacan nasceu em Paris em 1901, formou-se em Medicina e especializou-se em Psiquiatria. Seus seminários e suas palestras influenciaram o meio cultural francês. Christian Dunker, psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo diz que “numa época em que a psicanálise buscava fundamentações na Biologia, Lacan escolheu a linguística e a lógica para reconfigurar a teoria do inconsciente”. Para Lacan, o discurso faz com que o ser humano se sujeite à linguagem, submetendo-se aos efeitos do significante, o que varia no discurso é o papel que o sujeito ocupa como agente.

Lacan designou de Simbólico o desejo psíquico ligado à função da linguagem. Esse desejo entende-se como a negatividade do mundo narcísico, que não complementa a imagem e não satisfaz as pulsões, como descreve Pinto (2007). O homem está sempre em conflito com a civilização.

Mrech (in Nova Escola, 2008) explica que sobre a educação, Lacan considera o conhecimento como um ato inerte, já que não há um desejo genuíno desse saber, principalmente porque o professor não busca trabalhar novas possibilidades de prazer (gozo) dos alunos, levando-nos a entender que um dos motivos pelo fracasso escolar seja o desinteresse do aluno. Lacan buscou esclarecer a dinâmica entre o Eu e as instituições de ensino. Mrech (ibid) afirma que “o pai, o professor e as demais figuras de autoridade perderam o lugar simbólico de poder e excelência” e por esta razão, nos deparamos com fatores que dificultam o ensino, como por exemplo, a resistência de alguns alunos em aprender e de alguns professores em ensinar. Mrech (ibid) ainda acrescenta “O ensino não é mais concebido de forma ingênua e, com base nisso, tem-se a certeza de que não é possível haver a transmissão integral de conhecimentos.”.

No entanto, o próprio objeto da Educação, do ponto de vista científico, é difícil de ser apreendido, dificultando o exercício do trabalho do professor, tornando a prática limitada, a Educação limitada e o professor limitado.

A problemática na educação tem como ponto de partida dois elementos: o ensino/aprendizagem e a transmissão. Correa (p.02, 2009) diz que de acordo com a abordagem lacaniana, a transmissão é transferência de saber, e tem como efeito o surgimento do amor ao saber. Essa suposição do saber está presente na literatura de Freud onde o sujeito tem sua estrutura baseada no Outro, ou seja, a transmissão da tradição feita pela figura parental é uma herança simbólica, transmitida entre gerações, no qual Correa (p.07, 2009) defende que “só há transmissão e, portanto, educação, se estivermos submetidos a essa autoridade (do pai)”. Tal autoridade é explicada por Lacan como sendo um segundo momento marcado pela introdução de um outro elemento na vida do bebê que está também relacionado à mãe: Nome-do- Pai no Inconsciente. A figura do ‘pai’ na realidade é dada àquele que exerce tal função, não sendo necessariamente o pai biológico da criança. A função paterna deve ser mediada pela mãe que, quando essa inclusão falha, temos a foraclusão do Nome-do-Pai (a não inclusão), ocasionando em graves rupturas na constituição psíquica na criança, e acarretando a impossibilidade de fundação do sujeito, conforme explica Santana e Lima (p.02, 2006).

Freud (in Correa, p.03, 2009) sugere que a educação bem sucedida deve partir do princípio que a dependência do sujeito com as figuras parentais deve ser superada, e isso para um psicopedagogo pode significar que para entender as atitudes e dificuldades de seu aluno, ele deve entender primeiramente com quem o aprendiz convive e quem são as figuras parentais dele.

2.4. Anna Freud, A Precursora da Psicanálise infantil

Segundo Assis (2007), foi Anna Freud quem buscou estabelecer uma ligação entre a psicanálise e a pedagogia em seus trabalhos sobre o ego e os mecanismos de defesa. Anna defendia que a abordagem psicanalítica deveria vir associada a uma ação educativa, ou seja, a pedagogia psicanalítica.

Após 1940, Anna deu origem ao movimento neofreudiano denominado ‘Psicologia do Ego’. De 1950 até 1982, quando morreu, Anna publicou vários livros e proferiu palestras e cursos pela Europa e Estados Unidos. Em um de seus discursos, quando a questionaram sobre um livro biográfico, Anna disse “E tudo o que vivi poderia ser resumido em uma só frase: passei a vida entre crianças.”.

Durante sua carreira como psicanalista infantil, Anna questionava as teorias de que uma rígida disciplina fazia com que a criança se desenvolvesse de maneira saudável. Tratava das neuroses infantis através de brincadeiras e interpretando seus sonhos, no qual teve imensa contribuição à terapia infantil para os dias de hoje, principalmente para as crianças e adolescentes que padecem de laços afetivos, são filhos de pais separados e sofrem a exclusão social. Com relação à interpretação dos sonhos, Anna (p.40, 1971) esclarece:

Temos na interpretação dos sonhos um campo em relação ao qual podemos aplicar, de forma inalterada, às crianças os métodos que se aplicam aos adultos. Durante a análise as crianças sonham nem mais nem menos que os adultos, a transparência ou a obscuridade do conteúdo dos sonhos se ajustam, como acontece com os adultos, à força da resistência. Os sonhos das crianças são, sem dúvida, mais fáceis de interpretar, ainda que não sejam sempre tão simples quantos os exemplos expostos em A Interpretação de Sonhos.

Quanto às brincadeiras, a psicanalista as utilizava quando as crianças não se mostravam favoráveis ao método de associação livre. Dependendo da idade da criança, esta se mostra insuscetível ao método, ou porque é incapaz de reproduzir seus sonhos por não se lembrar, ou simplesmente porque não quer contar. Anna (p.52, 1971) diz que “A técnica de análise através do brinquedo elaborada por Melanie Klein, é, sem dúvida, de valor para a observação da criança.”. A criança por natureza não é manipulável pelos métodos de terapia científica, por mais eficazes que sejam.

Na educação, o analista, neste caso o psicopedagogo clínico, tem a função pedagógica de entender o que se passa com a criança não somente no âmbito interno, mas também externo, investigando o que ocorre no ambiente em que se encontra, como o núcleo familiar e a escola. Segunda Anna (p.99, 1971) “isso lhe permite examinar e criticar a influência educacional sob a qual a criança está sendo criada”, pois o Ego da criança pode ser inundado de culpa se esta não reage de acordo com o esperado pelo sistema educacional, gerando uma autocrítica que a considera um fracasso, e assim, o sentimento de tensão e ansiedade podem originar a neurose.

2.5. Enrique Pichon-Rivière e a Psicologia Social

Nascido em 1907 na Suíça, Pichon-Rivière formou-se médico psiquiatra em 1936 em Rosário na Argentina e em 1940 fundou a APA (Asociación Psicoanalítica Argentina) e na década de 50, participou da criação da IADES (Instituto Argentino de Estudios Sociales) e da Primeira Escola Particular de Psicologia Social da Argentina. Faleceu em 1977 em Buenos Aires.

Orientado pelos estudos das obras de Freud e tendo como ponto de partida os dados sobre as estruturas e características de conduta desviada que ajudavam no tratamento dos pacientes psiquiátricos, Pichon-Rivière começou sua formação psicanalítica. Em sua obra O Processo Grupal (1985), descreve a importância do vínculo, unidade mínima de análise da psicologia social, como base da necessidade, fundamental para a motivação da internalização do objeto. Essa internalização pode trazer características determinadas pelo sentimento de gratificação ou de frustração, fazendo desse vínculo algo bom ou ruim. Pichon-Rivière explica (p.11,1985) que “las relaciones intrasubjetivas, o estructuras vinculares internalizadas, articuladas en un mundo interno, condicionarán las características del aprendizaje de la realidad”, ou seja, a realidade do sujeito dependerá de como ele o internalizou. A fragmentação desse objeto de conhecimento, produto da fragmentação do vínculo, pode colocar a experiência em sentindo contrário, tendo momentos de divergência e convergência, gerando a dificuldade da integração destes dois momentos no âmbito da aprendizagem. As consequências desse contexto são sérios distúrbios de comunicação e aprendizagem da realidade. Assim Pichon-Rivière (p.14, 1985) conclui: “De esto deriva mi definición de vínculo, sustituyendo la denominación freudiana de relación de objeto.”.

O vínculo afetivo de grupo pelo sujeito começa ainda no útero da mãe, quando a criança estabelece dentro da reação biológica o vínculo com a família. Esse vínculo, de fator social, pode gerar segurança ou insegurança, dependendo de sua convivência após o nascimento com sua progenitora. Temos também o fator constitucional que é o desenvolvimento de seu desempenho dentro do grupo familiar e o fator atual, que indica seu conflito atual com relação ao grupo e, dada às circunstâncias em um âmbito negativo pode dar início à depressão e outras doenças psicológicas: “La tristeza, el dolor moral, la soledad y el desamparo derivan de la pérdida del objeto, del abandono y de la culpa” (Pichon-Rivière, p.25,1985).

Na obra A Teoria do Vínculo (2000), temos que no centro de todo vínculo, seja afetivo, paranoico, obsessivo, entre outros, há uma relação do sujeito com o objeto, seja este interno ou externo. Cada vínculo tem um significado particular para cada indivíduo, podendo ser um livro, um isqueiro, um carro, etc. que de acordo com Pichon-Rivière (p.49, 2000) “forma una estructura perfectamente visible, controlable e investigable con los métodos de la Psicología Social”.

Portanto, na Educação, fica claro que, de acordo com o psiquiatra argentino, o aluno tem de ter um vínculo positivo com a matéria ensinada, motivado pela vontade do conhecer, do saber. Mas não somente com a matéria, mas com todo o ambiente escolar em si, no qual o resultado desse aluno seja a criação, produção ou ação perante os objetos de estudos. Pichon-Rivière (p.79, 2000) defende que “el proceso de aprendizaje debe comprenderse como un sistema de cierre y apertura que funciona dialécticamente. Se cierra en un determinado momento y luego se abre para volver a cerrarse posteriormente”, ou seja, o processo ensino-aprendizagem é um ciclo que se abre e fecha a cada etapa que modifica e enriquece o aluno.

3. Metodologia: artigo de revisão

Para a realização deste artigo, usou-se do conhecimento científico literário, ou seja, pesquisa de caráter bibliográfico, sendo este o produto resultante da investigação científica, sendo utilizado dentro da literatura pertinente ao tema, interpretações textuais e citações de textos originais, obras e artigos.

4. Considerações Finais

A relação de aprendizagem e seu aprendiz estão diretamente relacionados com as dificuldades de aprendizagem não orgânicas, ou seja, conflitos como medos, traumas de infância, baixa autoestima, a relação do eu com o ambiente externo, o aluno e a sociedade que o cerca como a escola, seu lar, seus amigos, etc., e para que o psicopedagogo ajude o aluno a se desenvolver, fortalecer e conhecer suas habilidades, o profissional pode se apoiar nas literaturas de Freud, já que este especifica em suas publicações os estágios psíquicos relacionados à infância do sujeito, seu ambiente externo e seu relacionamento na sociedade, principalmente com o pai e a mãe, tendo como ferramenta o método da associação livre, onde o sujeito fala livremente sobre seus sentimentos e seus medos sem interferência do terapeuta.

Winnicott por sua vez, defende que o brincar faz parte do crescimento como aprendizagem autêntica e tem-se portanto a caixa lúdica como ferramenta para o psicopedagogo ajudar seu aluno a organizar seus pensamentos e assim lidar com seus conflitos. A caixa lúdica faz parte de um brincar utilizada em um contexto interativo e criativo.

Ao se tratar da educação da criança, o psicopedagogo clínico pode buscar apoio nas literaturas de Lacan, Anna Freud e Pichon-Rivière, já que defendem que a disciplina e a aprendizagem fluem somente quando o aluno está motivado afetivamente, e seus traumas superados. Lacan explica que a imagem do pai, depois da relação mãe-bebê, tem função primordial no desenvolvimento da criança na sociedade. Já Anna Freud defende que é através das brincadeiras e interpretações dos sonhos que se consegue tratar as neuroses infantis, e não através de disciplina rígida como acreditava-se antigamente. Para finalizar, o profissional pode se apoiar também nos trabalhos de Pichon-Rivière que defende que a baixo autoestima pode ser tratada quando existe um vínculo afetivo positivo com alguém do meio, neste caso, o psicopedagogo clínico.

Conclui-se, portanto, que a Psicanálise não é mais ignorada pela Educação, já que a educação terapêutica é um tipo de intervenção praticado junto às crianças com problemas no desenvolvimento cognitivo, sendo um conjunto de práticasinterdisciplinares de tratamento com ênfase nas práticas educacionais. Mrech (p.13,2005) afirma “ninguém mais ignora o impacto da obra de Freud na cultura.”.

Tanto a Psicanálise quanto a Educação, buscam ajudar o indivíduo a criar sua autonomia, capaz de refletir e dar sentido às atividades, porém ambas também devem enfrentar, cada uma em seu devido espaço, a questão da instituição escolar na sociedade.

Talvez, a grande contribuição que as articulações entre a Psicanálise e a Educação possam trazer diga respeito a um olhar mais atento para aquilo que fazemos, como fazemos, de que jeito fazemos, com quem fazemos, etc. Mrech (p.156, 2005)

Sobre o Autor:

Cecilia Elisabete Aguirre de Fazzio - Especialista em Metodologia do Ensino da Língua Portuguesa e Estrangeira (Faculdade Internacional de Curitiba, Curitiba, PR), Psicanalista (Faculdade de Teologia de São Paulo/SP) e Psicopedagoga Clínica e Institucional (Faculdade Internacional de Curitiba, Curitiba, PR)

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